Economizar energia e salvar os kaingang

Daniel Steidle
  Será que as reportagens da jornalista Vanessa Navarro, publicadas pela Folha de Londrina na semana passada, chegaram a tempo de salvar os índios kaingang da aldeia Mococa ameaçados por uma barragem? O que são 380 megawatts diante da história de vida daqueles índios? Um povo que hoje, segundo a reportagem, tem dificuldade em lidar com seu lixo e o sistema capitalista. Talvez as palavras de Augusto Merenciano Gogoia, de 99 anos, sejam suficientes para pensarmos em dar um outro rumo à história. ‘‘Deixar a casa antiga de pé, para lembrar e deixar uma planta (para picada de cobra) que a gente não usa mais, para as crianças verem como era o remédio do mato’’. Palavras que indicam que vale o esforço da sociedade para mudar o destino de uma aldeia. Mesmo que seja apenas simbólico. Mas afinal, ‘‘o que posso fazer?’’. Será que juntos podemos economizar os 380 megawatts e salvar a memória viva de um povo? Será que dá para viver sem tanta energia?
  Quem mora na roça ainda vive muitas vezes a falta de energia quando uma tempestade aparece. A noite é procurar farolete e velas. Nesta situação, a família reunida em volta da luz de uma vela, esquece da televisão, escuta o vento, a chuva, se assusta com a luz dos relâmpagos e toma banho de caneca. Voltam na mente lembranças de antigamente, cheiros, sons, comidas, festas, aventuras, época difícil, faltava muita coisa, mas eram tempos bons.
  Não adianta querermos voltar no tempo, o progresso está aí. Cabe a nós lidar com o desenvolvimento. De cada um retomar seu poder de decisão, independente da adesão dos outros. Está decidido, hoje à noite vou ficar no escuro, olhar as estrelas e contar aos meus filhos que o mundo guarda muitos mistérios que podem ser descobertos se formos capazes de dar valor a escuridão.
  Para quem mora na cidade fica difícil lembrar os mistérios da noite, onde luzes que consomem tanta energia do planeta apagam a escuridão. Fontes geradoras próximas ao consumidor poderiam nos aproximar da noção do valor da energia. Cada cidadão conhecendo a fundo a origem dos bens que consome teria uma consciência maior. Por que não começamos a nos ligar mais nas fontes daquilo que chamamos de progresso e desenvolvimento? Por que não pensarmos em luz a partir da energia humana? Quantas não foram as causas ‘‘impossíveis’’ e inventos ‘‘doidos’’ na história da humanidade? Poderíamos queimar calorias nas esteiras das academias gerando energia. Sem medo do ridículo, vamos dar início nos manifestando agora. Temos uma causa: economizar 380 megawatts, salvar história de vida e diminuir parte da imensa dívida para com os índios.
DANIEL STEIDLE é agricultor e educador ambiental em Rolândia


‘Tempo de luz’..

Antonio da Silva Pinhatari
  Abstraído do restante da matéria publicada pela Folha de Londrina, o título acima nos levaria a imaginar tratar-se de um texto sobre um período da história que viesse a contrapor a chamada era das trevas, na qual a única liberdade possível era a liberdade de pensar. Muitos dos livres pensadores, mesmo encerrados em sombrias masmorras armazenaram em suas mentes privilegiadas idéias e projetos que transformaram o mundo de opressão em um mundo de liberdade por eles sonhado.
  Avançando na leitura da matéria, vi que a frase metafórica era o título de um relatório no qual algumas pessoas cantavam loas em suas próprias honras por terem administrado a Universidade Estadual de Londrina (UEL) por quatro anos (‘‘tempo de luz’’). Sem me referir ao aspecto legal e moral que envolveu a elaboração do documento dito oficioso, quero destacar a modéstia (ou falta de) das pessoas em escolher denominação tão emblemática para um documento corriqueiro, que se destinava a uma simples prestação de contas por serviços prestados frente a um órgão público.
  Ficou patente que tais pessoas, por mais eruditas que sejam, falta-lhes uma dose ainda que pequena de sabedoria pois, sabemos que a cultura quase sempre vem acompanhada da presunção, da ambição desmedida, da vaidade, enquanto que a sabedoria se faz acompanhar da humildade, do desprendimento e, sobretudo, da grandeza de espírito para discernir o legal e legítimo do imoral.
  Uma instituição de objetivos tão nobres, santuário do saber, não deve prestar-se a satisfazer vaidades e ambições de pessoas ou grupos, circunscrevendo-se ao mister de forjar profissionais e líderes em todas as áreas do conhecimento, por gerações.
  Aos dirigentes recém-empossados da UEL nos quais a população já demonstra simpatia e confiança, desejo sucesso e um pedido para tenham sempre em mente a natureza de perenidade das instituições bem como a transitoriedade daqueles que as dirigem, e aos que findaram seus mandatos a certeza de que, suas realizações e seus feitos já fazem parte da história da nossa universidade e seus nomes perpetuados nos anais da instituição para conhecimento das gerações futuras.
ANTONIO DA SILVA PINHATARI é bacharel em Direito (turma 1976/2) da Universidade Estadual de Londrina e funcionário público aposentado


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