ESPAÇO ABERTO
O corte no juro em agosto
Darci Piana
A decisão desta semana adotada pelos dirigentes do BC que compõem o Comitê de Política Monetária, de reduzir a taxa de juros em 0,5%, representa a décima queda sucessiva adotada por aquele órgão. É um comportamento que vem se repetindo desde setembro de 2005, quando se verifica que a taxa básica nesse período caiu de 19,75% para os 14,25% desta semana, uma queda acumulada de 5,5%.
O novo valor representa a menor taxa desde 1996. No entanto, em termos de juros reais, o Brasil continua na liderança no mundo, ou seja, taxa básica Selic (14,25%) menos a inflação projetada para os próximos doze meses (4,85%) nos deixa uma taxa real de 9,4% ao ano.
Por trás da decisão adotada tem-se que o BC verificou que a taxa de inflação vem num sentido descendente, nada indicando que, permanecendo as condições atuais na economia brasileira e no contexto mundial, poderá haver distúrbio econômico que possa influenciar os níveis de preços no Brasil.
Ademais, revelou-se de maneira muito flagrante para as autoridades do Copom que o valor elevado dos juros agia como um rígido fator de contenção e bloqueio da atividade econômica, com uma série de efeitos paralelos associados: menor geração de novos empregos num ambiente onde há uma grande demanda de trabalho pela população economicamente ativa, principalmente em busca do primeiro emprego; contenção do desempenho do PIB - Produto Interno Bruto - do País, implicando numa ociosidade elevada da capacidade produtiva instalada. Por outro lado, a combinação desses dois fatores e a economia menos aquecida, afetam negativamente o nível de salário real e, em consequência, o poder aquisitivo de expressiva parcela de consumidores.
Nesse momento, ao reduzir a taxa básica em percentual maior que o previsto, o governo dá uma demonstração de que, finalmente, está aceitando as reivindicações e queixas que empresários (lado da oferta) e consumidores (lado da demanda) já faziam há muito tempo: a estrutura produtiva interna não suporta a continuidade de padrões absurdamente elevados de juros como os praticados na economia brasileira.
Acreditamos que está mais do que na hora de inversão na tendência de comportamento dos juros reais no Brasil. A decisão dessa semana pode ser indício importante. O empresário e o consumidor já fazem a sua parte, que corresponde a mais do que o possível. Espera-se que o governo faça a sua. O Brasil agradecerá.
DARCI PIANA é presidente da Federação do Comércio do Paraná
Direito obrigatório?
Rubya Tesser
Até que ponto o voto é a manifestação plena da cidadania? Em ano de eleição, não é raro ouvir discursos eloquentes acerca da necessidade de ir às urnas e fazer a opção por um candidato. Grande contradição é a democracia brasileira, o voto como direito político fundamental nos é dado em favor de nossa cidadania, entretanto votar é um exercício obrigatório a todo cidadão brasileiro. Isto é, não importa o quanto nos faltem opções de candidatos do ponto de vista ideológico, a democracia nos ''outorga o direito'' de escolher um deles.
Quando votamos, delegamos nosso direito de participação política àquele que será a representação do povo no governo do país. Na verdade, votamos naquele que melhor pode representar nosso interesse privado junto à sociedade. Se o sistema eleitoral de nossa suposta democracia tem como função atender as diversas necessidades do povo e fazer valer a vontade geral, é certo então que a parcialidade e o egoísmo de nossos interesses privados sempre prevalecem na escolha de um candidato. Isto é, optamos por aquele que possa corresponder às nossas expectativas individuais frente à sociedade. Desta forma, construímos, por meio do voto e do exercício da cidadania, um sistema de representatividade mesquinho, que não é capaz de abraçar a pluralidade de interesses individuais que existe na sociedade como um todo.
Se quisermos acreditar que o voto é um ato de cidadania plena, temos que partir do pressuposto que o candidato que escolheremos está despojado de todos seus interesses e necessidades individuais para representar a heterogeneidade social da nação. Em meio a tanta corrupção, parece utopia crer que existe político dotado de tamanho altruísmo.
Por outro lado, o que vemos é um verdadeiro esvaziamento político, sobretudo entre os jovens, que vão às urnas para ''cumprir com sua obrigação'' civil, mas se despiram da necessidade de se integrar à vida política do país. De fato, o voto é o direito político que nos resta para efetivarmos nossas escolhas, mas não é a nossa única saída se quisermos verdadeiramente participar da vida pública.
Ações sociais de fiscalização e cobrança são formas bastante pertinentes de se instaurar a plena participação do cidadão junto ao governo. Os dois períodos de ditadura que o país passou deixaram sequelas na vida política brasileira. Quando a democracia ficou fragilizada e os direitos políticos do cidadão estavam ameaçados, a população foi às ruas reivindicar aquilo que lhe fora tirado. Agora vivemos na calmaria de uma democracia que dá direito de voto, mas acreditamos que isto seja suficiente para participarmos efetivamente das decisões públicas. Pobre do povo que deposita no voto sua única chance de mostrar sua influência na política da nação.
RUBYA TESSER é estudante em Londrina





