‘Idade das Trevas’

Geraldo Luiz de Souza
  Já não é de agora que a historiografia vem revendo o conceito de ‘‘Idade das Trevas’’ atribuído à chamada Idade Média. A própria expressão ‘‘Idade Média’’ reveste-se de preconceitos desde sua origem pelos autodenominados ‘‘modernos’’ dos séculos XVII e XVIII. Ainda que se reconheça que intolerâncias, perseguições, massacres, injustiças tenham sido perpetradas em nome da fé, passados 500 anos da chamada ‘‘Idade das Trevas’’ já adquirimos experiência histórica suficiente para perceber que tais ‘‘barbaridades’’ não são uma característica apenas do chamado ‘‘mundo bárbaro medieval’’. Afinal , mesmo com todo o estágio de desenvolvimento alcançado pela nossa ‘‘civilização’’ contabilizamos uma quantidade invejável de atrocidades cada vez mais sofisticadas graças a recursos econômicos, tecnológicos e científicos.
  Muitos pensadores a partir das trágicas experiências humanas do século XX propuseram uma atenção especial à utilização indiscriminada do termo ‘‘progresso’’ em nosso linguajar cotidiano questionando sua validade e aplicabilidade. A trajetória humana tem demonstrado que se podemos identificar experiências degradantes como escravização humana, tribunais sumários, carnificinas, manipulação de consciências por imposições religiosas, podemos encontrar também experiências ricas em valorização do ser humano em todos os momentos da História.
  Chegou o momento de abandonarmos nossos preconceitos e valorizarmos também as experiências daqueles que viveram na Idade Média. Muito já se tem feito neste sentido no campo da cultura, até porque é impossível não reconhecer a contribuição das universidades, o arrojo da arte gótica ou a importância do canto gregoriano para música ocidental. Refiro-me a experiências mais profundas na busca da identidade humana: a experiência dos monges que, em seu silêncio e disposição para o encontro consigo mesmos, foram capazes de descrever e experimentar aspectos da vida humana acessíveis somente aos que buscam um sentido mais profundo para a própria existência.
  Neste sentido a obra do monge alemão Anselm Grün (entre outras, ‘‘O céu começa em voc꒒ ou ‘‘A sabedoria dos monges na arte de liderar pessoas’’ - ed. Vozes) tem dado uma valiosa contribuição para que temas tão atuais como espiritualidade, autoconhecimento e administração sejam tratados numa perspectiva mais profunda e não apenas com os invólucros de uma auto-ajuda superficial recheada de truques, técnicas e receitas prontas (os insuportáveis plágios dos dez mandamentos disso e aquilo). São experiências humanas vividas em outro contexto, mas acima de tudo são experiências humanas traduzidas para os dias atuais com sabedoria, simplicidade e, porque não dizer, humildade no diálogo com a psicologia. Vale a pena conferir.
GERALDO LUIZ DE SOUZA é professor de História e Filosofia (ensino médio) e diácono da Igreja Católica em Londrina


A manipulação do voto

Ludinei Picelli
  O voto, que deveria ser uma forte arma contra a bandidagem política, torna-se um aliado dos políticos corruptos e ladrões porque a grande maioria dos eleitores não votam conscientemente. Fragilizados pela ignorância, pela situação econômica e pela alienação política, esses eleitores barganham o seu sufrágio por qualquer tipo de favorecimento, desde uma simples bola de futebol até uma promessa de emprego, passando por dentaduras, óculos, etc. É por isso que os corruptos e incompetentes sempre estão dominando o poder.
  Números divulgados mostram um quadro preocupante e de muitas dificuldades para mudar o cenário em busca da evolução da qualidade do voto, o que poderia resultar numa grande renovação dos quadros políticos da nação: são 73 milhões de semi-analfabetos, cerca de 58% dos eleitores; são 8 milhões de eleitores analfabetos crônicos, são 52 milhões de pessoas vivendo em favelas. Esse é o ambiente perfeito e com todos os ingredientes que possibilitam a manipulação do voto. Por exemplo, o Programa Bolsa Família do governo federal tem 11 milhões de famílias participantes, contemplando em torno de 40 milhões de eleitores.
  Há de se considerar também a diferença acentuada na qualidade de vida entre as classes de baixa renda e a elite, em função da má distribuição de riquezas produzidas por todos os brasileiros. Isso provoca o esgarçamento do tecido social e é justamente aí onde os políticos populistas e demagogos atuam, de forma inescrupulosa e nociva, manipulando o pensamento daqueles dotados de pouca instrução.
  Fala-se numa grande renovação do Congresso Nacional. Quem conhece e tem contatos freqüentes com eleitores mais humildes e desinformados percebe claramente que essa renovação é difícil. São pessoas alienadas que não conseguem visualizar o que acontece nos meandros da política e nos bastidores do poder, não têm noção da gravidade da situação do país.
  E a juventude estudantil? Outrora uma grande força de manifestação política e formadora de líderes, também está alienada e descompromissada com os destinos da nação, talvez anestesiada por orkuts, baladas noturnas e outras motivações fúteis já não cumpre o seu papel como antigamente. É por tudo isso que ainda temos que ‘‘engolir goela abaixo’’ impensáveis e inaceitáveis candidaturas de políticos envolvidos em falcatruas, roubo do dinheiro público e até processados na justiça, com grande chances de retornar ao poder como se nada tivesse acontecido.
  Isso também explica por que o nosso presidente, no ‘‘olho do furacão’’ de um dos maiores escândalos de corrupção da nossa história, ironicamente poderá ser reeleito já no 1º turno.
LUDINEI PICELLI é administrador de empresas e microempresário em Londrina


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