Produtor rural não rende votos

Não consigo ouvir o rádio ou manter televisão ligada no horário eleitoral. Não consigo ouvir falar que a cesta básica está mais barata ao consumidor, sabendo que isto se dá por conta do sacrifício do produtor e não obra do governo que trabalha ao inverso.
O governo federal reduziu os agricultores em pessoas endividadas e insolventes. Os produtores rurais estão pondo alimentos no prato dos consumidores a preço abaixo do custo de produção, cujo fato o presidente Lula festeja como sendo sua obra e louvável, quando, na verdade, é o inverso. Os nossos produtores rurais é que estão bancando com tais benefícios em seus sacrifícios.
A política cambial adotada pelo nosso governo é perversa. O câmbio flutuante do meio circulante e as altas taxas de juros (Selic) atraem capital externo. O excesso de oferta da moeda americana (dólar) disponível em nosso país tende a ceder o seu preço e, com efeito, valorizar a nossa moeda (Real). Daí, valorizada a nossa moeda, nossos produtos ficam mais caros lá fora e, com efeito, estagnam-se as exportações.
Sabe-se que a produção agropecuária brasileira é excessiva ao consumo interno. O preço do produto agropecuário, atendendo a lei da oferta e da procura, está à mercê das exportações. Não havendo exportação, não há preço. O preço interno não cobre o custo de produção. O prejuízo é certo e, daí, no curso dos anos, suas dívidas avolumam-se.
Destarte, trilhando-se a política econômica de nosso país pelos atuais caminhos por um ou dois anos, não teremos mais alimentos à mesa do consumidor. Ao menos, pelos preços atuais, ante a escassez que certamente virá.
Por fim, o pior é que, até o momento, não vi um candidato sequer defender a agropecuária ou comentar sobre este assunto. Presume-se que eles agem desta forma em busca de votos em abundância. Pois, defender o produtor rural não rende tantos votos quanto rende defender o consumidor.
ADÉLIO DRUCIAK é advogado em Umuarama

A luta eleitoral

  A luta eleitoral deu seu starting e se aguarda - como na histórica campanha política de
45 -, que os candidatos adejem o lenço branco sobre o eleitorado, e é cedo para, no dito atribuído a Shakespeare, saber quem será o Rei Fortimbras.
  Há efervescências em jogo: a dos que querem o continuísmo - que tudo indica ser desastroso, ao menos em nível nacional - e a dos grupos que preferem a revirada, que, à míngua de um contexto seguro e que não simbolize apenas movimento das camadas mais portentosas da sociedade, a que aderem oportunistas e farejadores, poderá não trazer soluções.
  Para facilitar o debate, elege-se a segunda opção, que ainda não possui estálido e nem forte fulgor, que seja capaz de galvanizar o eleitor, sabido que o PSDB, no caso, é tido como camaleonicamente dotado do delírio silencioso da medíocre obscuridade. Não se generalize a colocação, no entanto, porquanto gravitam outras forças paralelas, de melhor perfil e parece que de musculatura privilegiada.
  E por quê? O PSDB tem suas origens no espólio que sobrou das cinzas da antiga UDN, partido que, embora destituído de unidade, sempre lutou pelo poder e, não o obtendo, mariscava-lhe à sombra, como lembra Maria V. Benevides, no livro ‘‘A UDN e o Udenismo’’.
  Nessa obra, a autora faz o levantamento histórico e as perspectivas, que se projetam na atualidade, tanto que o excessivo legalismo, como sua característica ímpar, é também o responsável pela existência de legislação eleitoral ambígua, casuísta e oportunista e basta invocar as prescrições da Lei 9.504/97 para se ver, com facilidade, que o texto quer sacrifícios, sem conceder misericórdia.
  O momento eleitoral vai estacionar o País, com o comprometimento de suas atividades, e o Judiciário, para punir quejandas e condutas menores cotidianamente, deverá ficará de costas para as graves questões, que reclamam enérgica intervenção.
  Se os candidatos não tiverem espírito maior e não estiverem aptos a descerrar o véu que encobre os grandes problemas (especialmente a questão do modelo econômico como um todo, que também é responsável pela incrementação da violência), a refrega será uma jornada de tolos a darem murros no paralítico e o resultado será mais um divórcio entre o novo poder e os genuínos anseios do povo.
  A Lei Eleitoral ganharia credibilidade se ao menos fosse dotada de disposição formal para negar registro a candidatos, contra os quais, mais que uma nuvem, pesam evidentes e contundentes restrições e não ficasse, por exemplo, à caça do trabalho infantil que, se de um lado é condenado, de outro traz recursos úteis e necessários a esse team de excluídos.
  Não se pode, na alegoria de Platão, ficar com os olhos voltados para o fundo da caverna, enquanto a realidade se passa do lado de fora: e essa realidade tem a dureza do aço, agregada aos meneios da serpente.

MOISES DE GODOY é pós-graduado em História do Pensamento Brasileiro e advogado em Londrina

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