Funções da família

Dom Orlando Brandes
  Estamos celebrando a Semana da Família. Pelas funções que a mesma exerce na sociedade, percebemos sua centralidade na vida humana e na organização social. Vejamos as principais funções:
  1. Função procriativa - O casal se torna família com o nascimento dos filhos. A preservação da espécie, a geração de filhos, é algo inscrito na biologia humana. Os pais se eternizam e se completam nos filhos. São colaboradores do Criador. A esterilidade é vivida como um sofrimento, uma falha da natureza. Também o aborto é um ato contra a vida humana. O exercício da paternidade depende da consciência bem formada.
  2. Função econômica - Provem da necessidade de criar os filhos e sustentar a família. Daí o direito ao salário justo para a satisfação das necessidades básicas. O trabalho e a colaboração de todos para o bem da família é um dever de pais e filhos. A desarmonia no campo econômico leva ao fracasso familiar. A conquista do pão de cada dia é ocasião de santificação da família. Quem casa quer casa.
  3. Função educativa - O útero é a primeira escola, os pais são os primeiros mestres. A família é uma escola de amor, de valores, de justiça. Disciplina e liberdade com responsabilidade, educação religiosa, ética e social são valores que cabe à família transmitir. Quem ama educa, portanto, a educação não é papel só da mãe, mas do casal. Ser pai não é ser apenas reprodutor. Pela educação os filhos se tornam independentes e cidadãos do mundo.
  4. Função afetiva - O afeto é tão necessário quanto o alimento. O colo, o beijo, o abraço são manifestações de carinho. Sem afeto, a pessoa adoece, se desequilibra, sofre e faz sofrer. O grande presente para os filhos é o amor dos pais. Isso lhes confere segurança. O afeto abre as portas da inteligência, enche a mente de motivação, pois o coração tem razões que a mente desconhece. Vemos mais com o coração que com os olhos. Pais amigos não significa pais permissivos, mas sim participativos. Gestos de afeto marcam mais que palavras e doutrinas.
  5. Função religiosa - A pessoa nasce com abertura para a transcendência, isto é, para o outro e para Deus. Frustrar a dimensão religiosa de uma criança é uma injustiça contra a natureza humana que é espiritual. A fundamentação dos valores, do sentido da vida, das respostas aos questionamentos sobre a morte, o sofrimento, etc., encontramos na fé e na religião. A fé abre horizontes novos. A família é um santuário, uma Igreja doméstica.
  6. Função social - É a educação para a justiça. Na família aprendemos o alfabeto da convivência social. Por isso mesmo a família é a célula da sociedade, é esperança e futuro do mundo. Quando a família é desagregada a sociedade é prejudicada. Personalidades sadias são forjadas na escola do amor que é a família. Ali crescemos como pessoas, filhos, irmãos, amigos. Por outro lado, cabe ao Estado promover políticas familiares que possibilitem à família cumprir suas funções. A missão da família é ser santuário da vida, laboratório do amor, escola de valores, comunidade de aliança de pessoas. O mundo é chamado a ser uma grande família, como dizemos, a ‘‘família humana’’, ou seja, um mundo com espírito fraterno e solidário, onde o outro é nosso irmão.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Sensação do dever cumprido

Célia Guerra
  A atividade de um jornalista, como em qualquer profissão, tem uma rotina. Ir atrás da notícia, cumprir pautas diárias. A variedade de assuntos faz com que tenhamos dias interessantes ou mesmo estressantes. A regra fixa é a imparcialidade que, muitas vezes, nos faz parecer pessoas frias e sem sentimentos. Na avaliação da notícia, tem-se a impressão também de que estamos apenas em busca de fatos sangrentos. Infelizmente, parece ser essa a preferência de boa parte do público leitor, uma vez que, no ranking das notícias mais lidas do jornal, sempre estão à frente os destaques policiais.
  A nós, profissionais, entretanto, nos move um ideal transformador, traduzido na oportunidade de mobilizar a opinião pública, de ‘‘cutucar’’ os órgãos públicos em busca de respostas e/ou soluções. Foi assim quando deparei com a reclamação dos produtores de Sapopema, no ano passado.
  E o que encontrei? Pessoas desesperadas, como seu José Raimundo e dona Terezinha - cada um em seus sítios mas com problemas semelhantes -, sem condições de produzir nem mesmo para a sobrevivência. Ele jogava fora tambores com leite coalhado. Ela, tentava incentivar o marido, João Vicente, a vencer o desânimo e a doença para poderem continuar no campo levando uma vida digna - como entendiam que fosse. O sítio não despertava o interesse nem mesmo de compradores. O direito de produzir lhes estava sendo roubado pela falta de energia elétrica.
  Para quem mora na cidade e que há muitas décadas convive com esse conforto parece inadmissível que, tão próximos da gente, existam pessoas literalmente no escuro, com produção e sonhos azedados. Recursos queimados à luz das velas.
  De volta à Redação, ainda comovida com a situação, relatei o fato. A notícia teve repercussões tão positivas que, em menos de um ano, os ‘‘deuses’’ da luz elétrica chegaram até a casa de muitas terezinhas e josés reacendendo ideais.
  Meses depois, na semana passada, voltei a Sapopema. O cenário é outro. Pessoas reanimadas, cheias de esperança, criatividade e em plena produção.
  Pode até parecer piegas, mas me emocionei, me arrepiei. E, novamente, voltei para a Redação. Desta vez, com a certeza de que o ideal que nos move em busca da notícia não é um mero sonho. Ele é realizável.
CÉLIA GUERRA é redatora do suplemento Folha Rural da Folha de Londrina


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