ESPAÇO ABERTO
Excesso de ambição: falta de amor
Moacir Costa
A ambição é um tema que desperta controvérsia. Sem dúvida, é difícil fixar limites saudáveis para essa meta, mesclada com evolução e progresso. Há quem erre bastante na dose, pela busca obsessiva de resultados, sem se incomodar com os meios para consegui-los. Não falta gente que admire ou mesmo inveje os ambiciosos, principalmente por sua capacidade de articulação social. No outro extremo, estão as pessoas que simplesmente abominam essa atitude, considerada frisa e até maldosa, porque muitas vezes passa por cima da ética, sem remorsos.
A pessoa ambiciosa típica e sem freios não costuma ter relações de parceria ou de amizade desinteressada. Tem dificuldade em se abrir, até para assegurar que mantém segredo sobre informações de que dispõe. Paradoxalmente, sabe, como ninguém, agir de maneira envolvente e sedutora, mas na intimidade é calculista e não se envolve com as questões alheias. A disciplina, a persistência, a organização e a habilidade para gerenciar fazem parte de suas características, assim quase sempre garante o caminho aberto para o sucesso profissional.
Quem não controla a própria ambição e faz qualquer coisa para chegar ao topo, costuma receber a qualificação de ganancioso, porque considera a vida um balcão de negócios. O tempo todo em guarda, para manter o controle sobre tudo o que ocorre ao seu redor. Não se deixa levar por emoções. Ao contrário, seu cérebro funciona como uma máquina calculadora - sempre fazendo contas e traçando planos para subir. Seus sonhos, desejos e projetos estão muito mais relacionados ao trabalho e à carreira do que à vida amorosa. Pior: acredita que o relacionamento amoroso é perda de tempo. Queixa-se do cônjuge, atribuindo-lhe excesso de exigências e uma atitude competitiva, entre outras mazelas que justificam lançar-lhe toda a ''culpa'' por insucessos na esfera familiar.
O resultado dessa falta de envolvimento emocional é o eventual aparecimento de distúrbios sexuais. O mais comuns são o descontrole ejaculatório e as falhas de ereção no homem, em virtude da alta tensão e da falta de tranquilidade necessária para a atividade sexual. Sintomas como esse são sinais de alarme para que essas pessoas procurem alguma ajuda médica ou psicológica. Tanto porque podem indicar a iminência de doenças cardiovasculares, em especial a hipertensão arterial, como também, distúrbios emocionais.
O álcool, às vezes, é usado para reduzir o grau de ansiedade e provocar relaxamento, mas costuma agravar as fases depressivas e também compromete a potência sexual. Trata-se, portanto de um cruel círculo vicioso que precisa ser rompido. As mulheres começam a apresentar distúrbios afetivos e sexuais na sua escalada de poder
A única maneira de deter o processo é questionar o que significa a busca desenfreada por sucesso, poder e dinheiro. Embora seja um comportamento socialmente valorizado, deixa tristes marcas e inevitavelmente conduz ao isolamento afetivo. Sim, porque embora estejam cercadas de gente, essas criaturas vivenciam uma profunda solidão, por barreiras que elas mesmas constróem. O sucesso é bom e faz bem apenas quando compartilhado por todos aqueles a quem respeitamos e amamos - sobre todas as coisas.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
O Tibagi será o Tietê amanhã?
Paulo Henrique Martinez
A coloração esverdeada do rio Tibagi e o sabor da água que correu das torneiras denunciaram, nos últimos dias, o comprometimento de sua qualidade para o consumo humano. O meio ambiente e as políticas públicas dos recursos hídricos, no Paraná, também padeceram com a triste realidade do rio e o tenebroso futuro que para ele se anuncia.
A cidadania está arranhada pela conduta de agricultores imprudentes no uso de pesticidas e de fertilizantes e na supressão da mata ciliar dos córregos e cursos d'água tributários do Tibagi. Prefeituras, órgãos estaduais e federais, Promotorias do Meio Ambiente pecam pela omissão, descaso, ausência de diretrizes e de ação institucional. Há defasagem em saneamento básico, coleta de lixo e na fiscalização das empresas poluidoras.
A sociedade civil reage timidamente, desmobilizada, impotente, pouco e mal informada. A cada dia os problemas ambientais se impõem como desafio incontornável para a vida social e a gestão pública. O setor empresarial fornece inúmeros exemplos de indiferença diante das responsabilidades sociais e ambientais que caracterizam a produção econômica sustentável, opção inteligente na obtenção de competitividade e na perenidade dos negócios na era da globalização. Diante da inércia do Estado e da sociedade, a poluição gera mais e novas despesas com a saúde pública e o descompasso com o futuro.
A comunidade científica tem alertado para os riscos do uso indevido dos recursos hídricos. O estudo da morte biológica e social dos rios brasileiros tem revelado um lado perverso da nossa sociedade. Os segmentos mais pobres da população sempre foram os maiores prejudicados na qualidade de vida, emprego, alimentação, lazer e vida cultural. Foi assim no rio Tietê, no trecho em que atravessa a região metropolitana de São Paulo.
A escassez de água para o abastecimento da população de Londrina e região, decorrente da forte estiagem, agrava-se com a perda de qualidade deste recurso fundamental e que tantos transtornos provoca no cotidiano das famílias. Uma vez mais, a classe média contorna suas dificuldades consumindo parcas economias. Ela compra água mineral, leva os filhos para tomar banho na casa de parentes e amigos, come fora de casa. Amaldiçoa os homens e a natureza pela amolação e gastos indesejáveis. A vida continua.
A perversidade social dos problemas ambientais, porém, emerge nos bairros pobres e da periferia, onde as possibilidades dos moradores são mais restritas e custosas. Nem mesmo um vale de lágrimas pode assegurar água potável. O meio ambiente requer atenção.
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor e coordenador do Laboratório de História e Meio Ambiente no departamento de História da Unesp em Assis (SP)





