ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de setembro de 2006
Francisca Vergínio Soares<br>José Mario Angeli e Marta Bellini 
Origem da nova violência no Brasil
Desde que o Rio tornou-se capital do Império luso (1808) e, pouco depois, do Império do Brasil (1822), posicionou-se como o centro das atenções. Ele passou a ser o maior centro urbano brasileiro, principal palco da vida política nacional e o mais importante pólo comercial, financeiro e cultural do país. Isto contribuiu para reforçar o Rio de Janeiro como a caixa de ressonância do país, refletindo o que ele tem de melhor e de pior. Este status de centro das decisões, outrora conquistado, perdeu seu potencial quando a capital da República transferiu-se do Rio para Brasília, na década de 1960. Isso provocou um esvaziamento no estado fluminense, tanto político como econômico. A inquietação e a desestruturação de modos de vida constituíram-se nos principais aspectos que iriam nortear a reordenação do estado fluminense e no redimensionamento da violência urbana naquele estado. Isto, a meu ver, contribuiu para o surgimento de grupos criminosos, principalmente o tráfico de drogas, os quais não mereceram a devida atenção dos sucessivos governos que não incluíram em sua política de segurança pública, estratégias para combatê-lo.
Quebra-se o tradicional paradigma da violência, aquela que antes da década de 80, tinha os assaltos, com ou sem arrombamento, de bancos, carros, residências e apartamentos, dos furtos e roubos nas ruas, etc, muitas vezes sem fazer uso de armamentos pelos agressores. Surge assim, o que chamo de nova violência, para demarcar que a partir da década de 60 a violência começava a perder a inocência dos anos dourados. Principalmente quando parcelas dos meninos da classe média, os playboys, estavam abandonando as pranchas de surf, os jet ski e as roupas extravagantes, personalizadas e pegando em fuzis AR-15. Estavam trocando a Coca Cola com hamburguer por doses cada vez mais crescentes de cocaína, heroína, maconha e o novo embalo que os Estados Unidos passaram a exportar para os países subdesenvolvidos: o crack e mais recentemente o ecstase.
Os pequenos furtos domésticos para a aquisição das drogas evoluíram para grandes assaltos, seqüestros e crimes hediondos, tendo como seus principais agentes a fina flor da classe média. Eles trocaram as ondas do mar pelas drogas, institucionalizando o consumo obrigatório como manifestação de status. Resultado: violência. Um olhar nos jornais da época estampam uma seqüência de crimes praticados pelos filhos da classe média, que viraram vítimas e vilões desse comércio que tem lastros sociais e raízes psicológicas. Portanto, o que irá caracterizar esse novo quadro da violência no Brasil é o modo como o tráfico de drogas se apropria do espaço comunitário, onde a presença do poder público é praticamente nula.
Em síntese, ao discutir a problemática da violência no Brasil e em como viabilizar um projeto de segurança pública torna-se imprescindível uma reflexão anterior: como desestruturar a criminalidade organizada ou o crime organizado? Esse parece ser o principal problema a ser enfrentado e que até agora não vi nenhuma proposta consistente de nenhum candidato.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Ciência Política em Londrina
Votar ou não votar eis a questão
Os meios de comunicação privilegiam espaço para algumas importantes instituições que levantaram a bandeira contra o voto nulo. Partem do pressuposto que há um profundo desencanto com a política e por isso haveria uma tendência à anulação do voto. Dentro deste raciocínio várias organizações estão disponibilizando a ficha corrida dos candidatos, oferecendo assim uma possibilidade de se votar certo. Dão assim a entender que chegamos onde chegamos porque votamos de forma equivocada. Ou seja, é o povo, em última instância, o responsável por esta lamentável situação em que estão atoladas as nossas mais caras instituições.
Primeiro: qual população está desencantada da política? Há um pequeno setor da população que sempre se encantou com a política. Ela faz política de forma profissional e se cerca de mecanismos que procuram tirar algum benefício nesta participação. A grande maioria da população não consegue perceber os espaços de participação política para além das pequenas trocas de favores de caráter particular. Esta população está sendo chamada a votar, mas a votar em cara honesto e trabalhador. Não se qualifica o que é ser honesto, como também, não distingue o lugar social do trabalhador, ou seja, que trabalhador é esse.
Segundo: nenhum dos partidos tem apresentado um projeto político claro, de estado, governo e de transição desta situação econômica para que o eleitor possa orientar o seu voto. Por exemplo, o que cada um dos partidos propõe para a política tributária, previdenciária, fundiária, trabalhista, dívida pública, política externa, etc. Acompanhando a campanha dos candidatos para os vários cargos ao Executivo e ao Legislativo é difícil distinguir a que eles vieram. Parece que uma boa parte desses políticos é pela continuidade do que está aí e pelo aprofundamento desta continuidade, forma de garantir seus poderes.
O voto nulo é um voto consciente de rejeição a esta situação e, por isso ele é político. Ora, se há aqueles políticos que se elegem com base em máquinas partidárias e com compra de votos, eles o fazem porque a população sempre compreendeu e depreendeu das práticas dos políticos profissionais, que política é troca de favores e uma forma de relação interpessoal despregada dos interesses coletivos. Além do que, se deputados entendem que os partidos são condomínios e os deputados são inquilinos que ocupam o espaço na propaganda eleitoral gratuita a insensatez ou falta de compromisso e compreensão do que esta prática significa para a consolidação da democracia merece uma resposta de negação radical deste estado de coisas. Diante de condomínios fechados de inquilinos insensatos, uns que querem manter-se e outros que querem entrar, o voto nulo parece ser a melhor opção.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor de Filosofia na UEL e MARTA BELLINI é professora de Pedagogia na Universidade Estadual de Maringá (UEM)
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