Pilares da ação política

Dom Orlando Brandes
  Voto não tem preço, tem conseqüências. O Brasil está se politizando, mas a maioria do nosso povo precisa de conscientização política. Não podemos culpar só os políticos no que tange à corrupção política. Certas lideranças e comunidades tendem a aproveitar-se do ano eleitoral para obter favores. Onde fica o bem comum, os direitos fundamentais da pessoa humana, a construção da sociedade justa e fraterna? A política é uma missão árdua em favor da comunidade, da solidariedade, da democracia, das necessidades básicas. A Doutrina Social da Igreja oferece quatro pilares da ação política:
  1. A verdade. É o que chamamos de ética na política e a superação do mau hábito da corrupção, que se tornou cultura. Esse assunto daria um bom debate político. Onde está a verdade nas questões de saúde, de verbas públicas, de educação, do desemprego, dos partidos? É bom aqui lembrar Gandhi que dizia: ‘‘O que fui na vida política eu devo ao meu compromisso com a verdade’’. Política não é a arte da esperteza, mas da transparência. É compromisso com a verdade.
  2. Justiça. Política e justiça são inseparáveis. O que conta é o bem comum, a dignidade de todos, as leis justas. A justiça faz a política voltar-se para os pobres, os excluídos que a globalização e o mercado estão empobrecendo. É a justiça que responde ao grito dos famintos de pão, de afeto, de ética, de religião. ‘‘Amai a justiça, vós que governais a terra’’. (Sab 1,1). Uma nova cultura política construirá a civilização do amor cujo fundamento é a justiça. Cabe às religiões elegerem candidatos que defendam o povo, os direitos humanos, a vida, a comunidade, a solidariedade. É muito questionável o fato das religiões elegerem candidatos para obterem favores. Isso acontece também no meio católico. Porém, já tivemos políticos santos, porque eram justos.
  3. A liberdade. Sem democracia, sem cidadania não se constrói a vida pública. Longe de nós a ditadura, a opressão, a dominação, como também a anarquia. A liberdade é condição indispensável para uma ação política eficaz, participativa e conscientizadora. Conquistamos o direito de votar, o pluralismo partidário, a liberdade política. Falta-nos ainda a libertação da dependência dos impérios controladores da economia mundial e do mercado globalizado. Economia modernizada não significa progresso social, mas concentração de renda. O desenvolvimento que não é humanitário e social é um atraso para o mundo. Que a política liberte os fracos e os pobres da exclusão.
  4. O amor. Que vem a ser o amor político? É o mesmo que amor pelos pobres, pelo bem comum, pelos direitos humanos. Trata-se do amor social, que luta pela mudança das estruturas injustas e desumanas. É o amor social que nos impele a não abdicar dos direitos e dos deveres de participar na política. O que fere o amor político é a corrupção, a ambição, a idolatria do poder, os interesses pessoais, a falta de ética e de espírito solidário. Amor político significa trabalhar em favor da dignidade das pessoas e dos direitos da comunidade. Isso só é possível se a política estiver impregnada de um ‘‘espírito de serviço’’, ao lado da necessária competência, eficiência e transparência.
  O amor político não admite o jogo da deslealdade, mentiras, clientelismos, desvios de verbas, uso de meios ilícitos para a conquista do poder. Não é fácil ser um político fiel ao amor político, mas é possível. Precisamos apoiar e colaborar com nossos candidatos para que defendam, sustentem e promovam o amor político que é a solidariedade. Onde há solidariedade haverá paz.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Reformar é preciso

Paulo César de Souza
  Estamos a um mês de novas eleições para presidente da República, senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais. Se não vingar a fraude de uma Constituinte paralela proposta pelo presidente Lula aos escolhidos pelo povo, para ‘‘venezuelar’’ o país e lhe assegurar um terceiro mandato, o ‘‘novo’’ Congresso Nacional eleito terá a responsabilidade de fazer várias reformas, apesar de os candidatos não terem coragem de falar abertamente sobre quais reformas farão e em que termos.
  A reforma da educação deveria ser a primeira, pois os governantes precisam entender que é na educação que está a base e o entendimento das demais reformas. Uma reforma que devolva qualidade ao ensino público e que determine a permanência das crianças na escola.
  A reforma do judiciário é urgente. A que foi feita resultou em mais burocracia e mais custos. A Procuradoria Geral da República, o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça devem ser independentes e não extensões do Palácio do Planalto, com líderes do governo nos seus plenários.
  A reforma do sistema carcerário se impõe. Um preso não pode ser um ônus para a nação.
  A reforma tributária e fiscal deve ser feita não para desonerar os caloteiros, não para dar mais dinheiro para financiar máquinas corruptas de estados e municípios, mas para favorecer os que investem, geram empregos, riqueza e desenvolvimento. O Banco Central deve ser independente.
  A reforma política deve ser radical. Devemos reduzir o tamanho do Senado e da Câmara. Por conseqüência, assembléias e câmaras. Reduzir brutalmente o custo dos assessores e verbas. Devem ser extintos os municípios cuja receita própria, sem as transferências dos Tesouros Estadual e Federal, não cobre suas despesas.
  A reforma da saúde se impõe, não porque falte dinheiro, médicos, paramédicos, medicamentos, leitos, etc. Sobram. Ou temos uma saúde pública séria, correta, profissionalizada, administrada com seriedade ou temos uma saúde privada, complementar, mas que opere com respeito ao doente e aos cofres públicos. E a reforma da Previdência Social? Já fizeram duas, em nome do déficit, e nada deu certo. Só tiraram direitos dos trabalhadores.
PAULO CÉSAR DE SOUZA é vice-presidente da Associação Nacional dos Servidores da Previdência Social em Brasília


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