Ainda sobre o voto nulo

José Mario Angeli
  Há na cena política um dado importante: as pesquisas mostram um grande número de votos nulos. Por quê? A esperança depositada no governo Lula foi por água abaixo. No momento que o PT abraçou os ditames da ordem capitalista, ele deixou de ser a alternativa à pragmática dominante, dando continuidade às políticas do governo anterior: elevação do superávit primário, ao ajuste fiscal, à defesa dos bancos e finanças globais, incentivo aos capitais voláteis, etc. Por outro lado, as bolsas-famílias não passam de mero assistencialismo que seriam recusadas por conservadores como sendo pouco eficientes para combater a miséria. Então, das políticas dos transgênicos às parcerias público-privadas o que se vê é que elas vão de um servilismo a um encantamento de novo rico.
  Uma sociedade marcada pelo neoliberalismo, financeirização, mundialização, desregulamentação e precarização do trabalho, o PT transformou-se num partido da ordem. Sucumbiu à corrupção. Ele foi mais voraz que a velha oligarquia política dirigente desta sociedade. Mas, essa ainda continua aparelhada no governo do PT de Lula, que tem como aliados diretos aqueles que foram, e ainda são, por décadas os agentes de corrupção mais escandalosos do país.
  E com isto foi a esperança, o sonho de muita gente que plantou, viu-se desenvolver um partido, compromissado com a ética. Então, é compreensível o porquê do voto nulo. Pela direita o voto nulo expressa uma descrença despolitizada: ‘‘Todos são iguais e corruptos’’. Pela esquerda expressa um forte razão para imaginar que a tragédia do PT de Lula possa se repetir nele e em outros partidos.
  Por um lado, uma descrença despolitizada e por outro uma catapulta para a antipolítica, o risco da gangorra se inclinar para o pólo da conservação. O voto nulo pode significar isto, mas neste momento ele não é isto, porque ele coloca a necessidade urgente para que os partidos se recomponham em cima de plataformas ideológicas claras. E, que os partidos de esquerda restabeleçam a força popular e mostrem para a sociedade as causas reais e históricas das mazelas sociais por que passa o país.

JOSÉ MARIO ANGELI é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina



Criminalidade: quem são os responsáveis?

Nilcea Schwambach Medeiros
  Os índices são alarmantes, as reportagens jornalísticas apresentam diariamente casos de pessoas que agem desonestamente, roubam, matam, tentam enganar aos outros e a si mesmas. O Paraná já atingiu no ranking nacional a terceira colocação de Estado mais violento, perde apenas para Rio de Janeiro e Pernambuco. É ‘‘a moda está pegando’’ até entre aqueles que deveriam promover a segurança e a tranqüilidade da sociedade: os policiais.
  Há quem diga que é a própria sociedade a responsável por esta ‘‘proliferação de bandidos’’, alegando que os envolvidos são muitas vezes subornados ou induzidos a não executarem suas funções. Outros, afirmam que a culpa é do Estado, pois não paga salários justos, não valoriza o profissional, não oferece condições apropriadas de trabalho e nem assistência psicológica. Há aqueles que apontam como fator responsável pelo envolvimento na criminalidade a baixa auto-estima, os policiais que não agüentam mais a comparação financeira do que ganham trabalhando honestamente com o que ganha o traficante de drogas ou os deputados estaduais e federais.
  Ora, se estes últimos fatores apresentados fossem realmente responsáveis pelo envolvimento na criminalidade, existiriam muitos outros profissionais ‘‘públicos’’ que também adeririam à moda. Pois, estão no mesmo, ou até numa escala menor, no patamar de valorização pelo Estado. Esquecem-se, porém, de acrescentar às prováveis causas, o que acredito que justificaria estas atitudes criminais: a falta de caráter, de compromisso, de responsabilidade, a falta de impunidade (uma vez que a justiça apresenta sérios problemas); a ganância, a obtenção de lucro fácil (para que trabalhar se posso ganhar muito mais se conseguir de outro jeito?).
  Não se considera então que o cidadão para assumir o cargo que exerce, presta concurso público? E quando o faz, sabe (ou deveria saber) do seu ganho, de suas obrigações para com a sociedade? É claro que isso não quer dizer que se deva deixar de lutar pelos seus direitos, melhorias salariais e de condições de trabalho. Tem-se ciência da existência dos profissionais que sempre honraram e honram a sua profissão, são honestos, crédulos, eficazes e fazem de tudo para não denegrirem e/ou desvalorizarem sua classe. Por isso, tenho convicção de que essa problemática perpassa condições sociais, pois as atitudes dos homens são decorrentes da formação de cada um, e ainda ocorrem conforme o que cada um acredita. Portanto, quem tem consciência dos seus atos, faz o que lhe compete, tem boa índole e pensa no bem comum, não se deixa corromper.
  Diante disso, há de se concordar com William Shakespeare, quando diz ‘‘Não há legado mais rico que a honestidade’’ ou, com Publilius Syrus, - escritor latino: ‘‘Para o homem honesto uma boa reputação é a melhor herança’’. Então, pode-se afirmar que não é admissível responsabilizar a sociedade ou as condições de trabalho oferecidas pelo Estado como justificativa para os desvios de conduta dos policiais.

NILCEA SCHWAMBACH MEDEIROS é professora do ensino médio e fundamental em Corbélia (PR)



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