Sexo, culpa e televisão

Walter Barbosa Bittar
  São cada vez mais comuns as manifestações contra o governo, quer pelos escândalos de corrupção, quer pela total incompetência administrativa, um rol imenso de críticas, em regra, inatacáveis.
  Contudo, em que pese não ser possível a defesa convincente das autoridades públicas, estas não são as únicas culpadas (tampouco esse texto busca isentá-las), restando ao cidadão comum uma parcela considerável de responsabilidade, pois não cabe apenas a quem governa a responsabilidade por todas as mazelas que atingem o corpo social.
  Um exemplo, cada vez mais evidente, é a absoluta inércia das famílias brasileiras contra o descalabro diário de sensualidade (com cenas de sexo explícito em plena luz do dia) produzida pela outrora gloriosa arte televisiva nacional, hoje focada na criação de novas e, cada vez mais ousadas, cenas de sexo, cujos efeitos sociais calamitosos já há muito se percebe.
  Surpreende também a postura do meio artístico em estranhar a inversão de valores, demonstrada pelo espectador que, atualmente, admite a traição, o sexo casual, as fraudes, como situações admissíveis, sem perceber que as novelas hoje são as principais incentivadoras da promiscuidade sexual e moral que grassam na vida cotidiana, sem esquecer das propagandas que parecem muito mais vender sexo fácil, seios e nádegas do que o produto em si.
  Esta realidade de incentivo à promiscuidade e do sexo casual, e suas conseqüências funestas, já podem ser vistas ante os dados recentes, colhidos pelo Ministério da Saúde, informando que nascem no país cerca de 485 mil crianças por ano filhas de mães com menos de 19 anos (quase 300 mil - ou 10% do número de nascimentos - teriam pai na mesma faixa etária), todas, com honrosas exceções, despreparadas para educar e sustentar uma família.
  Infelizmente, a sociedade permissiva que hoje se constrói, vem recebendo incentivo implícito (ou seria explícito?) dos próprios pais dos adolescentes, que nada fizeram para conter a onda de sensualidade que entra em suas casas via televisão. Culpa do governo? E você por acaso se preocupa com o conteúdo do que entra em sua casa?
WALTER BARBOSA BITTAR é advogado e professor de Direito Penal da PUC em Londrina


Um manifesto pela vida

Célia Musilli
  A decisão está tomada, mas não elimina o impasse. De um lado, os defensores dos pombos não se conformam com a matança anunciada da espécie que ‘‘ameaça’’ os cidadãos e invocam o direito animal de crescer e se multiplicar. De outro, os enfurecidos parecem repetir em coro: matem! matem! O que poucos sabem, ou fingem que não saber, é que o desequilíbrio ecológico causado pelo bicho-homem é responsável por este excesso de população que faz vôo rasante sobre as nossas cabeças, causando mal-estar devido à sujeira que impregna ruas, carros e cidadãos. O que poucos sabem é que há estudos que demonstram que a exterminação em massa pode acelerar o acasalamento das aves e que um dos modos de evitar o aumento exagerado da sua população é suprimir a comida, coisa difícil de se conseguir numa cidade cercada de plantações, que tem grãos armazenados nos silos e sobras de comida nas lixeiras. Na Europa, o controle é feito também com anticoncepcionais.
  Avessa a sentenças de morte contra qualquer criatura, saio em defesa da humilde pombinha-amargosa, esta criatura que faz ninhos no meu quintal, sem saber que seu destino está selado em reuniões onde se discute o futuro das aves. Transformados da noite para o dia em vilões da saúde pública, os pombos poderão ser exterminados em massa e, antes mesmo da decisão final, discutiam-se os métodos de controle. Seria pela caça a tiro? Pelas armadilhas? Será em câmaras de gás.
  Ensandecidos com o espectro da gripe aviária, não faltam os que acusam os pombos de serem transmissores de doenças, como se outros portadores não fossem sobreviver pondo em risco nossa saúde com vírus de qualquer espécie. Os pombos, agora tidos como ameaça urbana, reproduziram-se de maneira espantosa desde que seu predador natural, o gavião, perdeu as matas para os grandes campos de soja. Bem alimentados e sem vilões à espreita, os pombos se proliferam ao ponto de incomodar as populações e hoje mobilizam os coros: matem! matem!, como se deles fosse a culpa de crescer e se multiplicar no ambiente vilipendiado pelo homem. E no meio desta discussão, nem se cogita a idéia de promover a volta ao equilíbrio natural, devolvendo aos gaviões um pouco da matas que são seu reino por direito.
  Se continuarmos matando espécies a cada desequilíbrio provocado pela ganância humana, atravessaremos o século 21 caçando pombos, depois quem sabe as garças, as andorinhas, as corujas e os bem-te-vis. Por último, vamos empreender uma grande caçada aos beija-flores certos de que assim ficaremos livres da sua doença e da sua doçura. Logo nós, que não suportamos a beleza. Logo nós que somos incuráveis doentes a disseminar o ‘‘progresso’’ derrubando matas, exterminando ninhos, incendiando árvores e tudo aquilo que julgamos abaixo da nossa privilegiada condição humana. Desequilíbrio gera desequilíbrio. Disso sabia a mãe-natureza quando criou as espécies e seus predadores. A Terra está fora do eixo, senhores, e nenhum extermínio vai recolocá-la no lugar se não lançarmos um olhar para os erros do passado para desenhar o futuro onde haverá, enfim, um plebiscito pela vida.
CÉLIA MUSILLI é jornalista e Editora da Folha2


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup