O que estão fazendo com o Brasil?

Ana Lúcia Pereira Baccon
  Sempre pensei que o maior problema do Brasil fosse a pobreza, a má distribuição de renda, mas infelizmente não é. Os últimos acontecimentos políticos (mensalões e sanguessugas) mostram que o maior problema do Brasil é a corrupção. Como educadora, muitas vezes, a gente se sente ‘‘um palhaço’’ porque sonha e acredita com um mundo melhor porque acredita na semente que se planta hoje quando se olha para o rostinho de cada criança ou adolescente.
  É essa sensação que venho sentindo ultimamente. Parece que tudo nesse país gira em torno do próprio umbigo, em torno de si mesmo, do interesse próprio. Elegemos nossos representantes, seja em nível municipal, estadual ou federal, depositando neles o nosso voto, a nossa confiança, a nossa esperança. No entanto, a grande maioria, quando assume o poder, parece que rapidamente esquece o que prometeu e entra nesse vício de olhar só para si mesmo. É triste, porque dos nossos representantes eleitos, esperamos muito mais do que palavras, esperamos ações, comprometimento, participação. Penso que cada representante eleito deveria honrar cada voto recebido, lembrando sempre do compromisso assumido.
  O que está faltando, então, para que isso ocorra no Brasil? Para quem olha do lado de cá, parece que não é tão difícil assim. Parece que o que está faltando é ‘‘amor’’, é gostar do lugar onde mora, é acreditar na força de um povo e acima de tudo é preciso acreditar na mudança. Um dos fatores mais importantes nessa mudança é olhar para cada cidadão e vê-lo como ‘‘ser’’ humano e não como um número, um eleitor. Chegamos num ponto, em que ser um represente político no Brasil é vergonhoso, não é para qualquer um. Muita gente capaz, honesta, lutadora, sonhadora acaba se afastando porque a impressão que se dá é que nesse campo não há espaço para gente assim. Se não houver uma mudança de consciência política em cada cidadão, demonstrando que participar é preciso, que falar é preciso e enquanto cada um não fizer a sua parte o Brasil que a gente sonha jamais será construído. Um Brasil onde o ser humano é valorizado acima de qualquer interesse próprio, onde se faz o bem não importando a quem, sem pensar na próxima eleição.
  Às vezes, me pergunto se sou eu contra o mundo ou se é o mundo contra mim. Tenho a sensação de estar andando na contramão, mas acredito que não sou a única que junto comigo existem muitos que sonham e que acreditam que esse país tem jeito, que o Brasil que a gente ama ainda será visto e vivido como um país de mãos e idéias limpas.
ANA LÚCIA PEREIRA BACCON é presidente da APP-Sindicato em Jacarezinho



A indicação de Dunga

Wilton Carlos de Santana
  Li na ‘‘Folha de Londrina’’ (9/8) que o jornalista Juca Kfouri reputa a indicação de Dunga à estratégia de marketing da CBF. Concordo. A confederação é uma ótima agência de marketing. O produto Dunga nem estreou e a maior parte da população acha que ele, sem ser técnico, é bom técnico. Tostão (‘‘Folha de S. Paulo’’, 30/7) disse que a convocação do ex-jogador representa um desprestígio para os técnicos de futebol em geral. Por tudo o que escreveu e falou nos últimos anos, Tostão bem que poderia ser o técnico da seleção. Mas Tostão não aceitaria, jamais, ser produto de marketing da CBF. Se chamado indicaria um técnico e passaria um ‘‘pito’’ no presidente Ricardo Teixeira.
  O expediente de colocar um ex-jogador de sucesso para dirigir a seleção não é novidade. Há 16 anos Teixeira indicou Falcão, um craque notável. Como técnico Falcão durou 10 meses e convocou Cafu, Marcio Santos e Mauro Silva. Dunga, além de garoto-propaganda, virará comentarista da Rede Globo.
  Vi no capitão do tetra virtudes enquanto jogador. Sobretudo físicas e emocionais. Soube transformar a pecha de ‘‘brucutu’’ em símbolo de garra e determinação. Mas, entre outras, jogou nas seleções de Lazaroni e na de Parreira, respectivamente, a pior e a mais burocrática que vi jogar. Dunga contribuiu muito para isso. Preferiria não tê-lo visto jogar. Preferiria que Telê tivesse dirigido todas as seleções brasileiras. Comove-me o futebol com estética. Isso não exclui competitividade. É preciso treinar muito para se jogar de forma refinada, abrasileirada. É muito mais difícil jogar bonito e vencer do que vencer jogando feio.
  Mas Dunga é o técnico da seleção. E torcerei por esta. Sempre. Isso não significa que eu o quisesse na seleção. Preferia um técnico. Penso que Dunga será tanto mais bem-sucedido quanto mais se afastar das idéias de Parreira; dos patrocinadores de Parreira; da falsa intelectualidade de Parreira; dos livros de Parreira; da comissão técnica de Parreira; de uma parte dos jogadores de Parreira.
  Veremos uma seleção à imagem de Dunga? É possível. Demorará um pouco para entendermos a dedicação dos nossos jogadores, pois Parreira nos desacostumou. E quanto a vermos uma seleção vistosa, boa para os olhos e para a alma? Isso será mais difícil, ainda que Dunga afirme (revista ‘‘Veja’’, 9/8) que a seleção ideal seria um misto dele próprio e Romário, da seleção de 82 com a de 94. Ora, essa comparação é uma distorção! Melhor seria um misto entre Falcão e Romário. Dunga sequer seria convocado por Telê. O ‘‘mestre’’ levaria Taffarel, Bebeto e Romário e os colocaria ao lado de Leandro, Junior, Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico.
WILTON CARLOS DE SANTANA é professor de futebol do curso de Educação Física da Universidade Norte do Paraná (Unopar)



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