ESPAÇO ABERTO
Não vote nulo
Servio Borges da Silva
Ao verificar toda a sujeira imensa que está corroendo a política brasileira muitos estão pensando seriamente em anular o seu voto em sinal de protesto contra os políticos e a situação de penúria em que se encontra o desfile infindável dos candidatos pela televisão. Porém, é preciso que todos tenham a consciência da necessidade de participação nessa ordem democrática, fundada aos trancos e barrancos, depois do regime militar e de diversos governos desastrosos para o nosso país. Essa ordem democrática é demorada, às vezes suja, porém sempre vai triunfar sobre todos os demais regimes políticos, conforme se vê em todos as nações civilizadas do planeta.
As denúncias estão ocorrendo, os tribunais estão procurando limpar a vida política, os promotores de Justiça e os policiais têm trabalhado incansavelmente na limpeza da casa carunchada pela devassidão dos politiqueiros profissionais. Tudo isso faz parte do contexto social, político, econômico que envolve e movimenta a sociedade brasileira. Daí, surgiu a denúncia do procurador-geral da República contra os 40 que desviaram dinheiro público, surgiram também os chamados ''dólares na cueca'', o mensalão, os sanguessugas.
Todas essas coisas estão engasgadas, ao que parece, na garganta dos brasileiros que vão votar, daí porque muitos estão desiludidos com o voto popular e com os candidatos que se apresentam. Mesmo assim, não concordo que exista o cidadão consciente que vote nulo, porque esse voto, conforme já afirmou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, não vai valer nada. Pelo contrário o voto nulo vai beneficiar os infratores, os corruptos, sanguessugas e mensaleiros. Esse voto nulo não servirá para o protesto que o eleitor pretende, porque vão contar somente os votos válidos. O eleitor precisa votar consciente, escolher um candidato, e existem os bons candidatos.
É preciso acreditar na democracia, na liberdade, no direito e na Justiça, porém todos vamos construir essa sociedade nova mais igual para todos, mais livre, mais solidária. Entretanto, há um processo todo que deve ser observado, convalidado, melhorado, porém esse processo requer a participação de todos. Não anule o seu voto, trabalhe pelo seu futuro e pelo futuro de seus filhos. O momento é de generosidade para com o futuro de todos, não é momento para omissão, derrotismo. É um momento difícil, porém nesses momentos é que devem surgir as boas idéias e os homens de bem.
SERVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina
É necessário nos desesperarmos?
Marcos Nalli e Lílian Cantelle
Em 2002, o filósofo francês Jean-Pierre Dupuy lançou um livro que causou certo rebuliço em seu país, ''Por um Catastrofismo Esclarecido''. Sua tese central consiste em que devemos gestar um medo racional do que ameaça a nossa existência humana, seja enquanto indivíduos ou enquanto espécie. A necessidade de cultivar tal medo residiria, ainda segundo o filósofo francês, no fato de que a ciência, geralmente, não pensa, isto é, não tem consciência reflexiva de seus atos, procedimentos e possíveis consequências. Sabemos muito, isto é, dominamos várias informações sobre os mais variados assuntos, especialmente aqueles que afetam nossas vidas e integridade de modos mais incisivos e radicais, mas não temos a exata consciência dos possíveis impactos que tais conhecimentos podem gerar e nos afetar. De certo modo, falta aos cientistas em geral uma consciência ética e responsável de seus atos.
Assistimos nos tempos atuais vários saltos científicos e tecnológicos dignos de nota. Aliás, todo o século XX foi pródigo nos avanços tecno-científicos: telefone, televisão, viagem espacial (o homem já foi à Lua!), energia nuclear, a bomba atômica, Chernobyl... E mais recentemente lidamos com outros tantos avanços das ciências. O mapeamento genético do homem, cuja conclusão anunciou-se em 2000, e que nos promete grandes avanços na engenharia genética; pesquisas com células-tronco, e suas promessas quase que miraculosas (tanto é que já apareceram charlatães, inclusive dentro da comunidade médica vendendo células-tronco em pó); os polêmicos produtos transgênicos - em que o governador do Paraná se tornou um dos pivôs mantendo-se contrário à produção de soja transgênica. E uma área menos conhecida, porém de impacto tão estrondoso quanto às demais, a nanotecnologia - a tecno-ciência que manipula átomos e moléculas para construir artefatos, cuja aplicabilidade é do tamanho de nossa imaginação.
Uma das promessas mais ambiciosas da nanotecnologia é que, sob determinados aspectos, balizada na vida como modelo, acredita-se que se poderá daqui a algum tempo criar artefatos capazes de simular organismos. O que teria vantagens extremamente significativas para melhorar a qualidade de nossas vidas - como próteses de parte de nosso organismo. Mas com riscos catastróficos também se, por perda de controle ou por uma nova forma de terrorismo, criarmos armas letais capazes de se reproduzirem (aliás, já é tema de um romance, ''A Presa'', de Michael Crichton). E a razão de Dupuy reside nisto: não que devamos nos desesperar, e com isso estipular uma moratória; mas racionalmente e, principalmente, mantermo-nos reflexivamente atentos para os riscos e benefícios do que fazemos, inclusive os cientistas.
MARCOS NALLI é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina e LÍLIAN CANTELLE é discente do curso de Filosofia e bolsista de projeto de pesquisa na UEL com apoio do CNPq





