A sucessão na Arquidiocese de Londrina

Rubens Chiaroti
  Dizem que depois da tempestade vem a bonança, o que pode levar a supor que a recíproca seja verdadeira. Parece desatino lembrar o provérbio num comentário à sucessão na Arquidiocese de Londrina, mas, falando sério, a comparação me ocorreu sim, mas não no sentido literal. O nosso amado dom Albano foi pastor de fala mansa; não queria assustar suas ovelhas. E as acariciava com historinhas, impregnando seu espírito de belas imagens. A exemplo de Jesus, suas parábolas modernas transmitiam com carinho a boa nova: o Evangelho que ele ama acima de tudo. A sua maneira de ser -voz e gestual - lembram-me dias claros de sol, em que o verde das árvores é mais intenso e se ouve o murmúrio de regatos. Imagem de bonança, se me permitem.
  Tudo bem, dirão, mas acaso dom Orlando lembra uma tempestade? Oh! Não! Mas se alguém teve a oportunidade de apreciar, protegido numa varanda, a força da natureza que explode numa tempestade de verão, entenderá. Nalguns salmos, aliás, raios e trovões eram tidos como manifestações da ira de Deus. Ou pelo menos de sua impaciência diante dos crimes dos homens. Quem assistiu à magnífica cerimônia de posse do novo arcebispo, entenderá aonde quero chegar. A voz suave do antigo pastor sucedeu outra, de timbre altissonante, qual trovão num céu azul. Mas, de uma forma inconfundivelmente clara, é também mensageira da paz.
  Deus não estaria impaciente conosco, depois de 14 anos falando de paz num tom brando como brisa de manhã primaveril? Ninguém ouviu! Para nós era apenas nosso bom d. Albano. Pois Ele volta a falar agora, mas mudou o tom. Oxalá a cidade ouça essa voz de trovão! Como missão, dom Orlando se propõe unir forças para transformar uma Londrina violenta na Capital da Paz, a nova Jerusalém profetizada por Isaías: ‘‘Ó aflita, batida de tempestades, desconsolada... grande será a paz de teus filhos. Serás edificada sobre a Justiça - livre da opressão, nada terás a temer; estarás livre do terror’’ (Isaías 54, 11, 13-14).
  Mas a violência de Londrina tem raízes comuns à maioria das grandes cidades brasileiras. A paz não dependia do esforço de um único agente, mesmo santo como dom Albano. Todas as pessoas e segmentos da sociedade precisam se envolver. Dom Orlando inicia sua luta contando com a experiência inestimável do antecessor e do bispo auxiliar, Dom Lanza - forças que se somam. É preciso reconhecer que ambos os arcebispos são profetas da paz. Por isso os saudamos: ‘‘Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz...’’ (Isaías, 52, 7). Bem-vindo dom Orlando! Obrigado de coração, dom Albano! E até sempre, pois, como diz a canção, ‘‘não existe adeus entre almas que se amam de verdade’’.
RUBENS CHIAROTI é advogado licenciado em Londrina e integrante do ‘‘Equipes de Nossa Senhora’’, movimento nascido na França e presente em mais de 50 países


O real valorizado

Antonio Delfim Netto
  O setor produtivo brasileiro continua sendo penalizado pela supervalorização do real. Ela torna problemática inclusive nossa recente ‘‘vitória sobre a inflação’’, representada pela expectativa de uma taxa inferior à meta de 4,5% em 2006. Esta é, numa larga medida, resultante da ‘‘supervalorização’’ da moeda nacional obtida oportunisticamente pelo imenso diferencial entre a taxa de juros real interna e externa.
  Quando a taxa de juro real interna e externa
(mais o risco Brasil) se aproximarem, a taxa cambial vai caminhar para a de equilíbrio no balanço em conta-corrente, que reflete a oferta e procura de bens e serviços. Essa aproximação deve dar-se por uma redução importante da taxa de juro real interna. Isso acelerará o crescimento do PIB e, com ele, as importações. Para manter a competição, estimular a produtividade interna e reduzir a pressão inflacionária, a progressiva desvalorização do Real deve ser acompanhada pela aceleração das reformas microeconômicas, de uma redução tarifária e da eliminação de entraves à importação.
  O esperado crescimento do PIB deverá ser acompanhado por um rígido controle das despesas correntes do governo. O aumento de receita que ele produzirá deve ser utilizado no aumento de investimentos públicos e na acumulação de reservas. É essencial, por outro lado, uma queda da relação despesas correntes/PIB. Quando a taxa de juros interna estiver próxima da externa, com o ‘‘risco Brasil’’ ainda menor do que hoje (devido ao crescimento), o custo de acumulação das reservas será pequeno e poderá ser coberto com parte do aumento da própria receita. Com um aumento do crescimento e uma redução do juro (a dívida interna é hoje independente da taxa cambial), a necessidade de superávit primário para reduzir a relação dívida líquida/PIB será menor e o equilíbrio fiscal (desde que o problema da Previdência Social seja equacionado) será mais sólido.
  A solução das nossas dificuldades atuais exige um programa rápido de reformas microeconômicas e o fortalecimento do equilíbrio fiscal, além de uma coordenação maior e melhor entre a política monetária (que tomará alguns riscos na redução dos juros), a política fiscal (que produzirá um equilíbrio mais saudável) e a política cambial (apoiada num aumento da relação exportação + importação/PIB e sólidas reservas com baixo custo fiscal). É isso que garantirá uma substancial redução da volatilidade da taxa cambial, estimulando a competição, a produtividade e a continuidade do crescimento do PIB.
ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PMDB-SP


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