Trânsito e medidas coercitivas


  Eis um assunto que me fascina, porém pouco assimilado entre os usuários de trânsito. Diariamente, a imprensa divulga acidentes de trânsito e continuamos acreditando que não acontece conosco, só com os outros. Na semana passada, a Folha da Sexta trouxe uma reportagem sobre as ‘‘Motoristas aplicadas’’ e não me surpreenderia se pudéssemos avaliá-las no sentido da sua pré-disposição para acidentar-se.
  Entendo que é fundamental conhecer o objeto de uso, o carro, para compreendê-lo melhor e interagir adequadamente com ele. Todavia, primordialmente, essa motorista deve conhecer-se a si própria para poder conduzir seu veículo satisfatoriamente. Engana-se aquela ou aquele que pensa que seu veículo não o conhece também.
  Essa união entre condutor (a) e veículo é um casamento de atitudes para o qual basta um não comportar-se bem para que o outro se manifeste, gerando insatisfação e até uma pré-disposição a acidentar-se. É preciso uma união consensual entre motorista e veículo para uma condução sadia num trânsito que nós mesmos criamos e regulamentamos.
  E por falar em regulamentação, uma outra reportagem sobre os pardais me deixa indignada sobre a sua credibilidade. Houve momentos que aceitamos sua regulamentação e em outros passamos a questionar sua validade. Muitos recorreram das infrações aplicadas e os recursos foram considerados improcedentes. Outros foram mais felizes e seus recursos foram considerados procedentes. Afinal, qual procedimento é o correto? Nas rodovias somos informados que a mesma é fiscalizada por radar, mas onde? Em toda sua extensão?
  Agora o Contran determina através de uma portaria a colocação de placas avisando os motoristas sobre a existência nas vias de barreiras eletrônicas, conhecidas como pardais e que os Detrans terão três meses para providenciar as placas. Convenhamos, o trânsito é um meio de locomoção regulamentado por onde os usuários hábeis sabem como se comportar. Como motoristas, recebem um documento que os identifica como hábeis para tal. Diante dessas circunstâncias tenho me perguntado se realmente necessitamos de tantas medidas coercitivas para termos um trânsito saudável.
  A racionalidade humana muitas vezes ignorada, nos faz partícipes das mazelas que o próprio homem cria, inventa e transforma através da sua inteligência medíocre. Conseguimos adestrar um cão para conduzir o portador de deficiência visual e não conseguimos adestrar nossos semelhantes para transitar em nossas vias públicas. Podemos conhecer nossos veículos, porém de nada será útil se não conhecermos a nós mesmos.
JULIETA ARSÊNIO é psicóloga especialista em comportamento de Trânsito do Centro Londrinense de Investigação Psicológica

Filosofia no Ensino Médio


  O Conselho Nacional de Educação aprovou no dia 7 de julho, a obrigatoriedade da disciplina de Filosofia nas escolas de Ensino Médio em todo o país. Desde o ano de 1971, em razão do regime militar imposto pelo Golpe de 1964, o ensino de Filosofia deixou de fazer parte da grade curricular das escolas públicas brasileiras. Mesmo nas universidades os cursos de licenciatura em Filosofia foram sendo extintos à época da repressão.
  Nas universidades estaduais de Londrina e Maringá os cursos de graduação em Filosofia são relativamente recentes se comparados com outros, como Medicina ou Direito. Em Apucarana, o Instituto Filosófico pertencente ao Seminário Maior Diocesano oferece a graduação em Filosofia há vários anos, entretanto, o curso não é reconhecido pelo Ministério da Educação, visando apenas a formação de padres e seminaristas.
  A Filosofia estuda as leis mais gerais do ser, do pensamento, do conhecimento e da ação. Trata-se de uma concepção do mundo como um todo, da qual se poderá deduzir certa forma de conduta (Bazarian, 1985). Em razão de seu caráter crítico, contrário ao senso comum e às verdades estabelecidas, o estudo da Filosofia sempre representou uma ameaça àqueles que desejavam manter a nação sob um regime autoritário e alienante.
  A decisão do Conselho Nacional de Educação vem representar, nesse sentido, a promoção da consciência crítica e o estímulo à reflexão no processo de formação de alunos que, em regra, são submetidos diariamente à ideologia consumista e alienante disseminada pela mídia.
  Ademais, a crise ética que permeia amplos segmentos sociais no Brasil, permite supor a existência de farto material a ser examinado por profissionais especializados na arte do pensamento criterioso.
  Para aqueles que ainda não se convenceram da importância fundamental do ensino de Filosofia na formação dos alunos do Ensino Médio, vale a advertência feita por Marilena Chauí: ‘‘Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se dar a cada um de nós e a nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes’’.
ROBERTO CARLOS SIMÕES GALVÃO é mestrando em Educação pela Universidade Estadual de Maringá

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