ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de setembro de 2006
Reginaldo Jose da Silva<br>Andréia Rosa da Silva 
Estiagem, chuva e ambiente
Uma, duas, três, quarenta, cinquenta árvores cortadas próximas ao Lago Igapó. Uma, duas, três, quarenta, cinquenta mil aves poderão ser abatidas em Londrina. Mas os números que mais incomodaram nas últimas semanas são decrescentes. A umidade relativa do ar (URA) caiu de 60% para 15% em Londrina e atingiu em outras regiões do país índices abaixo daqueles típicos para regiões desérticas.
Os prejuízos desta estiagem prolongada são múltiplos. Perdas milionárias na agricultura, danos imensuráveis para a saúde e aumento no número de internados por problemas respiratórios. Mais que pele e lábios ressecados, aparecem sangramentos nas vias aéreas e complicações principalmente em crianças e idosos. Cenário irreconhecível nas Cataratas do Iguaçu e índices de evaporação recordes no Pantanal. Atividades escolares e concessões para queima de lavouras de cana suspensas. Mesmo assim, com tantos danos econômicos, sociais, ambientais e diretos à saúde, foram centenas as denúncias de desperdícios de água à Sanepar.
Reduzir os efeitos da estiagem passa pela melhoria das condições ambientais, em especial das áreas verdes e uso racional da água. A URA é a quantidade de água na forma de vapor presente no ar. As árvores, pela evapotranspiração, reduzem a temperatura e melhoram a umidade e a qualidade do ar. Quando em grandes ecossistemas, os biomas, realizam essa atividade com tamanha eficiência que são determinantes para o clima. ''Bem de domínio público, recurso natural limitado e dotado de valor econômico'', nenhuma dessas definições da lei brasileira (9.433/1997) permite que o usuário utilize a água na quantidade que bem desejar.
Diante da chuva que não vinha e do desperdício que continuava, como o nordestino que a cada ano perde e renova sua crença nas ''pedras-de-sal'', nos reunimos em igrejas e clamamos por chuva. A precipitação veio com ao menos uma semana de antecedência das previsões meteorológicas, mas infelizmente, como uma enxurrada, leva de muitos o pensamento de que é necessário continuar a usá-la racionalmente. Assim como tem sido abandonados, desde 2001, os hábitos de racionamento de energia. Este é o comportamento em relação às questões ambientais, como o santo que só acreditava no que via. Somente há preocupação e racionamento se o problema ambiental causa prejuízos diretos e imediatos (como os problemas respiratórios).
A indústria tem visto os benefícios (sobretudo) econômicos do uso racional da água. A agricultura, maior consumidor de água do planeta, precisa fazer sua parte e pode começar abandonando a arcaica técnica de irrigação convencional. A omissão estatal (que abandona questões ambientais por não enxergar potenciais eleitores nesse campo) pode ser vista nos pífios índices de saneamento básico. Há um ditado popular que afirma: ''O que os olhos não vêem o coração não sente''. Mas, mais importante que índices econômicos, se choveu 10 ou 100mm ou que o número de potenciais eleitores é sentirmos os infindos benefícios que os olhos teimam em não ver.
REGINALDO JOSE DA SILVA é biólogo, pós-graduado em análise ambiental e policial militar em Londrina
Ignorância e preconceito
Minha história começou há quase trinta anos quando eu e minha família fomos passar o
Natal na casa de meus avós. Meu irmão, que na época tinha dois anos acabou falecendo
em decorrência de uma pequena queda. Nunca esqueci quando alguém falou que se ele não tivesse morrido seria um deficiente,
um vegetal. Esta foi a forma que encontraram para amenizar a dor que nossa família
estava sentindo. Os anos passaram e, como sempre fui curiosa, parti em busca desta
pessoa vegetal. Sabe o que aconteceu? Não encontrei.
Nunca desisti, visitei várias instituições, cidades diferentes e nada. Busquei meu irmão em cada criança, em cada jovem portador de necessidade especial e não consegui vê-lo em ninguém. Hoje já não busco respostas pois, eu sei que não existem pessoas normais, todos possuímos limitações.
Quanto às crianças, jovens e adultos portadores de necessidades especiais que tive o privilégio de conhecer afirmo que, não podem ser classificados de vegetais, eles precisam e devem ser respeitados pois, também têm fome, sede, frio, calor, sentimentos e inteligência.
Uma coisa eles possuem de sobra: respeito. Não criticam, nem condenam se sou pobre, negro, gordo, analfabeto ou se preciso de alguém para empurrar a minha cadeira de rodas, se sou portador de alguma síndrome, deficiente visual, auditivo, se tenho algum distúrbio de aprendizagem, alguma limitação, enfim, eles olham para mim e enxergam somente um ser humano cheio de possibilidades.
Permaneci na ignorância durante muitos anos, acreditando no que ouvi de uma pessoa mal informada. Não seja ignorante, aproveite o dia de hoje, visite uma instituição e seja voluntário. Leia a respeito, informe-se e, acima de tudo, vença o preconceito que ainda é a pior forma de exclusão.
ANDRÉIA ROSA DA SILVA é graduada em Letras e professora na Apae de Bentópolis
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