Candidatos e eleitores
  Não podemos nos omitir na construção da sociedade justa e fraterna. Exercer um cargo político é uma missão, uma vocação, um serviço social, uma forma de praticar a justiça e o bem comum. A política é um bem social a serviço da pessoa, da comunidade, da sociedade. Decorre daí a necessidade dos candidatos serem pessoas que tenham: competência, eficiência, transparência, coerência. A carreira política, o exercício do poder político são eivados de tentações e perigos como: a mentira, a deslealdade, as acusações, os desvios de dinheiro, as manobras, a idolatria do poder. Tudo isto gera no povo a desconfiança, o desencanto, o pessimismo, a omissão e o afastamento das urnas. É necessária a ética na política e a prática do ‘‘voto ético’’, para que os cidadãos não abdiquem de sua participação na vida social. O voto é a arma da democracia, da civilidade, da cidadania. Todos somos destinatários e protagonistas da ação político-social.
  Nossa tradição política forjou o perfil do candidato interesseiro, exibicionista, demagogo, autoritário, despreparado, liso, atrelado aos poderosos, corrupto. Este quadro precisa mudar e está mudando. Política não pode ser comédia que muitas vezes acaba em tragédia. Temos candidatos competentes, honestos, conscientes, dignos da credibilidade. É hora de mudar para melhorar nossa qualidade de vida. A educação e conscientização política é o caminho que leva à libertação, à mudança de mentalidade. Neste sentido a Igreja tem sua doutrina social há mais de um século, oferece aos fiéis escolas de fé e política; organiza os grupos de reflexão; compõe cartilhas políticas; estuda e divulga documentos do Concílio Vaticano II e dos Papas, institui cursos de teologia.
  A política não se esgota no voto e as eleições não fazem milagres. A responsabilidade dos cidadãos não acaba nas urnas. Além da democracia eleitoral, precisamos conquistar a social. Nossa tarefa é educar os eleitores. O Papa João Paulo II escreveu no documento sobre os leigos (1988, nº 42) que os cristãos não podem ficar indiferentes, estranhos, indolentes diante de questões sociais, porque todos somos responsáveis por todos. Diz mais, ‘‘a caridade não pode estar dissociada da justiça’’ e os fiéis leigos não podem abdicar da participação na política enquanto promoção do bem comum.
  O ‘‘voto ético’’ é o voto consciente que supera o velho costume de votar por tradição; para pagar favores; para obedecer a vontade da empresa, da religião, dos parentes, dos cabos eleitorais; para quem leva vantagem nas pesquisas; por razões da aparência física e simpatia do candidato; por força de palavras, discursos, promessas, demagogia, etc. Voto ético é voto consciente, livre, secreto, responsável. Com candidatos e eleitores competentes construiremos uma pátria mais digna e viveremos com mais segurança e paz.
DOM ORLANDO BRANDES é Arcebispo de Londrina


A verdade sem rodeios
  Ouço um monte de mentiras ditas por algumas daquelas pessoas que têm mais e melhor acesso ao enorme poder da mídia em nossos tempos tormentosos, difíceis, violentos e nebulosos, principalmente inescrupulosos. Numa reunião ‘‘política’’ alguns supostos intelectuais, mancomunados com alguns supostos ‘‘artistas’’ falaram e ditaram novas regras para a ética, alegando que na política é necessário ‘‘meter a mão na sujeira’’, tudo isso para defender os interesses da maioria e os direitos de todos e até a Justiça. Ora, é inacreditável que alguém pense que pode manipular, dessa forma, insidiosa e grotesca, a todas as pessoas de bem de nosso país, tentando fazer crer que tudo o que houve em matéria de bandalheira e corrupção possa ser explicado de forma tão simples e ingênua.
  Dá nojo, imenso nojo e profunda repugnância ver tanta falsidade e alguns poderosos do momento, em genuflexão, explicando a torpeza dos ‘‘satrapas’’ que se encontram com algum poder, também momentâneo, tentando provar o improvável e tentando manipular a consciência dos cidadãos neste país. Ora, não se faz um país de forma tão simples e sórdida justificando-se o crime e a perversidade só porque se encontram em posição estratégica.
  Recordemos da França, célebre e celebrada França, quando na Segunda Guerra Mundial muitos passaram para o lado dos opressores nazistas só porque era conveniente e mais fácil, e fizeram o jogo sujo dos invasores. Porém, os ‘‘partizans’’ defenderam a pátria, não aceitaram a tirania, a rédea, nem o cabresto e lutaram até a morte. Muitos deles deram suas preciosas vidas pela causa da pátria verdadeira e da dignidade. Quando tudo terminou e a França ficou livre eles foram celebrados como heróis.
  Aqui, no Brasil, também pode-se dizer ‘‘amanhã há de ser um novo dia’’, e cantar com Elis Regina ‘‘cuidado seu dotor com a sua exploração’’, pois o poder é fugaz e a tirania, ‘‘camuflada’’ com o vil dinheiro roubado dos cofres públicos, acabará como começou. É preciso resistir ao engodo, ao logro, à malandragem, ao ferrão feroz dos algozes, é preciso saber que ética tem honradez e dignidade e não tem subterfúgios, nem mentiras e nem sujeira. Ladrão é ladrão mesmo, corrupto é corrupto mesmo, que desvia o dinheiro público está privando os pobres do que é deles, da saúde da educação, da casa própria e sobretudo está causando o pior dos males: a exclusão do saber.
  Convido-os a resistir e não aderir ao fracasso do descalabro, à mentira e ao malogro dos ladrões e vendilhões do templo sagrado que é a coisa pública e a vida pública.
SERVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina

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