Para onde vai a esquerda?

Gaudêncio Torquato
  Há duas semanas, um deputado do PT da Bahia abordou, aos brados, o presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE), com uma provocação: ‘‘Como é que você deixa o campo da esquerda para fazer aliança com a direita’’? Freire, retrucou: ‘‘Faço aliança com quem quero, menos com ladrão’’. O bate-boca não mereceria registro, não fosse pelo fato de que revela a cegueira que turva a visão de parcela do corpo parlamentar do país. O Muro de Berlim caiu, as duas Alemanhas se unificaram e conceitos de esquerda e direita perderam o sentido clássico. Sobranceiros representantes do povo brasileiro, porém, continuam a enxergar na careca de Lenin o farol da consciência. E, pior, não se dão conta de que é extemporâneo falar em esquerda quando ondas tsunâmicas de corrupção devastam sua praia, afogando mensaleiros e sanguessugas, nivelando partidos e corroendo a imagem parlamentar.
  Onde está e para onde vai a esquerda no Brasil? É um verbete que funciona como graxa para limpar perfis corroídos. Não incorpora mais o escopo do socialismo marxista, inspirado na brilhante análise do velho Karl Marx sobre a formação do capitalismo e a previsão de sua catastrófica evolução. Driblando situações e esbarrando em contradições, a esquerda tupiniquim amalgamou-se, substituindo o socialismo revolucionário, com seu corolário maniqueísta do bem contra o mal, para ingressar no terreno fofo de uma ‘‘socialização humanizada’’. A redemocratização do país abriu espaço para vastas áreas no canto esquerdo do arco ideológico. Formava-se nova argamassa para acomodar as estacas do alquebrado socialismo revolucionário e os tijolos do liberalismo político e econômico. A essa composição se agregaram expressões como ‘‘capitalismo de face humana’’ e ‘‘socialismo de feição liberal’’, tentativa de convergir eficiência econômica com bem-estar social. O nome de tudo isso? Social-democracia.
  A formosa dama chegou ao Brasil em fins dos anos 1980, com interpretação do PSDB, cujos ideólogos escreveram um texto, ‘‘Os desafios do Brasil’’, sobre as crises da contemporaneidade, a textura da democracia social na Europa, as estratégias de crescimento e as políticas para o nosso desenvolvimento. Por tentativa e erro, nosso arremedo social-democrata entrou no terceiro milênio, ganhou o centro do poder e foi acusado de se curvar ao Consenso de Washington. De onde partia a crítica? Do PT e pequenos satélites. De tanto bater, as ‘‘esquerdas’’ alcançaram a alforria. Adentraram o Palácio do Planalto. Mas as linhas gerais da tal política neoliberal foram preservadas.
  Aí veio o mensalão. Soçobram as últimas pilastras leninistas-marxistas do PT. Sujam-se bandeiras de todos os partidos. Agora, da lama saem os sanguessugas. Que matiz de esquerda se distingue nesse lamaçal? O que se distingue é um espaço central onde as siglas vegetam. Todas elas pregam posições social-democratas como liberdade política, controle social do mercado e organização da sociedade civil. Nada disso, porém, resiste às injunções do patrimonialismo, praga que consome a lavoura partidária. Por isso, ante a pergunta sobre os rumos da esquerda, só há uma resposta: ela caminha para o centrão das conveniências. Até porque o Brasil repele as margens radicais.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, consultor político e professor da Universidade de São Paulo


Omissos ou apáticos?

Ary Chimentão
  Estamos atônitos diante da violência. Nada se faz, nada se cria. A cada dia estamos vendo manchetes sobre os incríveis acontecimentos do dia anterior, tudo para comentarmos sobre o que fazer, estancar, melhorar. Estamos diante de uma silenciosa guerra civil não-declarada - reconhecida por todos - mas em busca do capítulo do dia seguinte, da resposta nas urnas, da revanche.
  Ainda não aconteceu com você? Parabéns! Está ganhando o jogo, o de não ser assaltado. Sim, vamos continuar estáticos diante de tudo que está acontecendo. Vamos continuar a comentar as tragédias do dia anterior e continuar omissos diante de uma situação que criamos através dos tempos. Vamos sim, continuar a buscar o tudo no nada, a buscar a luz na escuridão, a água potável no esgoto. Afinal aconteceu apenas com nosso vizinho.
  Vamos senhores, dar a resposta nas urnas, sim, naquela caixinha que nada cria, nada vê, nada sente. Vamos escolher entre os já escolhidos, os grandes, os inteligentes, os mágicos que em sua maioria sabem ‘‘politicar’’, arrecadar, viver maravilhosamente bem e que estão estudando os poemas para a próxima campanha.
  Vamos acordar senhores e procurar garantir a nossos filhos o direito de dizer que participamos da história. É momento de nos unirmos, de cobrarmos daqueles a quem outorgamos poderes para legislar e gerir, de não mais aceitarmos promessas jogadas ao vento, de nos insurgirmos contra o Estado exigindo nossos direitos constitucionais, respeito em nossos lares quando são invadidos com discursos prometendo o mínimo pelo máximo que estamos contribuindo.
  Resta citarmos as últimas palavras de Martin Luther King. ‘‘O que me preocupa não é o grito dos violentos. É o silêncio dos bons’’. Momento de não aceitarmos as palavras ensaiadas, acordadas e discutidas entre quatro paredes, das alianças, dos acertos, das estratégias, das medidas eleitoreiras, mas exigirmos a verdade onde quer que esteja. Somos um país de vencedores, a democracia é válida sim, mas para o povo e não apenas para aqueles que detêm o poder. Ainda resta uma esperança, acreditarmos nos empreendedores e nos trabalhadores que, apesar de todo ‘‘sistema tributário’’, ainda heroicamente conseguem sobreviver. Leiam a Constituição! Temos nossos direitos!
ARY CHIMENTÃO é advogado em Londrina


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