ESPAÇO ABERTO
Vamos escrever nosso próprio rumo
Fabíola de Fátima Munhoz Ferreira
As eleições parecem um grande concurso de histórias fantásticas. Como sempre, quanto mais inacreditavelmente belo é o futuro pintado por um candidato, maior é a facilidade com que ele cai no gosto da população habituada a se proteger da falta de consciência cidadã atrás de grandes ilusões. Porém, hoje, embora as ladainhas contidas em projetos políticos se repitam com diferentes versões, predomina a falta de crença na possibilidade de um final feliz para qualquer mandato.
Viu-se que só ganha essa disputa quem conta mais dinheiro ou anedotas tendo como principal personagem o povo brasileiro. Os oportunistas do poder tratam os votantes como criancinhas que se podem enganar com contos, sejam esses de réis ou de fadas. Afinal, sabe-se que as mudanças não se fazem num passe de mágica e exigem tempo e colaboração de toda a sociedade para surtirem efeitos produtivos. Isso, falando-se da dificuldade a ser enfrentada na implantação das melhorias mínimas. Para a situação calamitosa de miséria e violência presenciadas atualmente no Brasil, o governante eleito deve ter o trabalho triplicado.
Não é estranho que alguém se diga capaz de sozinho, em quatro anos, reverter estragos sociais realizados cumulativamente ao longo de décadas? Penso que já ouvimos histórias mirabolantes demais, inclusive, com figuras que chegam a ser quase mitológicas, tais como os monstros do PCC ou a gangue dos mensaleiros e sanguessugas. Usemos, então, esse arsenal de fantasia que nos foi dado para mostrarmos, no próximo pleito, termos crescido o bastante para não mais crer na existência de super-heróis.
Antes houvesse uma campanha eleitoral que, sem romancear a realidade, afirmasse o fato de o tão almejado bem comum continuar impraticável, enquanto não for tomado como responsabilidade de todos. É hora de o povo sair da postura de ouvinte da narrativa do país das maravilhas e escrever seu próprio rumo. E, para sair da posição cômoda de tão-somente esperar pelo fim desastroso de discursos fundados em milagres paternalistas, só há um começo, o voto.
FABÍOLA DE FÁTIMA MUNHOZ FERREIRA é estudante de Direito na Universidade Estadual de Londrina e membro do núcleo de direito à educação e à cultura da ONG Vida Digna
Crise ética
Antônio Celso Mendes
A crise ética que estamos atravessando e que afeta toda a humanidade, resulta da falência múltipla de seus fundamentos tradicionais, na medida em que são contestados e relativizados pelo incremento da cultura e pelo aparecimento de novos mecanismos sofisticados de ação. Para a humanidade, sem dúvida, o primeiro fundamento da moralidade foi o medo do castigo dos deuses, concebido como força inibidora de atos ofensivos. Ora, enquanto essa crença foi dominante, pôde a humanidade auto-regular-se com relativa eficácia.
Outro condicionante importante dos atos humanos foi concebido em termos de racionalidade (Aristóteles) e de saber virtuoso (Sócrates), como fatores necessários e suficientes para impedir que o ser humano cometesse desvarios éticos. Ora, não nos parece que a eliminação da ignorância individual ou coletiva sejam fatores preponderantes de inibição à prática de atos imorais.
A partir dessa constatação, nos propõe Kant uma ética metodológica, segundo a qual nosso comportamento ético tem por fundamento um princípio convincente de escolha (imperativo categórico), como se agindo moralmente, todos seriam beneficiados. Ora, a ética kantiana é uma mistura de racionalismo e utilitarismo indiferenciados, o que a torna bastante genérica e de pouca eficácia nas decisões.
A ética diz respeito a algo individual, ao aqui e agora de nossas intenções, no aqui e agora de nossas escolhas. Por isso, ela deve se basear numa convicção pessoal de valores a serem implementados, em benefício próprio, mas, ao mesmo tempo, coletivo, no sentido de ser a ética algo essencialmente voluntário.
Pois tais convicções devem ser concebidas não como exigências genéricas a serem concretizadas, mas sim como atitudes e decisões que trarão benefícios imediatos para a minha pessoa e, concomitantemente, para a coletividade. Assim, o maior beneficiário do ato moral serei eu mesmo, pois haverei de colher em dobro tudo o que de bom puder proporcionar ao meu semelhante ou como reza a regra de ouro (não fazer aos outros aquilo que não queiras que te façam!)
Por outro lado, é necessário esclarecer que tais comportamentos só terão lugar numa coletividade preparada na forma de considerar as relações entre os bens individuais e os coletivos, a precedência destes sobre aqueles, como condição imprescindível para que eu possa obter eficácia em minha procura dos bens. O que está em questão é a ganância desenfreada para o enriquecimento à custa do prejuízo causado aos outros, anulando as vantagens que poderiam oferecer a justiça distributiva patrocinada pelas atividades coletivas.
Nossa cultura deformada não tem respeito pelos bens coletivos, daí a nossa falência em termos de moralidade coletiva. Sem o preparo da população para esta grandeza de espírito, que faz uma sociedade feliz e integrada, jamais conseguiremos afastar as nódoas que envergonham nosso comportamento como sociedade organizada. É preciso deixar claro que todos os prejudicados ou beneficiários pelo que acontece serão as pessoas e a coletividade, cada um colhendo o bem ou o mal que a si próprios destinarem. Chega de indiferentismo ético, patrocinado por um falso princípio de tolerância e contumaz indiferença com o que acontece com o bem público.
ANTÔNIO CELSO MENDES é professor da Pontifícia Universidade Católica do Parará em Curitiba
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