ESPAÇO ABERTO
O massacre das pombas
José de Arimathéia Cordeiro Custódio
Aqui vai uma historinha para toda a família reunida ouvir à noite. Era uma vez um grupo de aprendizes que trabalhava numa gráfica, lá pelos idos da década de 30 do século XVIII, em Paris. Explorados à exaustão, levantavam antes do sol raiar, trabalhavam o dia todo, comiam mal e dormiam à noite amontoados no chão de um quartinho sujo e frio. Os oficiais, assalariados, constantemente os humilhavam e os sobrecarregavam. Os patrões, gordos e felizes, apenas contabilizavam os lucros. Naqueles tempos de crescente revolução industrial, grandes gráficas ''engoliam'' empresas menores, gerando uma oligarquia de mercado e aumentando a exploração da mão-de-obra menos qualificada.
Certa noite, cansados demais, ressentidos demais, não conseguiam dormir com a cantoria dos gatos da rua - e eram muitos. Não tiveram dúvida: armaram-se de bastões, cabos de vassouras, barras de impressora e outros instrumentos e foram para as ruas executar cada bichano que encontraram pelo caminho, a começar pelos bem tratados gatos dos patrões.
Toda a raiva contra um sistema injusto, a pressão no trabalho e os diários ataques à dignidade explodiram em uma irracional matança. Covardes, incapazes de se voltar contra a verdadeira fonte de sua ira (os opressores), os aprendizes descontaram sua frustração em seres mais fracos. Ademais, os gatos já tinham má fama mesmo, por estarem associados à feitiçaria.
Conta-se que os felinos foram submetidos a um julgamento, condenados e depois pendurados mortos e mutilados, para servirem de exemplo - tudo muito bem justificado, então. É possível notar que a matança teve seu grau de organização, numa tentativa de racionalizar o ato praticado. Também é interessante notar que foi uma ação ritualística e, portanto, simbólica, embora com efeitos muito realistas.
Esta é uma das histórias do livro ''O grande massacre dos gatos'', de Robert Darnton - um historiador dos costumes e cultura do Antigo Regime francês. A obra fala ainda de histórias de lobos, meninas, vovós, florestas... mas não se engane. Longe de serem meros contos de fadas, eram narrativas grotescas e de extrema violência, sem nada do tipo ''e viveram felizes para sempre''. Muito pelo contrário: a história de Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, só ganhou um lenhador (ou caçador) para salvar todo mundo no século XIX. As narrativas foram infantilizadas por serem consideradas assustadoras demais para as crianças. Porém, em sua origem, refletiam a dura realidade dos trabalhadores e pobres, somada ao imaginário fantástico, sempre alegórico. E sempre um retrato de sua própria época.
Moral da história?
JOSÉ DE ARIMATHÉIA CORDEIRO CUSTÓDIO é jornalista em Londrina
Sexo, conexão com espiritualidade
Walmor Macarini
O ser humano nunca compreendeu a sexualidade. Tudo o que lhe ensinaram a respeito foi a partir de um sentido de moral e de pecado. Como tal, o sexo passou a ter o sabor de algo proibido e a ser praticado com banalidade ou com o puro sentido de prazer. O sexo, porém, quando partilhado pelo par ideal, é tão mais importante do que praticar uma religião. Porque a prática sexual é um estado de prece. Há uma poderosa emanação de poder na conjunção, porque gera fortíssima emoção. E é a emoção que nos conecta com a espiritualidade.
Com o parceiro adequado, o sexo unifica mútuos sentimentos, cria um campo de força e ingressa em elevada frequência. Pode não ocorrer entre marido e mulher, porque muitos desses casais não se amam, e nem pela mistura aleatória de parceiros, que embaralha energias e é prejudicial. O sexo não tem relação apenas com o prazer mas é algo que transcende a fisicalidade. Não tem nada a ver com fantasias mas com o uso consciente da energia, que emana da natureza cósmica e se manifesta no homem pela via do chacra básico. Pode ocorrer, então, a mais alta expressão da divindade.
O homem acordará a sua polaridade feminina perdida, e o mesmo acontecerá com a mulher com relação à sua porção masculina. Será a fusão das almeas gêmeas, e este é o sentido e não o de que existe em qualquer ponto do universo um ser do sexo oposto nos esperando. Isto tem feito a fantasia de homens e mulheres, mas a sublimidade desse acontecimento é a conexão de duas porções num só corpo. É o ovo cósmico que se bipartiu e se reencontrará. Tudo isto não invalida que iremos encontrar nosso par perfeito nos planos de existência onde iremos chegar. Isto já ocorre com os seres intergalácticos e com as divindades.
Nada que se assemelha ao que os sexólogos dizem, porque eles se ocupam da fisiologia do ato sexual e do prazer. Não está descartado o prazer no sexo, mas é algo com sentido mais reverencial, de celebração do próprio corpo. O indivíduo/macho sentiu vergonha de ser doce, de manifestar sensibilidade, e foi anulando o seu belo componente feminino que não deve ser confundido com homossexualismo, nem com o ato de os homens estarem indo para os institutos de beleza. É algo mais sublime, que toca na sua estrutura sexual bipolar e a reativa, depois de milênios de adormecimento.
Redespertando o seu aspecto feminino, o homem/macho redespertará também a sua intuição, que é mais um atributo da sensibilidade feminina. As crianças já estão chegando com esta nova carga genética. Por isso não se deve sufocá-las com a imposição de nossas crenças, como se soubéssemos das coisas e elas não, porque é exatamente o contrário. E é preciso que o ser humano se ame muito. Amar primeiro a si mesmo, que o amor pelos outros acontecerá espontaneamente.
WALMOR MACARINI é jornalista na Folha de Londrin





