E se fossem os ratos?

Um grupo de pessoas já há algum tempo está se sentindo incomodado com as 160 mil pombinhas do bosque. Pergunto: e se fossem 160 mil ratos? No Brasil temos 235 espécies que podem transmitir doenças como leptospirose causada por uma bactéria presente na sua urina. Tivemos 4.128 casos em 2000. Eles transmitem Hantavirose, cuja mortalidade fica entre 40% e 60% e se pega por simples inalação. Ainda causam o Tifo, pela Rickettisia que vivem em suas pulgas, a verminose Triquinose (um rato pode ter até 40 mil vermes de triquina) ou a bem conhecida Salmonelose, entre outras.
Saibam vocês que os ratos urbanos vieram da Europa nos porões dos primeiros navios colonizadores, nem brasileiros são. E se fossem 160 mil morcegos chupadores de sangue? Olha que em Londrina temos bem mais de 160 mil destes. Mas, estes são mais espertos que as aves e preferem as casas de campo.
Em Veneza, a população de pombos é proporcionalmente bem maior e lá eles são atração turística. No sul dos EUA existe uma gruta com 20 milhões de morcegos e são protegidos por guardas e barras de ferro. Olha o que um pouco de cultura não faz! Em alguns lugares da Índia a população de camundongos é maior que a de humanos e protegida por cada cidadão há séculos, não há meses.
Há um mês tive minha casa invadida por ladrões, tive um revólver na cabeça por um longo tempo, humilharam minha família e, de quebra, levaram meu carro. Como eu preferiria que tivessem sido as pombas a invadir minha casa. Alguns vizinhos do bosque reclamam das pombas. Mas nunca vi ninguém reclamando dos mosquitos que transmitem Leishimaniose, que pode ser letal, presente na periferia de Londrina.
Nunca vi ninguém reclamando das bactérias que matam crianças desidratadas nas favelas ao nosso redor. Nunca vi ninguém reclamando da mãe que aplica inseticida ''spray'' no quarto enquanto o bebê dorme no berço. Nunca vi ninguém reclamando do lixo urbano.
Enquanto as pombas sujam embaixo de poucas árvores, o bicho homem emporcalha o bosque inteiro com tocos de cigarro, fezes de cachorro e muito mais. Nunca vi ninguém reclamando dos carros cujos escapamentos lançam metais pesados que são letais.
Sou capaz de mostrar inúmeros casos de doenças transmitidas por ratos e mosquitos, mas desconheço qualquer caso de doença transmitida pelas pombas de Londrina.
É provável que a população das pombinhas esteja já atingindo o seu equilíbrio e elas não façam nada mais do que isso. Sugiro: fiquemos com as pombas e mandemos os reclamantes embora e teremos paz, e agradeçamos a Deus pelo presente.
NELIO ROBERTO DOS REIS é doutor em Ciências pelo INPA e professor na Universidade Estadual de Londrina

Água, capitalismo e escassez

De acordo com um estudo divulgado em agosto último, uma em cada três pessoas no mundo sofre com escassez de água. Segundo o estudo, a demanda crescente por irrigação e produção de alimentos e biocombustíveis devem agravar o problema. O estudo foi realizado por 700 especialistas e divulgado pelo Instituto Internacional de Gerenciamento da Água (IWMI - sigla em inglês), com apoio das nações Unidas. A pesquisa foi exposta numa conferência em Estocolmo, Suécia, durante a semana da água. Asseverou o Instituto que ‘‘o cenário da escassez é maior do que o estimado anteriormente. Para lidar com a fome e com as 3 bilhões de pessoas a mais no globo, no ano de 2050 haverá um aumento de 80% no uso da água para agricultura em terras irrigadas’’.
  Para um dos integrantes do Instituto, David Molden, haverá outro stress porque isso exige um uso muito maior de água. Este estudo diz também que a grande solução é encontrar formas de produzir alimentos com menos água. Ou seja, na prática seria mais colheita por gotas, segundo Molden. A principal recomendação é melhorar os sistemas de irrigação a partir da chuva na África Subsariana e no Sul da Ásia. A solução enfatiza o relatório, inclui ajudar os países a adotar medidas simples e de baixo custo para usar a água potável e disponível na produção de alimentos. Mostrou-se ainda que cerca de 1,5 dos 6,1 bilhões de pessoas no mundo vivem em locais onde a água está escassa, como no Norte da África e da China e em partes do Sudeste dos Estados Unidos.
  Na verdade, se ao realizar esses estudos não se propor uma mudança no modelo econômico ora vigente, não se chegará a soluções plausíveis no que se refere à preservação dos recursos naturais, como por exemplo, a água. Sua escassez se insere numa lógica de produção desenfreada, principalmente nos países ditos de primeiro mundo, que primam por políticas protecionistas levando os recursos naturais à exaustão. Observe ainda: para se produzir uma caloria de comida se gasta um litro de água, um quilo de grão pode ser produzido com ‘‘apenas’’ 500 a 4 mil litros enquanto um quilo de carne processado industrialmente gasta 10 mil litros, segundo o estudo mencionado. E se pensarmos nas grandes indústrias que além de gastos exorbitantes de água ainda poluem os rios e o meio ambiente?
  Enfim, no sistema capitalista todos os meios para desenvolver a produção se convertem em meios para dominar e explorar, já afirmava Marx em seu, Vol I de ‘‘O Capital’’. Portanto, penso que é preciso deslocar a centralidade do debate da escassez da água para a perversidade do modo de operar do capitalismo onde os meios justificam os fins. A questão é: se o mercado domina tudo, quem o controla? Nunca foi tão urgente se pensar uma forma de se impor regras e limites que o impeça de destruir o planeta e o próprio futuro da humanidade.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Política em Londrina

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