ESPAÇO ABERTO
Kant, o papa e Maomé
Aguinaldo Pavão
O papa Bento XVI proferiu poucos dias atrás uma palestra na universidade alemã de Regensburg, intitulada ''Fé, razão e universidade: memórias e reflexões''. Nesta palestra ele citou uma fala do imperador bizantino Manoel 2º Paleolugus em que ele diz ao seu interlocutor: ''Mostre-me o que Maomé trouxe que era novo, e lá você encontrará apenas coisas más e desumanas, como o seu comando de espalhar pela espada a fé que ele pregava''. O papa pretendia com a citação ilustrar a questão, para ele não facilmente solúvel, sobre se não agir de acordo com a razão é contra a natureza de Deus.
Já me pronunciei neste espaço (''Nem Habermas, nem Ratzinger''. Folha de Londrina de 27 de abril de 2005) a respeito do tema da relação entre fé e razão. Não concordo com a posição do papa sobre o tema. Contudo, defendo o direito dele não apenas de fazer citações que achar convenientes em suas palestras, mas também o direito de criticar qualquer religião, o que, segundo declarações posteriores, não era sua intenção. Sendo assim, não percebo por que ele deveria pedir desculpas.
O iluminista Kant afirmou: ''A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem de se submeter. A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame''.
Se o que Maomé fez e pregou não pode ser criticado, então sua doutrina não merece respeito. Mas quer queiram ou não os mulçumanos, as idéias religiosas de Maomé são sim objeto de exame crítico. O respeito ao islamismo não pode implicar em venerável e insincero silêncio de quem dele é discordante. Se os muçulmanos, como disse Mahmoud Hamsdi Zaqzouq, ministro de Assuntos Religiosos do Egito, estão com seus corações profundamente feridos com o discurso do papa, que saibam suportar essa dor. O planeta em que vivemos, felizmente, não é uma teocracia islâmica mundial.
Se alguém dirige críticas ao islamismo, cabe aos muçulmanos argumentarem contra. Isso é diálogo. É intolerável que, devido às palavras do papa, igrejas católicas estejam sendo atacadas em território palestino. É inaceitável que concepções divergentes sirvam de apoio para que o Ministério da Justiça da Turquia possa vir a prender o papa, caso ele visite o país. Que exemplo os muçulmanos estão dando? Certamente não estão contradizendo as palavras que o papa citou.
Enfim, repito, o papa não tem por que pedir desculpas. Do mesmo modo, um defensor do Islã não teria por que pedir desculpas se criticasse a doutrina cristã. Mas, se o defensor do Islã quer impor as idéias do Alcorão com fuzis e bombas, então ele deve não apenas pedir desculpas, mas sim, em nome da razão e da paz, ser banido da convivência entre os homens.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina
Professores: bons ou maus modelos?
Mary Neide Damico Figueiró
Em reportagem da Folha do dia 13 de setembro, uma notícia feriu a imagem de nossa UEL: as faltas sem justificativas e os atrasos de alguns professores da instituição. Não estou aqui para desmentir, porque realmente acontece e todos sabemos que, em qualquer profissão, há os muito dedicados, os medianos e os não dedicados. Fico feliz porque, até onde posso acompanhar, vejo que, apesar da pequena valorização profissional e da perda significativa de doutores que vem acontecendo devido ao baixo salário, somos, a maioria, do primeiro grupo.
Embora sejam poucos professores, suponho, com postura desrespeitosa como a denunciada na matéria, nos perguntamos: Isto poderia influir negativamente na formação dos futuros profissionais? Penso que sim, principalmente se a base formativa do aluno for frágil, carente de uma educação sólida e de valores na família e na escola, que antecedem sua entrada na universidade.
Venho observando, como professora da UEL, o ''outro lado da moeda'': o aumento do número de alunos que faltam e que se atrasam para as aulas, afetando seu aprendizado e o andamento do trabalho da classe como um todo. Qualquer feriado, por pequeno que seja, é sempre motivo para irem embora e perder outros dias de aulas, desnecessariamente. Também já observei turmas acomodadas quando têm professores faltosos ou descumpridores do horário; nada fazem; parecem achar que estão lucrando com isto.
Por que isto vem acontecendo? Onde chegaremos? O que se pode crer é que a bagagem formativa final do aluno, certamente, ficará reduzida. Considero a questão da pontualidade e da assiduidade uma questão de respeito, de ambas as partes. São atitudes que se aprendem e se constroem desde a infância.
Não acredito e nunca acreditarei em professores, nem tampouco em alunos, mornos, ou seja, que não se envolvem com paixão naquilo que fazem; dificilmente sentirão o prazer do trabalho bem feito, do crescimento pessoal e profissional. Gosto muito de pensar com Fernando Pessoa, que diz: ''Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes [...].''
Em qualquer universidade, seja ela pública, ou particular, o aluno terá possibilidade de deparar com bons e maus modelos de professores/as; caberá a ele escolher quais seguir. Quanto aos professores, mais do que ter uma postura de respeito para com o aluno, é imprescindível que sejam, sobretudo, modelos de dedicação e de comprometimento com a felicidade das pessoas e com o bem estar e o progresso de nosso país.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, doutora em Educação e professora do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina





