ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de setembro de 2006
Maristela de Mello Kosinski<BR>Maria Terezinha de Oliveira 
Pré-feitura: desconstruindo meu presente
Ao começar o artigo escrevi pré-fritura e sei que isto tem um dito aí. Me sinto aviltada quando vejo uma campanha publicitária da Prefeitura de Londrina falando sobre as obras que constróem meu futuro. Gostaria de dizer que meu presente e meu futuro foram construídos por mim com muito trabalho e luta. Nunca fui funcionária pública e nunca recebi um tostão de dinheiro público.
Diferentemente da realidade marketiana, eu e milhares de londrinenses estamos chocados e indefesos diante do abandono de alguns bairros. Parece que vivemos uma ficção quando sinto que o que vivo não é real porque a propaganda me fala de uma cidade que não vejo. A minha rua está praticamente sem asfalto. O nosso bairro abandonado pela administração municipal, embora seja um dos mais próximos da prefeitura, parece ter sido esquecido da rota das obras mas, jamais das rotas dos caminhões caçambas com até 22 toneladas que se dirigem ao aterro sanitário e também dos ônibus da Grande Londrina que trafegam em alta velocidade numa rua dita residencial pela própria prefeitura. Esse tráfego intenso de veículos pesados ocorre centenas de vezes por dia e nossas casas sofrem verdadeiros abalos sísmicos, e não nos permitem o sossego previsto em lei, desde às 5h30 até à 1 hora da manhã seguinte.
Bairros tão antigos quanto San Fernando, Vale do Cambezinho, Monte Belo, etc., ainda não têm esgoto e não se obtém nenhuma explicação para isso, embora a comunidade já tenha feito inúmeros apelos e protestos. Nossas residências, frutos de sonhos e trabalho árduo, sem verbas públicas, estão sendo literalmente desconstruídas por rachaduras ou em nossos imaginários de lar x bem-estar.
Gostaria que a administração municipal tomasse conhecimento público de como seus pares estão trabalhando porque realmente parece utopia. Já estive em todos os órgãos possíveis CMTU, IPPUL, Pavilon, assessoria do prefeito, Grande Londrina e até algumas promotorias. Essa via sacra já me rendeu uns 100 telefonemas, 30 idas a órgãos competentes, uma gastrite, insônia, estresse e finalmente renderá uma ação judicial. Sinto apenas o descaso e até ironia de seus (deveria dizer nossos) funcionários, quando os encontro em seus locais de trabalho, o que é raro. Talvez, o prefeito não saiba disso.
Interessante é que esta briga é apenas para exigir que se cumpram leis como Resolução nº 1 do Conama de 8/3/1990 - NBR 10.151/NBR 10.152; decreto-lei 3.688/41 da lei de contravenções penais - art 42 - perturbação do trabalho ou sossego alheio e res. Conama 02/90, 01/93, etc. Mas, como o nome diz, talvez fique apenas na pré-feitura e nunca se faça de verdade, assim como nossos vere-a-dores apenas observam nossas mazelas durante as campanhas e seguem de-putados.
MARISTELA DE MELLO KOSINSKI é psicóloga em Londrina e especialista em Clínica Psicanalítica pela PUC em Curitiba
Pombos de Londrina
Após tantos comentários sobre o que fazer com a superpopulação dos pombos no centro de Londrina, fiquei pasma com a solução que dizem ser a única e a certa. Fico até revoltada com tamanha falta de vontade na busca para soluções e, principalmente, com o jeito simplista de tomar a decisão: Vamos matá-las! Que decisão fácil, não é mesmo? Assim, a humanidade vai resolvendo de forma tão simples a vida de outros seres.
Quem sabe um dia a superpopulação de índios que circula no centro também tenha que sair, pois pode atrapalhar os pedestres que saem e entram das lojas, ou quem sabe também teremos que resolver o problema dos idosos que saem a passear e acabam atrapalhando o desenvolvimento rápido da vida comercial e profissional de Londrina (pois já deles se reclama da demora nas filas dos bancos, farmácias e supermercados). Sem falar ainda dos menores abandonados que circulam no centro, incomodando o cidadão respeitável. Ou das cadeias superlotadas: que tal matar um pouco dos bandidos? Vamos matar todos os seres que atrapalham a vida de Londrina e esquecer que esses seres são vivos e merecedores da vida e de estar neste mundo também?
O homem não é único e nem o centro de tudo e do universo. Precisamos de mais humildade e aprender a ter respeito pela vida, pois tudo faz parte da natureza e merece cuidado e atenção. Não acho que matar as pombas seja o certo e nem tão pouco temos este direito. Ouvi dizer que acabar com os pombos é necessário por causa da higiene. Já que é por higiene então vamos lá: já sentiram o cheiro das lixeiras, dos bueiros, e viram a falta de cuidado das ruas onde mesmo no centro, o lixo toma conta? Coitadas das pombas, elas pelo menos não têm o raciocínio e a inteligência que tanto nos gabamos de ter.
O homem está cada vez mais desumano e imediatista. Se o problema é a superpopulação de pombas, penso que outras soluções podem ser adotadas. Instruir os bares e lugares onde se vende comida para não dar alimento a elas; instruir os adultos e crianças que circulam no centro para também não fazer isso com distribuição de folhetos nas escolas e lugares onde haja concentração de pessoas (se pegamos folhetos de políticos por que não pegarmos folhetos instrutivos?); ampliar a poda das árvores, deixando-as menores para dificultar a formação de ninhos; capacitar o pessoal dos órgãos públicos para destruir ninhos e/ou retirar os ovos, evitando a choca; soltar os filhotes longe da cidade; manter as avenidas ao redor do centro sempre limpas sem restos de alimentos.
Sei que fazer isso não é fácil, mas é possível. Basta que as pessoas tenham um pouco de desprendimento e que os órgãos públicos tenham gente capacitada para isso. Seria uma solução demorada e complexa, mas basta ter boa vontade e o querer fazer.
MARIA TEREZINHA DE LIMA CAVALCANTI DE OLIVEIRA é artista plástica em Londrina


