ESPAÇO ABERTO
Assembléia dos pombos
Walter Costa Barroso
No ponto mais alto de seu habitat natural, a copa da última peroba localizada no bosque de Londrina, em assembléia geral com pauta definida e deliberações a serem tomadas, reuniu os mais variados segmentos das pombas de nossa cidade. Lá estavam as amargosinhas, as pombas urbanas e, quem diria, até os pombos-correio ameaçados de extinção por falta de emprego, face a concorrência impossível com a internet, e-mails e outros modernos meios de comunicação dos homens.
O pombo urbano, o mais velho e preparado, escolhido por aclamação para presidir os trabalhos, abre a sessão comunicando a decisão do bicho homem em eliminar boa parte dos companheiros por vários motivos. Não sabem quantos somos, mas já estudam formas de eliminação mais ou menos cruéis.
O representante do MSA Movimento dos Sem-Árvores protesta alegando que a culpa dos transtornos é dos homens que cortaram todas as árvores da zona rural obrigando-os a se refugiar na cidade, onde ainda existem algumas.
A pombinha amargosa levanta o descaso dos humanos que poluíram as nascentes com venenos e com seus dejetos, já não existe no campo nenhuma fonte limpa onde se pode tomar água e banho diário, só aqui na cidade é possível encontrar alguma água tratada.
O pombo urbano, o mais privilegiado da raça, pois há muito tempo migrou para cá, reclama que já não existem mais os pombais apropriados para criar os filhotes. Mais alguns protestos e a pombinha branca reclama dos humanos um financiamento para a compra de anticoncepcionais. O presidente adverte: ''Veja lá, vão arranjar uma confusão com a Igreja''!
Propostas encaminhadas e o pombinho amargoso levanta a hipótese de nada disso ser acolhido pelos humanos. Sugere já um estado de vigilância preparando as armas: ''Senhores, os homens são muito grandes, lentos e não têm asas. Vamos usar as nossas como arma principal. De início, vamos dar um baile enorme neles em nossa captura. Vamos também afiar bem nossos bicos usando a tática de furar os olhos deles como no filme 'Os pássaros', de Alfred Hitchcock''.
O pombo urbano, que preside os trabalhos, adverte que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e que todos permaneçam unidos. Depois, convida a todos a fazer um dia de advertência e protesto fazendo um emporcalhamento geral nos carros dos inimigos. Sugere ainda à humanidade a despoluição do meio ambiente, o reflorestamento e respeito total às coisas da natureza.
Espero que, decisões como a dos pombos, sirvam de exemplo e possamos ter um comportamento civilizado e de coexistência com os animais.
WALTER COSTA BARROSO é cirurgião dentista em Londrina
IDH possível
André Galvão de França
É assunto recorrente na imprensa e nos debates políticos do Paraná o baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que apresentam certas regiões do Estado. É sabido que o índice de leitura, por exemplo, é sete vezes menor do que o Rio Grande do Sul, mas nada convence as elites políticas do Paraná da importância que possui a cultura no desenvolvimento humano.
Não se discute a cultura emanada do povo paranaense, é como se não existisse. Só emprego, segurança, educação e obras. Mais vale um metro cúbico de concreto em uma obra monumental do que o conhecimento propiciado via cultura. Bibliotecas, teatros e oficinas culturais, fomento à leitura, conversa fiada.
O concreto pode libertar? A cultura liberta e produz desenvolvimento. A indústria cultural é a segunda mais importante dos Estados Unidos. No Brasil não há compreensão de seu potencial, funciona como um ciclo. Se não possui importância também não há investimento nem desenvolvimento, o que resulta aí sim, no IDH baixo que tanto preocupa a elite política.
Pauta-se no debate eleitoral a impossibilidade de construir no Paraná o turno integral nas escolas. Pelo modelo convencional talvez seja, mas se atividades culturais ocuparem juntamente com o esporte o contraturno, pode o Paraná em curto espaço de tempo solucionar demandas da educação e da segurança, investindo na formação das pessoas.
Orçamento disponível não é o impedimento, pois as obras prometidas pelos candidatos estão orçadas em centenas de milhões. O próprio orçamento da Secretaria Estadual de Cultura, se gerenciado de forma democrática para todo o Estado promoveria o desenvolvimento isonômico entre as regiões, capilarizando recursos e processos de geração de renda.
Basta observar o investimento em cultura do governo federal e do município de Londrina para concluir que, com um orçamento modesto e bem gerenciado, é possível propiciar desenvolvimento humano e econômico. Lula não foi recebido com festa pelos artistas e intelectuais sem razão, existe uma revolução fértil e silenciosa sendo gestada nos programas do Ministério da Cultura, que aumentou em 350% seu orçamento em 3 anos.
Portanto, a ausência no debate eleitoral das questões culturais não é algo anormal, pelo contrário, é reflexo do baixo valor que possui a cultura nos grupos políticos do Estado, repercutindo na cobertura omissa da imprensa e, pior, na gestão cultural do grupo vitorioso. Nosso IDH não é baixo, é apenas o IDH possível.
ANDRÉ GALVÃO DE FRANÇA é advogado em Londrina e coordenador do Fórum Permanente de Cultura do Paraná





