ESPAÇO ABERTO
A oração e a sabedoria da vida
Dom Orlando Brandes
A oração ordena nossos afetos e nossa vida, potencializa nossa ação e nosso trabalho. A oração vence o mal e encaminha nossa marcha para Deus. Paulo rezava na prisão, Jesus rezou na condenação e na cruz, os mártires rezavam na execução violenta de suas vidas. Pela oração, a alegria se torna mais forte que o sofrimento. Ela é a alavanca que move o mundo, transforma este vale de lágrimas em jardim.
A oração é um encontro de amigos, uma questão de amizade, uma relação de aliança onde existe uma troca de olhares, uma confidência de corações, uma revelação de interioridades. Tudo isto, alimenta o compromisso de transformar a realidade. Os grandes orantes são também grandes missionários, gigantes na solidariedade, fortes na elevação dos pobres. Quem reza bebe na fonte, cumula energias interiores, retifica o que está errado, encoraja os deprimidos, acerta rumos e direções.
A oração é um encontro com a verdade. Daí o medo de rezar, de silenciar, de enfrentar nosso lodo existencial. Na escola da oração podemos recuperar o que foi perdido e ferido. Há um poder de humanização na experiência da oração. Muitas vezes passamos por um combate, um drama, um novo parto pela força da oração, que também é uma iluminação. Quantos doentes se recuperam pelo remédio poderoso da oração e têm a vida prolongada.
Por ser preciosa e eficaz, a oração têm um preço, exigências, condições. Vejamos algumas: o local, o horário, a perseverança, a disciplina, o perdão das mágoas e um mínimo de ética. Quem está afundando na lama não consegue rezar com profundidade. Mesmo assim, não deve desistir de rezar. Quem abandona a oração desce ao nível do animal. O ser humano tem tendência para a animalidade e para a santidade. A oração potencializa a santidade, nos torna mais sadios, empreendedores e ousados. O orante se transforma num manancial donde brotam rios que deságuam no oceano da eternidade.
É uma desgraça não rezar, é uma pena não acreditar no poder da oração. É uma perda irrecuperável não aprender a rezar. Pais que não ensinam os filhos rezarem cometem uma injustiça em relação à transcendência inerente à pessoa humana. Negamos a comida espiritual, fechamos a fonte de inspiração, de soluções, de horizontes, de descobertas para nossos filhos. Geramos atletas físicos, mas mendigos de afeto e de espírito. Daí o fácil e atraente fascínio pelo sexo, alcoolismo, drogas e pior ainda, a insuportável solidão e o vazio horroroso da vida. Quem abandona a oração abraça a tentação. Salvemos a oração e ela nos salvará do vazio existencial, da solidão, de desumanização.
Pela oração alcançamos o impossível, experimentamos milagres, fazemos experiências inauditas, encontramos respostas para interrogações, vislumbramos horizontes novos e largos, tocamos os umbrais do mistério. A oração é hospital que cura males, é restaurante que realimenta a vida, é escola de humildade. Sim, rezar é um ato de humildade, de carência, de filiação, de necessidade. Mais que falar da oração, demos o exemplo de pessoas orantes. Quem não se comove vendo um pai, um médico, um padre, um jovem moderno rezar? A oração é força do homem e comoção de Deus. Nossa oração comove o coração de Deus porque ele quer o nosso bem. Quem sai ganhando é o orante. Torna-se humano, sábio e santo na escola da oração.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Sujando as mãos
Gerson Araújo
Dois grandes artistas, um do teatro e outro da música, em uma reunião com o presidente Lula, expuseram, de forma bem contundente, a ausência de moral do governo do Partido dos Trabalhadores.
Entrevistados, foram questionados sobre o apoio a um governo que convive com a corrupção, desmandos, mentiras, falcatruas e a um presidente que garante que nada sabia, limitaram-se a dizer que política é isso mesmo, que o presidente fez o que deveria fazer, que os fins justificam os meios e que, para governar, é preciso sujar as mãos de fezes (utilizando, é óbvio, da expressão popular).
A cada dia, diante de mais uma sujeira, de um escândalo novo e de tentativas infantis de cobrir os erros presentes com acusações ao passado, os integrantes do partido trazem à tona o que já era filosofia de vida desde a fundação, mas muito bem mascarada por um moralismo exacerbado e uma feroz e cruel oposição a todos os que ousassem pensar diferente.
Sem querer, Paulo Betti e Wagner Tizo, que deveriam ser, como artistas, a consciência crítica da sociedade, expuseram, a céu aberto, o esgoto que identifica os maus políticos e aqueles que os apóiam, tornando muito claro a conivência com as atitudes desonestas dos dirigentes. Possivelmente até já se arrependeram deste ''ato falho''.
Sim, é preciso sujar as mãos quando você quer limpar alguma coisa. Ninguém contrataria uma empregada doméstica que lavasse o banheiro à distância, bem como ninguém se submeteria a um cirurgião que tivesse nojo de tocar na ferida do paciente. Mas, sujar por sujar continuar sujo, reflete bem o entendimento de militantes de um partido que passou anos almejando o poder pelo poder sem se importar com qualquer tipo de escrúpulo.
E o que nos entristece é saber que, por causa dos milhares de ''Paulo Betti e Wagner Tizo'' de que o PT dispõe, dos maus brasileiros que se beneficiam deste estado de coisas e dos milhões de nossos irmãos pobres, aterrorizados pela propaganda de que vão perder o ''bolsa-família'', estamos arriscados (sem perder a esperança), segundo as pesquisas, a sofrer o atraso por mais quatro anos.
GERSON ARAÚJO é capelão do Hospital Evangélico e pastor da 3 Igreja Presbiteriana Independente de Londrina





