O espetáculo da política

Fernando Stratico
  Não é de hoje que o mundo é um palco e a vida, um espetáculo. Shakespeare nos revelava, já no século XVI, que ‘‘todos os homens e mulheres são meramente atores, com suas entradas e saídas’’. Desde então, os seres humanos têm se esmerado na arte de representar.
  Nesta época de eleições é quando temos as encenações de candidatos e candidatas, e é quando as performances se tornam mais elaboradas e pomposas, porque o que vale na política é, em grande parte, o faz-de-conta. Assim, neste período de início de campanha é quando entram as personagens aflitas por votos. É quando lobos em pele de cordeiros fazem fila para conquistar ou reafirmar o seu lugar no cenário da política nacional. E é quando temos de fazer um esforço enorme para distinguir o que é falso do que é verdadeiro; o que é encenação do que é realidade.
  É até uma injustiça para com o teatro dizer que o que se vê nos palcos da política é teatralidade, mas é impossível não notar o quanto as instituições públicas são marcadas pela performance e representação. Não é de hoje que a encenação tem sido usada na política, como um meio de articular imagens, de provocar sentimentos, de estimular certas crenças e perspectivas.
  As imagens falsas de ‘‘Brasil Grande’’ conquistando o espaço por meio de um astronauta, que, no fundo, era um turista, são exemplos tristes de enganação performativa. A encenação de um político fazendo greve de fome por justiça, como vimos recentemente, também é outra imagem lamentável. Os exemplos são muitos, e basta prestar atenção para perceber o quanto as imagens teatralizadas estão circulando por aí.
  Os regimes totalitários e populistas sempre utilizaram recursos cênicos como parte importante de seu aparato. O nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini, por exemplo, muito se empenharam na elaboração de demonstrações públicas, de gestos corporais simbólicos (como a saudação nazista), de desfiles pelas ruas, de discursos inflamados. Do mesmo modo hoje os políticos esmeram-se na arte da representação. Pagam milhões para marqueteiros elaborarem sua imagem, de modo a convencer e a despertar a confiança. Não é à toa que usam esta ou aquela voz, esta ou aquela inflexão, e até mesmo este ou aquele vocabulário e construção gramatical. Falar o português incorretamente pode ser até vantajoso sob esta perspectiva. Há nisto tudo a intenção de se criar uma imagem que atinja as massas e as conquiste.
  Estejamos atentos à política da encenação. Deixemos o teatro para os atores, e deixemos a política nas mãos dos fiéis representantes dos setores sociais.
FERNANDO STRATICO é professor do departamento de Música e Teatro da Universidade Estadual de Londrina


Concessão x transgressão

Julieta Arsênio
  Insisto, somos campeões na criação de leis e impostos. O novo Código de Trânsito, aprovado em 1996, com alguns percalços em sua regulamentação, está inovando com novos procedimentos na sua aplicação. Acaba de ser sancionada pelo presidente Lula uma lei que modifica o Código de Trânsito Brasileiro, criando uma graduação com três níveis, para cobrança de multas de motoristas que cometem infrações em rodovias e cidades.
  Infringir as leis de trânsito é violar, transgredir, violentar, deixar de cumprir as normas regulamentadas. Ora, essas normas, nada mais são do que manifestações comportamentais dos motoristas no trânsito.
  Já me indignava permitir que esses motoristas possam transgredir sete vezes uma falta leve para depois suspender sua carteira por ter atingido 21 pontos. A lei permite e reforça uma conduta inadequada, para depois punir.
  Agora, com a progressão na velocidade ‘‘ média’’ (20% da permitida ) e ‘‘grave’’ (50% da permitida) e ‘‘gravíssima’’ (acima de 50% da permitida), esses comportamentos são graduados, porém, são comportamentos de risco em nosso trânsito.
  É como se houvesse violência leve, moderada e grave e os ferimentos ou a gravidade deles pudessem ser amenizados com essa progressão de velocidade.
  Quando esses mentores das leis irão entender que estamos falando de pessoas que podem perder suas vidas, permitindo-nos viver num país de concessão, permitindo exceder na velocidade, assim como ingerir bebida alcoólica? Eu não deveria estar indignada. Afinal, a concessão na graduação das atitudes fraudulentas dos nossos políticos tem demonstrado que o dolo em nosso país é permitido entre os doutos dessas leis.
  Se, na regulamentação anterior, oportuniza-se recorrer das infrações, agora então as jurisprudências terão de expressar decisões objetivas e seguras para que a justiça seja aplicada com decência e o devido rigor.
  Parece-me que caminhamos cada dia mais para o mundo do ‘‘faz-de-conta’’, onde, em alguns momentos, fazemos de conta que somos um país evoluído, sério e, em outros, quando interessa aos gênios da lei, somos bonzinhos e condescendentes, justamente com quem transgride a lei, justificando-se assim as CPIs que aí estão. Pensem nisso!
JULIETA ARSÊNIO é psicóloga especialista em comportamento de trânsito em Londrina


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