Paz sim, violência não

Dom Orlando Brandes
  Aprendemos com Jesus, Gandhi, Martin
Luther King, Dallai Lama e tantos outros que
a paz começa em nós mesmos. ‘‘Ou vivemos como irmãos, ou morreremos todos como loucos’’ (M. L. King). A paz é fruto da justiça, portanto, a paz é possível, mas tem alto
preço. A violência é uma derrota para toda a humanidade.
  Reza o salmista: ‘‘Que viva em paz, Jerusalém’’. Nós queremos atualizar esta oração e clamar: Que viva em paz a cidade de Londrina! Enfoquemos a paz como um bem social, um bem comum, sem interesses políticos ou ideológicos. O mal não pode ser nossa arma para a paz. Nossa cidade não pode perder sua beleza, sua hospitalidade, nem sua boa fama. A paz reine em teu seio, Londrina!
  Religiões, escolas, universidades, poderes públicos, ONGs, comércio, mídia precisamos formar um mutirão pela paz. Amar nossa cidade não é algo tipo amor romântico, mas amor feito de gestos, atitudes, opções. Pão nas mesas, carinho humano e Deus no coração são fontes de paz. O amor constrói a sociedade e prepara a eternidade.
  Os que promovem a paz são chamados
filhos de Deus. Ser pacífico é ter consangüinidade divina, ao passo que a violência tem a
ver com a lei da selva, com a animalidade. Temos em nós propensão para a animalidade e para a santidade. Precisamos optar por uma delas. Portanto, a paz é questão política, mas também antropológica, religiosa, cultural. Vamos abater muros e construir pontes. Todos podemos ser pontífices, ou seja, construtores de pontes entre o centro e a periferia, o campo e a cidade.
  Os remédios mais fortes contra a violência são a justiça e o perdão. Um regulamenta os direitos humanos e o outro as emoções e sentimentos. Nós podemos estar em guerra conosco mesmos e precisamos fazer dos outros nossos amigos e irmãos, inclusive nossos vizinhos. A paz entre marido e mulher, pais e filhos é semente da paz social.
  Alcançaremos tudo isso se estivermos unidos ao Deus da paz. A espiritualidade, a oração, a religião têm a obrigação de serem pacificadoras. Urge transformar os desertos em jardins, os canhões em tratores. Paz sim, violência não!
  Já estragamos a natureza com violência antiecológica. Nós podemos nos autodestruir pela violência urbana. Nosso maior mal é o egoísmo, nossa maior esperança é a solidariedade. Este é o novo nome da paz. Ninguém no mundo deve omitir-se na luta pela paz, porque é indigno a gente viver como refém do medo, escravo de cachorros, de cercas elétricas, do controle eletrônico. A paz nos devolverá a liberdade e a dignidade.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Índices de produtividade: estratégia fracassada

Alexandre Lopes Kireeff
  Há cerca de vinte anos, nossos representantes no Congresso Nacional construíram a legislação responsável por ordenar a reforma agrária no Brasil. A partir de então, o conceito da ‘‘produtividade’’ fundamentou as ações governamentais objetivando modificar a estrutura fundiária no país: que fracasso!
  Ao longo desse período e de vários governos, este conceito básico da política fundiária revelou-se promotor de conflitos e absolutamente inapto a realizar uma reforma agrária. Apenas serviu de fomento à violência e ao conflito, pois em momento algum representou uma postura consensual entre as partes envolvidas.
  Surpreendentemente, observa-se uma movimentação política no sentido de se incrementar os índices de produtividade, como se esta sistemática fosse, de fato, eficiente e necessitasse apenas de reajustes. Pelo contrário, promover a desapropriação de terras, através da estratégia dos ‘‘índices de produtividade’’, não nos parece ser mais aceitável.
  Tal conceito despreza princípios econômicos básicos ao fundamentar-se em quantidade de produto por hectare, excluindo da questão a rentabilidade ao impor de forma arbitrária metas ao produtor. Não considera que toda atividade produtiva tem seu ponto de equilíbrio econômico e que, muitas vezes, o custo para se atingir uma determinada quantidade de produto, torna a atividade deficitária.
  Isto é bastante óbvio, mas para fins de reforma agrária, é sumariamente desconsiderado. Além disso, o referido conceito não leva em consideração as perdas de produtividade decorrentes de adversidades climáticas e, tão pouco, considera as dificuldades provenientes de uma crise agropecuária da dimensão desta que estamos vivendo.
  Diante disso, a posição do setor é clara: não aceitaremos incremento dos índices de produtividade. Não aceitaremos porque os últimos vinte anos comprovam que a ferramenta é inadequada. Não aceitaremos porque o mundo mudou e a agropecuária brasileira precisa estar inserida de forma competitiva neste ambiente globalizado. Não aceitaremos porque entendemos que já participamos com nossa cota de sacrifício para a construção de um Brasil mais justo.
ALEXANDRE LOPES KIREEFF é presidente da Sociedade Rural do Paraná

mockup