ESPAÇO ABERTO
Amigos do José, pero non troppo
José Mario Angeli
Chegou até minhas mãos um panfleto intitulado amigos de José Richa. Os amigos, por estarem indignados com a corrupção, propõem que se vote em candidatos indicados pelo grupo e apresentava os candidatos à Presidência, ao governo e ao Senado. No entanto, não falavam do Legislativo. Esses candidatos seriam os amigos dos amigos e capazes de combater esse estado de indignação e desesperança pelo qual passa um setor da sociedade brasileira.
Este panfleto é a expressão da falência da política. Os amigos do José Richa não estão dispostos a superar as determinações históricas que fizeram da política esta relação de amigos. Os amigos apresentados representam a forma mais acabada de Estado refém de interesses privados. Quando os amigos apresentam candidatos de partidos teoricamente antagônicos, defendendo o candidato à Presidência pelo PSDB, o governador pelo PDT, o senador pelo PSDB, deixam evidente que prevaleceu na cena política a relação de amigos. Não contando com o peso de idéias, apresentam-se como amigos do Zé Richa. Será? Quem são eles? Por que não se apresentam? As pessoas apresentadas ocupam a cena política com mandatos ou cargos há aproximadamente 30 anos. A contradição entre o PSDB, que tem se pautado por políticas de caráter neoliberal e aposta no aprofundamento das reformas trabalhista e previdenciária, privatizações com profundo impacto para o trabalhador assalariado e, o PDT, que se apresenta como herdeiro do trabalhismo getulista, parece não incomodar os amigos. Ao apresentar indivíduos, que incluem no currículo o combate à corrupção e serem dotados de competência, explicitam sua verdadeira vocação política: são amigos do poder! Pregando contra o voto nulo, pois, segundo eles, o voto nulo beneficia os donos do poder. Evitam deixar claro que são e querem continuar sendo partícipes do poder. Dominam o Congresso, o Estado e os municípios há muito tempo. Construíram um Estado, no Executivo e sua burocracia, no Legislativo e no Judiciário, que funciona com a corrupção escancarada ou como agente garantidor de privilégios.
Panfletos desse gênero dificultam o entendimento de boa parte da população. Como o eleitor pode balizar a sua escolha para a Câmara, Assembléia e Senado, já que os partidos não explicitam seus projetos de Estado, sociedade e governo? São esses candidatos em campanha que aparecem monótona e monocordicamente falando em combate à corrupção, sem dizer como fazê-la. Falam em nome de todos. Apresentam-se como defensores de todos. Será isto possível, quando a sociedade tem interesses contraditórios? Ao omitirem uma firme posição em relação ao Legislativo, representam a si mesmos e suas vontades de poder.
Continuarão utilizando instrumentos, como as emendas parlamentares do orçamento, para cevar suas bases e, com isso, estabelecem uma relação promíscua com o Executivo e com o aparelho burocrático do Estado, rompendo com qualquer possibilidade real de o Legislativo ser o fiscal do Executivo e representante dos diferentes projetos de sociedade.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina
Votos mortos
José Carlos Guitti
Dois acontecimentos ocuparam os espaços mais importantes da mídia no primeiro fim de semana de outubro. Não houve quem não sentisse o coração contrito com o terrível acidente aéreo que vitimou tanta gente. O outro acontecimento, caso tenha passado pelo coração, o fez de leve, porque o endereço era a cabeça de cada um de nós, brasileiros: o resultado das urnas. O povo mandou seu recado e quero crer que a maioria o fez de forma consciente. Os desvios correram por conta da diversidade humana.
Em São Paulo foi eleito um conhecido estilista, provavelmente por brincadeira dos eleitores. Outro cidadão, no mínimo uma personalidade exótica, que raspou a barba mas manteve o olhar lunático, foi reeleito para continuar fazendo absolutamente nada, à custa de votos que só podem ter sido de protesto. Um notório corrupto e outros de menor envergadura também foram levados à Câmara Federal. Não critiquemos nossos vizinhos porque também nós, londrinenses, ajudamos a eleger deputado estadual um ex-prefeito cassado por corrupção. É coisa difícil de engolir, porém fácil de entender.
No entanto, merece maior reflexão, no momento, a atitude daqueles que optaram por anular seu voto ou que o fizeram em branco. Não são poucos os que assim procederam e, talvez sem se dar conta, são avalistas cegos. Ocorra o que ocorrer, eles lavaram as mãos, como se nenhuma responsabilidade tivessem com o futuro de nosso Estado e do Brasil. Não terão direito de reclamar de coisa alguma, embora constituam uma massa crítica de língua ferina, muitas vezes debochada.
As vítimas do desastre do avião talvez estivessem com o título de eleitor às mãos, mas a fatalidade as impediu de manifestar sua vontade nas urnas. Não sei se é razoável dizer que foram votos mortos. Há outros tipos de votos mortos: o nulo e o voto em branco. Aqueles foram involuntários e, estes, de propósito. Pode-se até dizer que foram votos suicidas. Quem anulou de alguma forma o seu voto não agiu por preguiça, nem por desleixo. Como agravante, sabe-se que não são pessoas desavisadas, incultas, incapazes de discernimento. Esses votos de pseudoprotesto esparramados por todo o Brasil, somados, garantiriam a vitória de qualquer dos candidatos que disputarão o segundo turno das eleições, seja ele um mentiroso ou um cidadão honrado.
Tais votos representam uma opção imatura, egoísta, como a da criança mimada ao dizer que não brinca mais. Tais eleitores satisfazem apenas seus umbigos, as suas poses de falsos intelectuais. Desculpem-se os votos atribuídos de forma equivocada, mas os brancos e os nulos não podem ser desculpados, porque refletem irresponsabilidade civil e absoluta falta de cidadania. Quem assim agiu por aversão ao cenário político atual, teve a oportunidade de contribuir para a sua reversão, apostando em dias melhores. Desprezou essa oportunidade. Quem sabe, a partir dos debates que se sucederão entre os candidatos nestas semanas que antecedem o segundo turno das eleições, possa refletir melhor e votar com responsabilidade.
JOSÉ CARLOS GUITTI é professor de Pediatria na Universidade Estadual de Londrina
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