Razões da fé e a violência das religiões

Clodomiro José Bannwart Júnior
  A recente viagem do papa à sua terra natal surtiu efeitos desastrosos no mundo islâmico. O discurso proferido por Bento XVI na universidade de Rastibona sobre o tema fé e razão ressuscitou dos escombros da Idade Média a visão pejorativa de Manuel 2º a respeito de Maomé. O imperador via o profeta como um disseminador de coisas más que ‘‘impunha com a espada a fé que pregava’’. A exigência de líderes religiosos muçulmanos para que o papa pedisse desculpa pela citação usada em seu discurso, resultou em uma reunião com diplomatas de países islâmicos, onde Bento XVI disse que utilizou a expressão com a intenção completamente diferente do que fora interpretado. Na semana passada havia dito que seu discurso, na Alemanha, era um convite para a autocrítica das religiões e que buscava explicar a necessidade de separar a religião da violência e uni-la à razão.
  Se de fato a questão era a realização de autocrítica, não precisava o papa buscar recursos em fonte alheia, pois dentro da Igreja que preside há material farto. Poderia começar, por exemplo, citando os textos de São Bernardo Claraval, no século XII, ao incitar os cavaleiros Templários para a guerra contra os ‘‘infiéis’’ muçulmanos, com as seguintes exortações: ‘‘Na verdade, os cavaleiros de Cristo travam as batalhas para o seu Senhor com segurança, sem temor de ter pecado ao matar o inimigo, nem temendo o perigo de sua própria morte, visto que causando a morte, ou morrendo quando em nome de Cristo, nada praticam de criminoso.’’ (Partner, Peter. Campus, 1991) As palavras de Claraval, à luz dos direitos humanos, assustam qualquer fiel que preze o conteúdo da fé cristã.
  Se a questão, por outro lado, era aproximar a razão da fé, o papa deveria, antes de desferir suas palavras, lembrar que foram os árabes os responsáveis por introduzir no ocidente cristão a racionalidade grega e que a razão aristotélica da teologia cristã, em parte, fora contribuição dos filósofos muçulmanos. Deveria lembrar também que pessoas cristãs como Pedro Abelardo, contemporâneo do santo de Claraval, tiveram o bom senso de acolher o pensamento racional e produzir o renascimento das idéias e do debate livre, cultivando o diálogo com a fé além das fronteiras da cristandade.
  Enfim, diante dos fatos recentes, não justifica a reação de muçulmanos com ações coléricas de protestos, a ponto de colocar sob ameaça a vida do próprio papa. Esse tipo de atitude apenas endossa a idéia de que a fé se coaduna com a violência. Mas, igualmente injustificável é a postura do papa voltar à Idade Média para despertar fantasmas já adormecidos. Se a idéia é contemporanizar os medievais, então é preferível que Bento XVI abaixe a sua espada lexicográfica e abandone a intolerância de um São Bernardo. Certamente poderia se valer melhor de Abelardo, o qual, mesmo inserido no espírito dogmático de uma época, soube promover o respeito e a tolerância.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina


Ser inteligente ou ser bem informado

Ana Cristina de Liz
  Com as mudanças estimuladas pela evolução tecnológica e pelo modelo econômico praticado globalmente cada vez mais as empresas precisam trabalhar de maneira correta com as informações pertinentes ao ambiente interno e externo de sua organização.
  Cansadas de ouvir falar em valorização do conhecimento, era da informação, sociedade do conhecimento, poucas empresas realmente sabem utilizar o conhecimento como um recurso existente no ambiente organizacional. E não adianta implantar sistemas de informação avançados, organizar teleconferências, agendar reuniões se não houver uma seleção das informações disponíveis.
  Esta sociedade do conhecimento tão comentada é proveniente do acúmulo de informações disponíveis hoje no mundo. O homem moderno é incomparavelmente mais informado a respeito do que se passa a sua volta do que seus antepassados, e numa época em que as decisões precisam ser tomadas sempre com maior rapidez, o poder se concentra nas mãos daqueles que têm acesso imediato às informações precisas. Por sua vez, estes podem transformar essa informação em melhoria e aperfeiçoamento para o indivíduo e a comunidade.
  Entretanto, um dos maiores problemas das empresas é a falta total de informações relevantes e a superabundância de informações irrelevantes. Já se admite que o objetivo fundamental da informação é proporcionar condições para visualizar como caminha o empreendimento, se está alcançando os objetivos planejados além de fornecer perspectivas de futuro.
  Se a informação recebida não for precisa ou completa, muitas decisões erradas podem ser tomadas e gerar custos altíssimos para as organizações. A eficiência da informação é verificada na medida em que os custos para sua obtenção são menores do que os benefícios decorrentes do seu uso.
  A informação está disponível no universo humano e empresarial e ao ser absorvida pelo indivíduo, passa a ser conhecimento. Por isso, uma boa administração não é aquela que traz maiores lucros para a empresa, mas aquela que traz uma imagem de empresa que reconhece o valor de seus ativos intangíveis, desde seus funcionários até seus clientes, disseminando as informações entre eles estruturadamente, apresentando então uma imagem de empresa transparente, competitiva e inovadora, ou seja, inteligente.
ANA CRISTINA DE LIZ é administradora em Maringá


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