Um dia para reflexão

José Carlos Vieira
  Ao lado da festa cívica que certamente vivenciaremos, as eleições deste domingo nos oferecerão uma oportunidade de refletir sobre o modelo de sociedade que queremos para nós e nossos filhos, pois que, ao votar, estaremos em verdade, fazendo uma escolha, externando uma opção de como queremos que o Brasil seja no futuro. O ato de votar não é um compromisso que se exaure em si mesmo, ao contrário, seus efeitos se prolongam no tempo, condicionando nossa vida no futuro. Um voto mal dado é uma escolha mal feita, cujos resultados, no mais das vezes, são irreparáveis para o País e seus cidadãos. O povo brasileiro, não por opção evidentemente, é noviço no exercício desse fabuloso instrumento de cidadania que é o voto e bem por isso e por questões conjunturais, não tem feito boas escolhas ultimamente, constatação fácil de fazer, conferindo-se a vida pregressa dos eleitos. Mas como é fazendo que se aprende, estamos no momento de mais um teste para o nosso processo de aprendizado sobre o funcionamento da democracia. Da minha parte, sempre tive em mente que o processo eleitoral deve resultar, primordialmente, no fortalecimento de nossas instituições republicanas, única via possível de consolidação da jovem democracia brasileira. Instituições republicanas fortes colocam de sobreaviso os aventureiros que procuram atalhar o processo democrático na busca do poder, pelo poder. Colocam na defensiva e tornam mais cuidadosos aqueles que se acham senhores da gleba, que se acham acima do bem e do mal. O sistema presidencial, pela concentração de poder que lhe é intrínseco, exaspera as vaidades, inflama os egos, isola o ocupante do cargo, de modo parecer-lhe que não deve contas a ninguém. Daí para o despotismo é um passo. Por isso é preciso que a escolha que todos vamos fazer hoje, leve em conta a necessidade de fortalecimento de nossas instituições, o que significa que teremos de escolher pessoas que por elas tenham respeito e não tentem cooptá-las para os seus projetos pessoais de poder.

JOSÉ CARLOS VIEIRA é advogado em Londrina



Eleição: chegou a hora

Gabriel Bertin de Almeida
  Depois de uma longa campanha, chegou a hora da votação. Como somos obrigados a votar, a escolha deve ser feita. À presidência da República, três candidatos encabeçam as pesquisas. O primeiro deles é nosso atual presidente, que tem chance de vitória já no primeiro turno. Metalúrgico e sindicalista, promoveu avanços na política social, com o aumento da renda dos mais pobres e a diminuição do desemprego. Por outro lado, o número de empregos criados ficou muito aquém do prometido e o Bolsa-Família, principal responsável pela mencionada melhora de renda, não passa incólume, pois é um programa assistencialista, que ‘‘dá o peixe mas não ensina a pescar’’ e, portanto, não incentiva a inclusão efetiva do cidadão que, sem o auxílio financeiro, volta ao status quo ante.
  Outro aspecto relevante é o desabamento do arrogante discurso de superioridade moral do PT. O bordão ‘‘rouba mas faz’’, atribuído ao eterno Paulo Maluf (que é candidato a deputado federal por São Paulo; assim como Fernando Collor, que tudo indica leva a vaga para o senado por Alagoas), caberia também ao governo petista, depois dos sucessivos escândalos.
  O segundo colocado nas pesquisas é o médico e ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Político experiente, mais sem muito carisma, tem dificuldades em firmar-se, mesmo com a enorme ajuda do próprio PT, que cada vez mais se afunda nos próprios desacertos. Não conseguiu alinhar todos os seus colegas de partido. Embora sua vitória não implique modificação significativa do projeto atual de governo, Geraldo, como prefere ser chamado, tem como aliados os partidos postados mais à direita, como o PFL. A influência de colegas como Antonio Carlos Magalhães e Jorge Borhausen incomodam qualquer cidadão com razoável senso democrático. Além disso, seus discursos contra os atuais escândalos parecem ocos, pois quando estiveram no governo (FHC), por 8 anos, também viveram problemas da mesma natureza. Aliás, a aliança PSDB-PFL contou à época com o sofisticado auxílio de José Arthur Gianoti, que defendeu uma esfera de amoralidade na prática política, em que o julgamento de determinados atos (como a aliança) restaria suspenso em razão de uma necessidade (como a governabilidade). A versão petista, menos ilustrada, foi elaborada pelo ator Paulo Betti: ‘‘Não dá para fazer política sem por a mão na merda.’’
  Por fim, a terceira colocada é a já mitológica Heloísa Helena, que, apesar de suas inúmeras qualidades e inequívoca boa intenção, ainda está naquela fase da pós-adolescência, quando se toma contato com o mundo político e se acredita que a culpa é dos ‘‘imperialistas’’, daqueles que ‘‘se curvam ao poder do capital financeiro’’, entre outras curiosidades. Enfim, nossas opções são essas (além dos candidatos menos expressivos). Como o exercício do voto significa escolher a melhor opção disponível, o esforço será grande. Por isso, vemos o crescimento dos adeptos do voto nulo. Sempre é possível, porém, encontrar diferenças, por menores que sejam, para escolhermos nosso candidato.

GABRIEL BERTIN DE ALMEIDA é advogado em Londrina



- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup