Crise combina com sexo?

Moacir Costa

Desemprego ou dinheiro curto no final do mês, contas atrasadas, dúvidas sobre o futuro - nenhuma esperança de que algum dia chegará essa tal de qualidade de vida. Tudo parece tão complicado que o diagnóstico geral é: insolúvel. Com aquele gosto amargo de quem bate na rocha, no fim do túnel. Sem uma réstiazinha de luz que seja. Prato feito para que se instale a angústia e a depressão, com evidentes e negativas consequências para a sexualidade. Exemplo: alguém que já não espera mais encontrar uma colocação no mercado de trabalho, depois de um ano de desemprego e inúmeras tentativas frustradas. Perde a garra, a capacidade de luta e de confrontação.

Quem vive em tristes circunstâncias sabe como aos poucos o riso é apenas uma lembrança do passado, o rosto está sempre com aquele ar sombrio e a mente não pára de gerar pensamentos sobre as tantas desgraças. Terreno fértil para o estresse, que provoca intensa liberação de adrenalina, verdadeiro veneno para o organismo, capaz de levar a doenças como a hipertensão, o pânico e outros sintomas. Para a mulher, pode também gerar desinteresse por sexo, enquanto o homem provavelmente terá episódios de ejaculação rápida e, até mesmo, falha de ereção.

O desejo sexual desaparece ou vira um grande problema, porque não existe mais ânimo para brincadeiras, nem clima de sedução. Tudo que era gostoso e espontâneo na relação amorosa deixa de existir. Nunca mais ternura e carinho. Beijo na boca, nem pensar. Banho juntinho, que bobagem! O sexo vira tormento, tanto por medo de falhar, como por falta de desejo. Mesmo a eficácia dos medicamentos de última geração para disfunção erétil (Viagra, Levitra e o mais moderno Cialis) depende de estímulos.

Como, então, lidar com tantos complicadores? A palavra mágica é sensibilidade. O ingrediente imprescindível: boa conversa. Não importa quem está com estresse ou entregue ao desânimo e à falta de perspectiva, o remédio é essa mescla imbatível. Olhar para o outro com amor e vontade de fazer o melhor para que se recomponha. Uma mulher estressada espera que tenham paciência para ouvi-la. Mas, não raro, o que ela anseia é, justamente, atenção e olho no olho. Cuidado, carinho e um pouco de colo. Já o homem que vive problemas e se estressa ao máximo, muitas vezes se sente desqualificado quando não pode oferecer à família o que gostaria. Humilhado, tende a se esconder na casca, como uma ostra. E se falhou, na cama, pior ainda.

Ele também precisa de carinho e, sobretudo, de estímulo. Até mesmo se sempre foi um executivo muito bem pago e cheio de privilégios e depois perdeu tudo isso. Pode dar a volta por cima, porém a ajuda de seus entes mais queridos - familiares e amigos - é fundamental para a virada. Ambos, mulheres e homens, que passam por maus momentos têm toda a chance de recuperar a esperança e o amor próprio, quando profundamente compreendidos e amados. Esse é o grande milagre ao alcance de cada um de nós. Sim, o sexo é possível em tempos de crise. Pode ser a grande oportunidade para a redescoberta do enamoramento.

MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo




Língua estrangeira e língua global

Telma Gimenez

Desde o tempo em que estávamos sob o jugo português o ensino de línguas estrangeiras no Brasil vem passando por transformações. De uma época em que servia a uma classe dominante (que precisava estudar no exterior ou circular pelos salões europeus com desenvoltura) até chegar aos nossos dias, em que seu aprendizado tem sido frequentemente equacionado com a língua inglesa, foram muitas as mudanças sociais. Durante o Império e mesmo durante o início da República, aprender língua estrangeira era algo reservado à minoria. As línguas clássicas e européias modernas eram privilegiadas em um currículo voltado para o desenvolvimento cultural e humanístico.

Com o processo de industrialização do país e a democratização da escola, os objetivos de aprendizado da língua estrangeira passaram a se voltar para questões mais instrumentais. A sociedade passou a valorizar seu aprendizado como forma de aumentar o capital simbólico no mercado de trabalho. A legislação, contudo, não acompanhou esses desenvolvimentos e previa que a comunidade escolar deveria escolher qual língua estrangeira ensinar. O francês deu lugar ao inglês na década de 70, acompanhando a tendência do país em alinhar-se culturalmente aos Estados Unidos no pós-guerra.

Começava aí se desatrelar o ensino da língua estrangeira a uma função de enriquecimento cultural e iniciava-se um processo de crescente interesse em tornar seu aprendizado mais imediato e voltado para situações de comunicação específicas, em função das demandas trazidas pelos processos de internacionalização da economia. Florescem as escolas de línguas particulares diante do fracasso da escola regular em cumprir esses objetivos. Os professores se vêem então diante de vários dilemas: ter objetivos restritos à leitura ou ensinar todas as habilidades (ler, ouvir, falar, escrever) apesar do número de alunos em sala e da falta de recursos; desenvolver a capacidade linguística dos alunos ou sua consciência crítica sobre o valor das línguas na sociedade; ensinar a língua para enriquecimento cultural ou para o mercado de trabalho.

Para tentar resolver essas questões as autoridades educacionais a cada década divulgam orientações curriculares sem que, contudo, os professores consigam conciliar os objetivos ali expressos segundo tradição acadêmica e os anseios de alunos que querem a língua para entender o mundo ''pop'' ou os de seus pais que gostariam de melhorar a empregabilidade futura de seus filhos. A língua inglesa aparece então equacionada com língua estrangeira quando, na verdade, tem status de língua global. Este reconhecimento implica em mudanças curriculares, metodológicas e de avaliação. Requer ainda que as autoridades educacionais assumam seu ensino como parte do projeto de desenvolvimento da nação.

TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina

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