ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de setembro de 2006
- Meu namoro com o livro<br> - Qual a lei dos morros? 
Meu namoro com o livro
Lucinea Aparecida de Rezende
Olho para o livro. Ele está lá, à mostra. Lembra-me um pavão; quer mostrar-se. Tem cores! Quero ir adiante, mas meu olhar empaca. Grudou nele! Melhor não relutar. Paro, estico as mãos e o trago para perto de mim. O desejo de posse se manifesta. O que terá me provocado? As palavras da capa? O título? O autor? Os desenhos? As fotografias? As cores? Difícil responder, assim, de repente. Só sei que estou cativa.
Tenho-o junto a mim. Sinto seu cheiro, percebo suas formas. Olho rápido, o conjunto externo. Seduzida, quero conhecê-lo internamente. Será bom, ou não? Qual será sua essência? Qual a sua capacidade de argumentação? O que terá a me dizer? Como ele manifesta seu estilo? Qual o seu ''jeitão''? Qual a sua origem?
Em estado de rendição, eu o tenho comigo. Em meio às perguntas que faço, começo a me lembrar dos números. Amor vulgar! Há que se pagar para ter! Mesmo assim, não consigo me desvencilhar dele! Olho mais um pouco e avalio a relação custo/benefício. Valerá a pena tê-lo com exclusividade? Posso me contentar com alguns afagos, ali mesmo na livraria? Será que alguém poderia achar isso escandaloso? Arrisco uma olhadela para o lado. No entanto, meu estado de enamoramento não me permite nenhuma crítica.
Constato que me sinto presa ao lugar que estou. Pura consequência: o que realmente me prende é o que tenho comigo. É ele! Objeto de desejo. Atração fatal. Em um resquício de lucidez, faço-me mais algumas perguntas. Será ele aquilo que anuncia ser? Atenderá aos meus anseios? Responderá às perguntas que faço? Acrescentará ao que sou? Saberá prender-me amorosamente? Escandalosamente? Apaixonadamente? Será ele um intelectual ou intelectualóide?
Se tudo for como imagino ser, o que restará ao final? Poderei sentir-me plenamente satisfeita? Ou sentirei um gosto amargo de quem se desiludiu por esperar muito e encontrar pouco? Poderá se instalar, talvez, um sentimento de traição... de propaganda enganosa... O que posso aquilatar pelo que vejo? Valerá a pena correr o risco de entregar-me perdidamente, completamente?
Cedo à provocação e o acaricio. Ele se mostra carente. É como se me dissesse: ''Leva-me''! E eu, já sem possibilidade de autocontrole, só penso em tê-lo para mim. Inteiro! Quero tê-lo comigo no sofá, na rede, na escrivaninha, na cama...
A idéia de custo/benefício dissolveu-se. Fala mais forte a idéia de posse. Só estou a ganhar tempo... já percebi que cedi. Rendo-me aos encantos, à sedução, à provocação... Sinto-me frágil, mas feliz! Eu o levo pra casa. O final de semana promete!
LUCINEA APARECIDA DE REZENDE é professora no departamento de Educação na Universidade Estadual de Londrina
Qual a lei dos morros?
Kétlin Caroline de Carvalho
A situação vista diariamente nos jornais a respeito da guerra nos morros e favelas brasileiros, onde o homem é inimigo do próprio homem, nada mais é que a situação descrita por Thomas Hobbes em relação à condição de natureza da humanidade. Hobbes fala de um tempo em que os homens vivem sob uma segurança que lhes é oferecida por sua própria força e invenção pelo fato de não haver nenhuma outra oferecida a eles. Se esse estimado filósofo vivesse hoje, diríamos que estaria descrevendo o Brasil.
Não que nosso país seja totalmente destituído do poder estatal. Este poder existe, porém não atua em sua totalidade. Este tem sido completado voluntária ou involuntariamente pelo conhecido poder paralelo: o poder dos grandes donos do tráfico de drogas, de armas, de crianças, donos de considerável parte do país, protegidos por medo ou gratidão de dar o que o Estado deveria dar às pessoas indefesas que temem o amanhã.
Esta guerra contra o crime organizado em São Paulo não passa da parte prática das palavras de Thomas Hobbes quando diz: ''Numa tal situação... não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta''.
Mas em toda essa comum discussão entre o estado de natureza em Hobbes e nosso Estado atual, devemos atentar para um detalhe de extrema importância. Em Hobbes, nada é injusto, pois não há quem diga o que é certo ou errado, justo ou injusto, simplesmente não há leis e o que vence pode ser tanto o mais forte em força física quanto em intelecto, para eles são corretas tais atitudes apesar de temerosas. Em nosso Estado há leis, porém essas leis não são capazes de entrar onde o chamado ''poder paralelo'' domina.
As favelas têm sua própria legislação, sobrevivem os mais espertos e aqueles que se encaixam na ''lei'' do mais forte: o crime organizado. Qual a diferença dos dois estados? São praticamente iguais. Este que vem dirigindo os morros tem sido ainda pior do que o descrito por Hobbes, pois para o estado de natureza pelo menos havia a proposta de o povo encontrar a solução para tal desordem ao entregar sua liberdade ao Leviatã (soberano de Hobbes). Na nossa situação, quem será nosso Leviatã, o salvador da Pátria? Será que existe soberania maior que esse tal poder paralelo? Ou será que é esse poder que é o nosso Leviatã?
Muitos questionamentos assolam nossas mentes, a maioria buscando esperança após as eleições. Aqueles que vivem na pele o terror das balas perdidas e dos filhos perdidos, perdem a esperança a cada dia que passa (para que ter esperança num Estado que continuará a viver fora dos muros das favelas), mas apesar de viverem numa outra realidade ainda pertencem ao ''Estado democrático de direito'' e que deveriam ter o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.
KÉTLIN CAROLINE DE CARVALHO é estudante de Direito na Universidade Estadual de Londrina


