Francisco de Assis e a paz

Ildo Perondi
  Hoje celebramos o Dia de São Francisco. Há mais de 800 anos em Assis, na Itália, o mundo recebeu de Deus este presente. Ele não é apenas um Santo da Igreja. Francisco de Assis é admirado por todas as pessoas que sonham com a paz e com um mundo melhor. O que fez e faz de Francisco de Assis esta criatura tão admirável que une pessoas de diversos credos e propostas? Francisco não viveu para si, viveu para Deus e para o mundo. No meio de uma sociedade em conflitos, como era no século XIII, Francisco foi capaz de sonhar e propor alternativas religiosas e civis.
  Francisco foi um homem de paz. Herdou da tradição bíblica e judaica toda a dimensão do que significa o termo Shalom. Ensinava que somos uma grande fraternidade universal, irmãos e irmãs de toda a Criação e que existe beleza na diversidade. O rompimento desta harmonia provoca as guerras, o ódio, as divisões... A fraternidade deve ser vivida com as pessoas e com todas as criaturas, por isso São Francisco foi escolhido o Patrono da Ecologia.
  Vou citar alguns episódios que marcaram sua vida: 1) Certa vez o prefeito e o bispo de Perugia haviam brigado. Francisco foi conversar e rezar com eles, propôs o diálogo. Na praça pública, ambos se abraçaram e selaram a paz. 2) Vivia-se o tempo das cruzadas, a guerra entre cristãos e muçulmanos. Francisco foi até o sultão, falou-lhe com bondade e mansidão. Levou a paz e não a espada. O sultão se encantou com aquele homem simples e pacífico. 3) Um dos episódios mais bonitos da vida de Francisco foi na cidade de Gúbio. Havia guerra entre os moradores e um lobo feroz. Francisco, sem armas, foi até o lobo. Conversou com ele e propôs um pacto. O lobo se tornou manso e as pessoas lhe davam o alimento. Restabeleceu-se a harmonia e a cidade voltou a ter paz.
  São Francisco é lembrado como alguém que foi instrumento de paz. Ele continua cativando as pessoas e nos ensinando que podemos construir um mundo de paz e harmonia. E nos recordando que é inútil o uso de armas contra nossos adversários, e que é mais útil dialogar, conversar com o outro, superar o medo e as barreiras que nos separam.
  Hoje nos encontramos diante da natureza agressiva, que reage contra os maus tratos que recebe através da poluição, do desmatamento, da falta de cuidado. Precisamos dialogar com a natureza e cuidar bem dela e, em contrapartida, ela nos dará a paz e a sua bondade. Até as religiões estão em guerras e conflitos. As religiões devem ‘‘re-ligar’’ e não dividir e guerrear. Não haverá um mundo de paz - continua nos ensinando São Francisco - se não houver também a paz entre as religiões.
  Que São Francisco de Assis continue inspirando a humanidade a buscar o sonho da paz, da fraternidade, do shalom, do diálogo, do respeito e cuidado com a vida. Paz e bem!
ILDO PERONDI é frei Capuchinho e professor da PUC-PR em Londrina


É cego aquele que não quer ver

Julieta Arsênio
  Em solenidade no Palácio do Planalto, o presidente Lula ressaltou em discurso que a regulamentação da Lei 11.126/05, sobre o uso de cão-guia em áreas públicas, é ‘‘uma síntese dos avanços da cidadania no país’’. Dirigindo-se a dezenas de deficientes visuais, alguns acompanhados de seus cães, disse: ‘‘ Vocês passariam a ser tratados ainda como cidadãos de segunda classe ou terceira classe’’. Que, ‘‘o cachorro passe a ser uma parte viva na vida das pessoas’’. Acrescentou ainda que, ‘‘aos poucos, o Brasil vai se transformando num país mais humanista, mais generoso’’ (Folha de Londrina 22/9).
  Que o cão é o melhor amigo do homem, todo mundo sabe, mesmo não sendo regulamentada esses laços de afetividade. Muito mais que um companheiro de todas as horas, o cão-guia é para o deficiente visual um instrumento de locomoção.
  No entanto, diferentemente do cão doméstico comum, o animal que conduz a pessoa com deficiência visual passa por um processo que o habilita a ser guia. A pessoa cega, por sua vez, deve apresentar algumas características específicas para ser usuário de um cão-guia, como ser adulto, saber utilizar bengala para locomoção, ter boa noção de direção e sentido e, acima de tudo, gostar de cães, pois um cão-guia permanece ao lado de seu dono o tempo todo. Além disso, precisa ter condições financeiras para mantê-lo. Seu adestramento específico custa em torno de R$ 6 mil (para treinamento, castração, vermífugos, vacinas e consultas ao veterinário) e sua manutenção requer cerca de R$ 500 mensais.
  O cão-guia dá muito e pede pouco, mas não é uma bengala de quatro patas, que se guarda no armário ou atrás da porta quando se chega em casa. Também, não é tão simples assim, serem agraciados por uma regulamentação. O direito de ir e vir do portador de deficiência visual, também não se restringe ao se sancionar uma lei, é preciso muito mais para que não sejam cidadãos de segunda ou terceira categorias. É preciso que os políticos que estão constantemente na mídia, pelas suas façanhas, deixem de olhar seu próprio umbigo e doem a esses cidadãos brasileiros o que lhes é de direito: sua cidadania.
  Em defesa desses 200 mil brasileiros portadores de deficiência visual, queremos ações e não intenções, pois dessas já nos cansamos e rejeitamos. Afinal, apenas uma minoria quer e consegue fazer parte dessa dupla bem- sucedida. Afinal senhor presidente, que síntese dos avanços da cidadania no país é esse e que generosidade humanística é essa, se mesmo regulamentada a Lei 11.126, de junho de 2005, esses cidadãos ainda passarão a ser tratados como de segunda ou terceira classe? Por favor me poupe, pois é cego aquele que não quer ver.
JULIETA ARSÊNIO é psicóloga do Centro Londrinense de Investigação Psicológica


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