Palavras, gestos e felicidade
Moacir Costa (*)

A comunicação é um dos principais pilares de sustentação de um relacionamento afetivo. Uma boa parceria, daquele tipo que sobrevive à passagem do tempo com alta qualidade, se assenta em muita conversa amorosa, troca e atenção. Muitos casamentos terminam por falta desses ingredientes fundamentais. Eles escasseiam justamente porque diante de problemas - normais, na vida a dois - o casal prefere o silêncio, em vez da atitude corajosa: enfrentar e resolver um por um. Em vez disso, o diálogo se resume a farpas e ironias, em desgastante processo de agressão mútua. É a maneira encontrada para descarregar a hostilidade e a raiva derivadas do ressentimento, quando impera o silêncio, pesado e incômodo, em vez do papo amoroso e com abertura à compreensão verdadeira.
O melhor caminho para garantir a solidez de uma relação é resolver os problemas tão logo eles aparecem. Sem jogar poeira para baixo do tapete, fica mais fácil manter sempre limpo e transparente o fluxo de palavras. Ele é uma lâmina de dois afiados gumes: tanto pode ser o principal nutriente quanto o maior veneno de uma vida a dois. Existem períodos, a gente sabe muito bem, que um ou outro, senão ambos, estão mais voltados para dentro de si mesmos, introspectivos, muitas vezes por puro estresse ou questões de foro íntimo.
É importante respeitar esses dilemas, mas sempre lembrando que são fases passageiras, não um modo de vida. Aos poucos, com jeito, é fundamental tentar a abertura para conversas francas, novamente.
A comunicação é um hábito. Requer treinamento e disciplina diários. É um aprendizado constante. Na certa, permite descobrir belezas no outro, caso a disposição seja de aproximar-se cada vez mais. Não vale só falar dos filhos, por exemplo. Eles são importantes, sim, mas a chama do amor tem de ser avivada com detalhes da vida do casal: valorizar o lazer e passeios, por exemplo, a compartilhar na intimidade, com aquele sabor de cumplicidade, comum no namoro.
Quem não tem filhos e costuma falar apenas sobre o trabalho também deve mudar de atitude, focando o universo mais íntimo. A carreira é importante, mas não é tudo. É preciso que tenha o espaço que merece: apenas parte de um conjunto muito mais amplo, de aproximação constante.
Nunca é demais lembrar que a comunicação envolve muito mais que a palavra. Tem a ver com gestos de carinho, olhares significativos, sorrisos cúmplices - muito mais eloquentes que uma sucessão de frases. Quando o casal consegue conversar também com o corpo, através do toque e da atitude mais receptiva, construindo um diálogo rico e instigante, as chances de viveram felizes se ampliam ao infinito. Quem viver e praticar, verá!
* A Folha publica hoje o último artigo escrito pelo médico psicoterapeuta Moacir Costa que faleceu no último dia 17, em Itatiba (SP), vítima de infarto agudo do miocárdio

Sexualidade x cultura
Ricardo Desidério da Silva

A escola constitui-se hoje um espaço privilegiado na implantação de ações que promovam o fortalecimento da auto-estima e do autocuidado; a preparação para a cidadania; o estabelecimento de relações interpessoais mais respeitosas e solidárias; enfim, em última instância, na qualidade de vida. Este trabalho torna-se mais eficaz quando processado de forma contínua, sistemática, abrangente e integrada.
Propor que a escola trate as questões da sexualidade, numa perspectiva dos direitos do cidadão e sob os princípios da equidade, coloca imediatamente a questão da formação dos profissionais. Se por orientação sexual entendemos um processo de intervenção que visa favorecer a reflexão sobre a sexualidade a saúde reprodutiva, contemplando não só a informação sobre aspectos biológicos, também consideramos relevante a discussão sobre sentimentos, valores, crenças, preconceitos, experiências pessoais e outros, sendo necessário que o profissional participe de um processo amplo e aprofundado de formação, tanto em termos de conhecimento sobre o assunto quanto à respectiva adequação metodológica.
Pautado em uma proposta participativa, a função do educador é a de coordenar as diferentes ações educativas e a de ser um agente provocador, tendo a ciência como aliada. É com tais propostas que estamos em processo de construção deste elo sexualidade x cultura, acreditando que hoje em dia falar sobre sexualidade, não é algo tão novo e inusitado como foi no passado.
Mas por que a sexualidade continua sendo um grande enigma do ser humano? Por que ainda existem tantos tabus e preconceitos em relação à sexualidade após tanta ''evolução''? Ao observarmos as atitudes e reações das pessoas em relação a certas situações a respeito da sexualidade, ficamos impressionados ao constatar que tais reações permanecem iguais até os dias de hoje. Onde há sexualidade, existe preconceito. O preconceito, em suas diversas expressões, demonstra muitas vezes a falta de informações.
Sendo assim, os estudos culturais vêm possibilitando chances de não nos conformarmos com conflitos étnicos, raciais e religiosos que acontecem ao nosso lado, diante dos nossos olhos. A música é um exemplo disso, pois ela está ligada ao surgimento dos sentimentos. Neste sentido, o trabalho de sexualidade deve ser vivenciado por todos. É preciso se conhecer sexualmente, buscando assim o prazer, o desejo, o sentir-se bem.
RICARDO DESIDÉRIO DA SILVA é professor da rede pública estadual, técnico pedagógico e coordenador dos trabalhos de Sexualidade e Educação Sexual do Núcleo Regional de Educação de Londrina

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