ESPAÇO ABERTO
As aparências (não) enganam
Clodomiro José Bannwart Júnior
Com o fim do regime militar era corrente a esperança de que se reintroduziria no país o pluripartidarismo e o processo eleitoral, como forma efetiva para se alcançar uma democracia sólida. Em 1989, o exercício democrático apenas engatinhava quando se sucumbiu ao personalismo do presidente Collor, com sua postura centrada na figura do caçador de marajás e discursos voltados aos descamisados, em completa discrepância com o conteúdo ideológico partidário. Basta lembrar que o PRN, sigla que abrigou a candidatura Collor, foi criada em fevereiro de 1989 e, em menos de dez meses, o elegeu presidente da República.
Hoje muito provavelmente se lamente, como diz Roberto Schwarz, o fato de os esforços do campo de ''centro-esquerda'', forjado na luta contra a ditadura militar, não terem perdurado ao longo desses anos. Após a abertura política, aqueles que juntos combateram os militares e assumiram a tarefa de reconstruir os estragos da ditadura e de resgatar a democracia acabaram por se separar. Parte destes, no PSDB, subiram ao poder e conduziram, por quase uma década, um governo de centro-direita. A vitória do PT em 2002 soava como enfrentamento dessa constelação política. A decepção veio quando se percebeu que o governo Lula não era de enfrentamento, mas de reencontro com os antigos ex-aliados, já há muito aninhados nos braços da direita. O reencontro, brindado pela direita festiva, deu-se no terreno de centro-direita, não motivada por razões políticas, mas pela determinação do capital financeiro. Em suma, o quadro pode ser resumido na declaração recente de Olavo Setúbal: ''Não há diferença entre Lula e Alckmin. Os dois são conservadores''.
Se o quadro é de lamento, acresce ainda que, após a enxurrada de denúncias sobre o ''mensalão'', Lula tem, pelos indicativos das pesquisas, chances de ser eleito no primeiro turno. Essa segunda vitória, se confirmada, será por artifício da imagem do próprio Lula. Na verdade, Lula basta-se a si mesmo. Não precisa mais do PT, pois descartou a estrela que refletia o brilho do partido em anos anteriores. Não necessita de coligações, a exemplo do que ocorreu em 2002, quando submeteu parte da pureza ideológica do PT aos pés de José Alencar, para conquistar a credibilidade do mercado financeiro. E não precisa de debates para expor as suas idéias e dar explicações sobre aquilo que o país deseja saber.
Enfim, 2006 parece repetir a apatia da reeleição de FHC em 98. Mas não só isso. Os tempos de agora rememoram um candidato entronado no figurino carismático, sem lastro partidário, sem ideologia, sem alianças, sem debates de idéias, porém com um discurso de salvação que muito se assemelha com o do pai dos descamisados de 89. Pelo visto, Lula não só conseguiu reencontrar-se com os ex-amigos em terreno inóspito, como também se tornou semelhante aos inimigos.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina
Para quem não gosta de política
Geder Parzianello
Há um ditado que diz que quem procura vingança vai precisar cavar duas sepulturas. Mas, em se tratando de eleições presidenciais, não há sequer vestígios de alguém cavar alguma coisa, a não ser a própria cova. O cenário eleitoral está apático, o eleitor desanimado, sem opção, o medo do voto em branco ronda os comitês políticos em todo o país e com razão. O ano eleitoral parece nem ter começado. Não vi até agora o Alckmin dizer que o maior sanguessuga nesse país é o Lula e que valerioduto e mensalão foram coisas do Governo Lula. Não vi o Alckmin dizendo que o país não pode ser governado num segundo mandato por um presidente que diz que nada viu e nada sabia.
Para quem não gosta de política, então, aí mesmo é que o cenário nacional não inspira em nada. Vive-se hoje uma conformidade com os fatos mediatizados sobre a violência, a corrupção, a ausência de ética, o sufrágio da moral. Na contramão dos fatos, um evento anima a vida intelectual do país: a semana encerrou com as conferências em São Paulo e Rio de Janeiro e seus debates em torno da banalidade da moral, um tema absolutamente pertinente ao cenário político nacional. O trabalho do filósofo Franklin Leopoldo e Silva, professor da Universidade de São Paulo, ganhou repercussão na imprensa e reacendeu discussões clássicas em torno da esfera pública e privada no campo da política, especialmente pela crítica que faz de que nossos políticos estão confundindo as esferas do público e do privado, trazendo para a esfera pública as discussões que pertencem ao domínio pessoal. Coordenado pelo filósofo Adauto Novaes, o evento reuniu boa parte da intelectualidade universitária brasileira e teve como destaques Marilena Chauí, Renato Lessa, Jean-Michel Frodon, Renato Janine Ribeiro, Marcelo Coelho e Sergio Rouanet, entre outros.
Perdemos a capacidade de admirar a retidão das condutas, a honestidade e o caráter. Ficamos indiferentes diante do bem e do mal, ou como afirma Hannah Arendt, perdemos a capacidade de julgar e decidir por nós mesmos. Existe hoje uma completa dissolução pelo interesse público, comenta Arendt, ao que emendo para chamar nosso tempo de um descrédito que beira o corpóreo do cinismo. Consensos populares vão tomando forma de verdade e nossa cultura molda-se no arquétipo das mediocridades e hipocrisias, onde julgamentos morais movem-se por interesses pessoais. Aos mais jovens, parece se apresentar a impressão de um tempo sem história. Mal sabemos quem somos, não importa pensar aonde vamos.
A banalização dos escândalos virou vetor de banalização da moral e da própria ética. A sociedade se diz enfarada de CPIs e a trivialização dos jogos de cena políticos já não servem aos interesses de audiência. Não é só o presidente que não é atingido pelos escândalos, a grande maioria também não o é. Nem pelos escândalos, nem pela política. O não-lugar social é também uma não-posição ideológica frente ao mundo. É hora de pensar nisso, antes de votar para presidente.
GEDER PARZIANELLO é doutorando em Comunicação Social e professor universitário em Maringá





