ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de agosto de 2006
- O soldado Borges e o sargento Macedo<br>-Pai, o melhor aliado 
O soldado Borges e o sargento Macedo
Maria Elisa Ferraz Paciornik
Infelizmente, a Polícia Militar do Paraná só aparece na mídia quando alguma coisa dá errado: ou não prendeu o bandido, ou era o próprio bandido, ou matou o bandido. Neste último caso, então, vira manchete, aparece a foto do bandido, da família do bandido e todas as associações de Direitos Humanos, cobrando do Estado proteção e arrimo para a família desamparada.
Quando um membro da PM age erradamente, como vimos há poucos dias, eles são imediata e severamente punidos. Podem reparar, se a imprensa noticiar. Por força de minha profissão, fui algumas vezes atendida pela nossa PM: com respeito, eficiência e profissionalismo.
Também acompanhei muitas operações da Polícia Militar. Eles também morrem, assassinados por bandidos e suas famílias também ficam desamparadas, só que não aparece na mídia e nem aparecem as associações de direitos humanos para fazer qualquer reivindicação para a família do soldado morto. As muitas vidas que salvaram, a segurança que nos trouxeram, as operações realizadas com êxito, nada disto vem ao conhecimento da comunidade: não é notícia.
No final de semana passado, estive em Porto Rico, lá na curva do Paranazão, na fronteira com o Mato Grosso do Sul, atendendo a um convite do soldado Borges: ele mantém em um trabalho voluntário e persistente há 6 anos, com apoio de seu superior, o sargento Macedo, um programa de prevenção de acidentes no trânsito. Começou trabalhando com uma escola. Hoje já são 32 escolas. Começou com uma palestra, hoje já fez apostilas e filmes em vídeo abordando a segurança, a questão da bebida, das drogas e da imprudência nas estradas.
Ele faz o roteiro, ele dirige, ele divulga nas escolas, ele presta anonimamente um serviço da maior importância à comunidade local. Seu superior arranjou para ele um computador com mais recursos e toda a corporação ajuda como pode.
Como paranaense, fiquei orgulhosa dos meus conterrâneos. Fiquei orgulhosa da corporação, da Polícia Militar do Paraná. Como em qualquer outro grupo de trabalho, há maus elementos, mas há brasileiros de boa-fé e de iniciativa, como o soldado Borges e o sargento Macedo. Ainda bem.
Com as notícias que temos lido ultimamente na imprensa, de corrupção, de roubo, de falta de vergonha, conforta saber que podemos ainda, contar com pessoas de bem, como o soldado Borges e o sargento Macedo. Não dá para desacreditar do povo brasileiro.
MARIA ELISA FERRAZ PACIORNIK é empresária em Curitiba e presidente da Associação dos Amigos do Hospital de Clínicas
Pai, o melhor aliado
Moacir Costa
Desde sempre, o pai é uma figura importante no contexto da família. Antigamente, porém, sua imagem - elaborada pela própria mulher - era a de provedor, o que detém poder e, de fato, exerce seu domínio. Guindado a esse lugar de difícil acesso, ele não manifestava sentimentos, nem se permitia viver descontraidamente, mesmo no recesso do lar. Afinal, o período adulto começava muito cedo e de maneira confusa. O próprio casamento costumava ser, para o gênero masculino, um investimento social, diferente do objetivo da mulher, que valorizava mais a construção do ninho.
Nada de conversas mais íntimas e, muito menos, gestos explícitos de carinho. Claro, havia exceções, mas dificilmente com algum sinal à superfície. Boa parte dos pais até confundia respeito com temor. A própria realidade os conduzia a isso, pois era comum as mães dizerem às crianças: ''espere só seu pai chegar!'', na esperança de obter obediência com guarda-chuva alheio.
Criatura ausente, o pai era omisso em matéria de formação das crianças, uma tarefa delegada inteiramente à mãe. Perdia todas as oportunidades de vivenciar essa conquista que é compartilhar com os filhos incertezas, inseguranças e vitórias. Quando muito, se fazia presente em eventos tensos e de conflito, como uma gravidez indesejada ou crises na escola. Sem nenhum laço de intimidade com as criaturas que ele mesmo gerara, sua interferência geralmente agravava o quadro.
A distância fazia com que ele tivesse uma atitude mais rígida, disciplinadora, e de impor limites nem sempre razoáveis. Era o durão, a quem sempre cabia a última palavra. Nem sempre a mais justa ou sábia. Isso vem mudando bastante, a partir da emancipação da mulher, nos últimos 20 anos. O gerúndio, neste caso, é fundamental, porque o processo ainda está em curso. Não terminou. Aos poucos, o marido deixa de ser o provedor exclusivo e divide com a companheira - que também tem atribuições profissionais - as tarefas de casa e o cuidado com a prole.
Esse novo homem usa tanto a inteligência como a sensibilidade - que aos poucos desenvolve, já que às gerações passadas foi algo praticamente proibido -, abdicando do triste papel autoritário. Aprende a conversar de maneira mais franca. A proximidade contribui de maneira decisiva para incentivar manifestações de afeto com maior contato físico. Ele se permite acarinhar, dar abraços e beijos nas crianças, que por sua vez também aprendem a importância desses gestos fundamentais. E passam a replicá-los com, muita naturalidade.
Participe mais da vida dos filhos, e não apenas com interesses pontuais, como o aproveitamento escolar, mas sobretudo conviva com os amigos deles e abra um canal direto para o diálogo sobre questões próprias de cada faixa etária, inclusive as escolhas amorosas e as dúvidas no delicado terreno da sexualidade. Graças a essa convivência, acredite, você também reduzirá suas próprias angústias. Terá certeza de ser mais admirado e valorizado pelos que lhe são mais caros, o que é um bálsamo para a auto-estima. Terreno fértil, portanto, para o crescimento e permanência da felicidade, fruto abençoado de que o considerem, com justa razão, um pai amigo.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo


