Nascida a 7 de Setembro

 Nasci numa família de classe média onde meu pai, como milhões de outros brasileiros honestos e decentes, não só sonhava com um futuro de grandes realizações para seus filhos, mas trabalhava muito por isso. Minha mãe, mineira que carregou consigo pro Rio de Janeiro as tradições de suas raízes, não se preparou para nenhuma carreira e nunca trabalhou fora de casa: cuidou zelosamente de seus filhos. E de seus muitos filhos, a última - ‘‘pra fechar com chave de ouro’’, como ele dizia com orgulho patriota na voz - nasceu num 7 de Setembro, mas não num 7 de Setembro como os outros, pois era o ano da revolução em nosso país.
  Ele dizia em tom de brincadeira que, talvez por essas duas razões somadas, eu dei ‘‘mais trabalho do que os quatro outros juntos não deram!’’. Como se ter nascido no Dia da Independência e no ano da revolução tivesse imprimido em meus genes a determinação, opinião firme e destemida, senso crítico e disposição para mudar o que precisa e deve ser melhorado. Mas sabemos que o acaso de uma data não constrói o caráter de um cidadão. De certo que o nobre orgulho que meu pai sentiu ao presentear sua pátria no seu dia com mais uma brasileira, justificava-se pela certeza de estar presenteando-a com mais uma cidadã para honrá-la, servi-la e defendê-la - principalmente num momento tão forte de nossa história como foi 1964.
  E fez sua parte, educou-nos sob critérios éticos e valores morais bem definidos, provendo o que precisávamos e não o que queríamos; exigente em nossos estudos, sem luxos, viagens, restaurantes e nenhuma extravagância, que, aliás, não caberia em seu orçamento. Nossa vida foi simples, mas nada faltou em nossa mesa. Aprendemos que, por esta razão, além de agradecer a Deus, deveríamos fazer algo mais para que mudasse a realidade, tão diferente da nossa, de tantas outras famílias. Aprendi com meu pai que ser patriota vai muito além do que vestir verde e amarelo: é ter o coração verde e amarelo, ser solidário com seus compatriotas, ser guerreiro se preciso for para defender nosso chão, nossa gente e sua dignidade.
  O que vamos desfilar nas paradas de 7 de Setembro pelo país afora, entre mensalões, cuecões e sanguessugas? Não bastaria desfilar nossa indignação, repúdio e revolta. É preciso que nossos filhos e netos sejam encorajados pela mesma certeza que recebi de meu valente pai: somos milhões de brasileiros decentes e honestos, em muito maior número e força do que os que desejam roubar-lhes o próspero futuro que podem e merecem ter. Enfrentarmos o presente apropriando-nos da verdade bíblica de que o mal não vencerá o bem. É preciso que, junto com nossas bandeiras e fitinhas verde-amarelas, ostentemos a clara convicção de que assim como nosso país, nossa cidade e nossa dignidade, também nosso voto não está à venda, porque simplesmente não tem preço.
CRISTIANA CASTELLO BRANCO NASCIMENTO é dentista em Londrina

A pátria sou eu

  Minha pátria já me concedeu tudo, ela nada mais precisa fazer por mim. Importa agora o que devo fazer por ela. Pouco acrescentarei de melhor se ficar debruçado em angústias. Porque a pátria sou eu. Quero perder esse dom da indignação. Porque indignado não consigo pensar e minha mente se turva. A ira assume o comando e assim não posso ajudar minha pátria. Tenho que me colocar de pé. Se me ergo, posso puxar mais um comigo. Aí seremos dois. Que puxarão mais dois, e serão quatro, e nessa sucessão seremos 190 milhões.
  Minha revolta com os desmandos – dos governos e de muitos cidadãos – não é mais que medo. Minha sensação de impotência diante do arbítrio é insegurança que criei. Tenho que olhar isto sem julgamento. Medo é desconfiança e desconfiança é desamor. Tenho que amar mais um pouco. Amar mais a pátria-mãe. Amar mais a mim mesmo. Que assim afasto o medo e dou lugar ao amor.
  Recuso-me a aceitar que tudo está perdido, como querem alguns. Não, minha pátria não está perdida, nem eu perdido estou. Mas ponho-me de pé e à ordem. Vigilante. E meditando também, que é nada mais que me concentrar e acreditar-me possível, com fé no poder que carrego comigo por herança divina. Os corruptos e corruptores são um aspecto de minha pátria marginal. Eu tenho contribuído com ela, pela negligência, pelo conformismo e até por um confortável comodismo.
  Tenho uma responsabilidade perante a pátria, senão o que vim fazer aqui?! Minha pátria vive momento de erupção de algumas coisas vergonhosas. Penso que se podridões vão saindo do gargalo, é porque está se processando uma limpeza no recipiente. A pátria, não são os outros. A pátria é a casa onde moro, é o negócio que toco. A pátria é minha cumplicidade com ela.
  Me ergo, porque me percebi caído na descrença e atribuindo um valor exagerado a muitos que elegi e que me desapontaram. Eles estão cumprindo seu papel histórico de serem os últimos. Porque eles, nunca mais! Eles são a advertência. Eles vieram para mostrar o exemplo que não quero. Sou eu a pátria e sou eu o governo. Então, vou fazer com minhas idéias e minhas palavras e minhas ações aquilo que tenho desejado que o governo faça. Vou consertar o Brasil começando por consertar a mim mesmo.
  Me apequenei ao fazer grandes aqueles que, na verdade, não são suficientemente grandes a ponto de quebrantar minha fé. Se o governante é capaz de grandes estragos, eu preciso ser capaz de grandes consertos. Minha pátria está pronta. Eu é que estou inacabado. Eu ainda não me concluí como cidadão. Não quero que o governante me mude, mas mudo eu, e assim mudo o governante. Se eu for melhor, ele será melhor.
WALMOR MACARINI é jornalista na Folha de Londrina

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