ESPAÇO ABERTO
Política como empresa de negócio
José Mario Angeli
O momento político brasileiro pode ser caracterizado pelo fim da política. As instituições chegaram à falência e em seu lugar atuam quadrilhas, envolvendo o Legislativo (partidos de oposição e do governo) e o Executivo, de tal forma que transformaram a política numa empresa de negócio.
O exemplo mais claro é o que veio à tona com sucessivas denúncias: mensalão, ou caixa-dois, sanguessugas, bingos, etc. De tal sorte que o Congresso passou a atuar com atribuições policiais e paralisou suas funções legislativas. O Congresso tornou-se palco de escândalos sucessivos, perdeu legitimidade e respeitabilidade. A discussão do Orçamento transformou-se numa guerra de bilro, as reformas importantes adormecidas à espera do príncipe encantado. É o fim da política.
Esta crise pode ser compreendida na forma de democracia, que prevalece no mundo globalizado. Isto é, as diretrizes do neoliberalismo são impostas a fortiori pelos países ricos aos países de mercados emergentes, obrigando, no caso, o Brasil a se adaptar aos novos parâmetros globais. A autonomia do ponto de vista político-econômico passou a ser mais formal que real. Tanto o Legislativo como o Executivo deixaram de ser poderes institucionais para funcionarem como lugares onde se organizam e executam políticas que já vêm delineadas por órgãos internacionais.
Resta ação no varejo. O negócio do salve-se quem puder. As emendas no orçamento são moedas de troca para que o mandatário possa cevar sua base eleitoral. Como mudar essa situação? Como o eleitor poderá escolher com critério o candidato nestas eleições? As coligações constituem-se numa verdadeira torre de babel. O voto, instrumento importante, para reorientar as práticas políticas no país e colocar em cena novos atores no Congresso, Assembléias Legislativas e no Executivo está esvaziado na sua expressão, pois os partidos políticos não são capazes de expressar a vontade de diferentes segmentos sociais: fazem o discurso que dá voto!. As coligações que se apresentam somadas aos acordos informais, produzem um quadro lamentável de acobertamento do verdadeiro projeto que cada agrupamento representa.
Construir um sistema hegemônico que preserve as liberdades individuais, garantam a Constituição e os poderes independentes e, por fim, a alternância no poder, é vital para a nossa sociedade. Não é tarefa fácil. A classe política que aí está representa a política como negócio. O parlamento deixou de ser espaço de luta política e passou a ser lugar de pressão e chantagens cujo único foco é a próxima eleição.
E a próxima eleição servirá para quê? Para manter ou para mudar os mesmos personagens que fazem discursos de ocasião orientados pelo marketing, do sorriso desenhado e da ausência de compromisso com o que se diz. Alguns reivindicarão a trajetória honesta como indivíduo, mas acobertarão o fato que o indivíduo nada pode sozinho. Mesmo sabendo que nada pode não abrirá mão de seu lugarzinho ao sol. Afinal, a política é uma carreira que garante alguma celebridade. Pena que estes atores sejam de tão má qualidade.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina
Aposentadoria seria o fim?
Osvaldo Cardoso Ribeiro
Querendo ou não este dia chegou, estou aposentado. Gostava de trabalhar, fazer minhas tarefas, encontrar com os amigos do serviço, mas tive que deixar tudo e parar. Pendurei as chuteiras. Não preciso cumprir horário mais, estou aposentado. Parece que eu já era... um duro golpe. Nada de acordar cedinho, arrumar-me, pegar o ônibus ou o carro e sair para o trabalho. Isto é bom, mas o que fazer com o tempo livre?
Passei a maior parte da vida numa única empresa, dentro de uma escola, no Colégio de Aplicação, órgão suplementar da Universidade Estadual de Londrina, vivendo exclusivamente da casa para o trabalho e do trabalho para casa.
Depois de aposentado se perde no tempo sua identidade. O que exerci e representei, sumiu no tempo. Parece que nada existiu, as cortinas se fecharam e apareceram em letras maiúsculas: aposentado.
Seria o fim? Passados alguns anos sei que os aposentados que conseguem ser felizes são inegavelmente aqueles que venceram os sentimentos de orgulho e ambicionaram um viver simples desprovido de grandes ambições, sabedores que o seu futuro e hoje.
O que é lamentável a existência irracional de dirigentes empresariais que consideraram as pessoas como objetos descartáveis, e insensivelmente fecham seus arquivos carimbando: tudo acabado, fulano aposentado. Não é assim, quem aposentou está vivo. Que ledo engano! Se a sociedade valorizar mais os aposentados perceberá que há muitos que muito poderão fazer em prol do desenvolvimento do país.
Faço só coisas que me dão prazer e que não causem desprazer a ninguém. Seria terrível viver na inércia e na apatia. Todo o tempo do mundo à sua disposição e você sem ter o que fazer.
Em suma a aposentadoria não é o fim. É como se eu voltasse a ser criança, quando vivia despreocupado e só brincando, hoje brinco com as minhas coisas e uma delas é a cultura. Sou aficionado por literatura, leio tudo que vem às minhas mãos e viajo por locais nunca antes imaginados. Não tenha medo de aposentar, é uma fase maravilhosa!
OSVALDO CARDOSO RIBEIRO é professor e jornalista em Londrina
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