O vendedor de Apucarana

Igarassu Louzada
  Estive na cidade de Apucarana no último dia 27 julho. Estava no interior de uma loja, quando chegou um homem com séria dificuldade motora e de fala, um claro problema neurológico que lhe impunha um tremor constante nas mãos. Carregava uma bolsa (grande) com mercadorias que estava oferecendo. Foi, para mim, um impacto pois, como este homem, tão limitado, não estava pedindo nada?
  Estava, sim, oferecendo algo em troca de reais, necessários à sua subsistência. Aquele momento me levou à reflexão. Como é possível alguém se colocar, com dignidade, acima de tantas limitações, trabalhando? Exemplo para aqueles que se deixam abater ante as dificuldades e que se fazem de vítimas para viver da ajuda e, às vezes, da caridade alheia.
  Quantos são os que se acovardam diante de reveses e que por isso não conseguem se reerguer?
  Está neste vendedor de panos de prato, um exemplo a seguir. Podemos perder uma batalha mas isso não representa perder a guerra. Perder é normal mas, fugir da luta é, no mínimo, covardia. Muitas são as contendas a que somos submetidos, mas só vencem ou perdem os que lutam.
  Esse vendedor está vencendo as batalhas e vai ganhar a guerra! Senhor vendedor de panos de prato, eu me curvo diante da sua grandeza e agradeço a Deus o momento que me colocou frente a frente com um homem tão grande.
  Grande na sua postura, grande na sua dignidade, grande diante de suas limitações, que não são poucas. Você é um exemplo de coragem, exemplo de vida que a mim, aos 82 anos, mostrou que só valemos pelo que somos e, que só somos quando, como você, participamos.
  Você não olha vida, você participa dela! Você não pesa à sociedade porque você ajuda a construí-la com seu trabalho, com seu exemplo. Quisera eu que todas as pessoas fossem assim - entre todas as pessoas eu, também.
  Mais uma vez me curvo diante da figura de dignidade, auto-estima e de seu destemor diante das dificuldades que a vida lhe impõe. Não sei o seu nome, mas sei que você é um homem!
IGARASSU LOUZADA é empresário aposentado em Londrina


O prontuário cubano

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  Desde a última semana, paira o mistério sobre o estado vital de Fidel Castro. O curioso é que a saúde do ditador é também a saúde de Cuba, o que leva a se questionar o futuro da população daquela ilha.
  Fidel seria comparável à àgua: está presente em todos os compartimentos do organismo (setores do Estado), sendo, com isso, essencial para o pleno funcionamento dos órgãos (tanto os órgãos compostos de células, no caso da metáfora, quanto aqueles formados por pessoas). Sem o ditador, se perderia um elemento importante para a sobrevivência de Cuba, visto que os ideais de revolução e de liberdade preconizados por Castro estão há tempo arraigados no ideário popular.
  E se fosse possível substituir a àgua por algo similar? Alguém como Raul Castro? Poderia dar certa esta troca, mas levaria tempo para que o povo se acostumasse com a mudança e se interessasse pelo seu carisma. No entanto, as vozes de oposição na ilha poderiam se fortalecer e exigir que o novo líder apresentasse uma ideologia mais consistente com a realidade da globalização e dos direitos humanos. Seria uma abertura ao mundo, como fizera a China no governo de Deng Xiaoping, ou o início de uma guerra civil e a oportunidade de a águia americana abocanhar, finalmente, sua presa vermelha?
  E se a possível morte de Fidel se concretizar, como as conquistas do regime, como educação e saúde de qualidade, permaneceriam caso o país se tornasse democrático? Os cubanos exilados em Miami, ao retornarem, não poderiam se tornar a nova elite do poder? E como seria a tão falada democracia que a Casa Branca tanto defende para a ilha comunista? Percebe-se que a questão não é muito simples. Mudanças radicais poderiam desestabilizar a ilha, bem como haveria a possibilidade de tudo acabar ficando do mesmo jeito (alterando apenas os protagonistas no poder). A mudança na política cubana, tanto com relação ao unipartidarismo, quanto referente à estagnação econômica, é, talvez, o anseio de uma parte da população de Cuba. A questão é que, principalmente, os Estados Unidos não estão envolvidos com essa necessidade de que os cidadãos cubanos, seja os que pertencem ao partido comunista, seja os que tentam sobreviver com seus ‘‘bicos’’, possam participar do processo de transição para a democracia. E é por isso que a nação americana não é tentadora para alguns cubanos, já que tal processo se assemelharia a uma tentativa de colonização da ilha.
  De fato, é difícil emitir um prognóstico sobre a saúde de Cuba. Para as futuras gerações, no entanto, essa situação poderia ser importante pelas duas lições que ela deixa. A primeira, seria que romper com ideologias dominantes é o passo para a abertura de uma visão de mundo mais crítica e livre dos interesses de quem está no poder (no caso, para os governos ianque e cubano). A segunda lição diz respeito à busca pelo sonho e como ele se torna realidade (e isso é referente tanto ao cubano na época pré-Guevara, quanto ao americano na era pré-independência). Realmente, a profilaxia para a saúde acaba sendo muito importante para o seu prognóstico.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina


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