ESPAÇO ABERTO
Hipocrisias reificadoras do narcisismo
Wiliam Siqueira Peres
Tenho acompanhado através deste Jornal - pesquisas e carta dos leitores - diversas formas de manifestações a respeito de temas presentes em nosso cotidiano. As questões ligadas à sexualidade e identidades de gêneros têm sido as mais complicadas, sob o ponto de vista de avançar no enfrentamento dos problemas contemporâneos. Entretanto, duas cartas enviadas ontem, me chamaram a atenção devido às posições rígidas.
Foram críticas a cenas apresentadas nas novelas da Rede Globo - que cá entre nós funciona como ópio da população -, referentes às relações afetivas-sexuais-amorosas, tais como, entre pessoas intergeracionais, pessoas de orientação sexual distinta, identidades de gêneros diferenciados que colocam em pauta uma grande chance para que a população comece a refletir a respeito das novas identidades sexuais que ganham visibilidade, respeito e direitos como qualquer outro cidadão que paga seus impostos e participa da vida social, econômica, cultural e política.
Questões ligadas à masturbação, sexo entre iguais, fantasias e fetiches sexuais, modos de prazer, parecem ser desejos de outros planetas. As pessoas se rebelam com críticas sobre o que é bom para elas de modo a querer colocar goela abaixo de todo mundo aquilo que acham certo para todos. Discursos e práticas, que nos diria Gilles Deleuze (filósofo francês), dizem respeito à expressão de microfacismos que se instalaram em nós. Com isso reificam o adiamento do enfrentamento de valores e significados que nos últimos anos vem perdendo sua importância e razão para clarificações que possam ajudar as pessoas a tornarem-se menos ignorantes, considerando que as cenas trazem dados de realidade, de um mundo em crise de seus paradigmas e que somente poderá evoluir através do diálogo e da problematização a respeito dessas outras formas de existência que compõem a atualidade.
Acredito que essas cenas poderiam contribuir para que pais e filhos, professores e alunos, médicos e pacientes, passem a conversar sobre as questões relacionadas à sexualidade, gêneros e violências sem contudo trazerem pedras em suas mãos, mas construir relações solidárias e respeitosas para com a diferença. Além do mais, se não queremos dar ibope para certas cenas e discursos televisivos, é muito simples, basta usar o botão do controle remoto ou ainda propor atividades outras como DVDs, passeios, jogos e brincadeiras e atingir aquilo que cada um de nós tem em mente como referência de felicidade e bem-estar biopsicossocial.
WILIAM SIQUEIRA PERES é doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ/RJ e professor de Psicologia Clínica da UNESP/Campus de Assis (SP)
Ensinar religião é saber dar respostas
Walmor Macarini
Religião tem o significado de religação, do retorno do espírito (preexistente) à sua origem primeira. A volta ao seio de Deus, como se diz. Mas ao tratar de religião a maioria das pessoas a entende apenas como um caminho de salvação, e a seguem por tradição, sem compreender-se a si próprias como seres por natureza salvos.
Não há como ensinar religião e agora também nas escolas públicas se não existem mestres prontos para isto. Porque eles serão os mesmos do quadro das escolas ou teólogos. Aqueles, com formação pedagógica e estes vinculados às suas crenças. E a ambos faltando a necessária dimensão que faz um mestre no lugar de um didata e de um pregador.
Buda meditou até a velhice para chegar ao estado de nirvana o pleno entendimento e a plena libertação; e Jesus buscou os essênios, os sábios do Egito, os magos da Pérsia, os budas da Índia e os monges do Nepal antes de iniciar o seu ministério.
Duvida-se que o tradicionalismo religioso dominante do Ocidente permita que se ensine nas escolas todos os credos e fenômenos suprafísicos que ocorrem, como a mediunidade, em todas as suas diferentes manifestações, a clarividência extra-sensorial, a canalização, a fenomenologia das curas, as viagens fora do corpo, o ingresso em outros planos de consciência. Questões, todas estas, não apenas de fé, mas vivências e comprovações, de domínio da ciência não-convencional e que já vão penetrando pelas frestas da ciência oficial.
Essas novas revelações estão vastamente disponibilizadas, mas os ensinadores oficiais de religião não irão garimpar nesse manancial, pois para isso precisariam ter essa abertura e haver transposto muitos portais. E se forem buscar nessas fontes, ainda não entenderão. Da mesma forma que Jesus não foi entendido quando chegou com suas boas novas, e também não o é agora, quando chega com as novíssimas como havia anunciado para melhor explicar as anteriores.
Por isso imagina-se que ensino de religião nas escolas não passará de estudos históricos e de fundamentações religiosas, de disfarçada catequese, de menções a um Jesus que salvará a todos bastando suplicar-lhe e não de um Jesus irmão e mestre; de um Deus que está no Céu e nós aqui em baixo, cheios de pecados e sujeitos a punição no fogo do inferno. Melhor é deixar que as crianças e os jovens empreendam a própria busca e encontrem em si mesmos as respostas que as igrejas não estão conseguindo lhes dar.
Ensinar religião é saber dar respostas. Como a da relação do homem com a eternidade. As crianças estão chegando à Terra com novos registros genético-espirituais, e a partir de breve serão elas que passarão lições aos velhos acerca das questões de espiritualidade, de bem conviver, de compartilhar, de compreender a vida, de entender porque as coisas acontecem.
WALMOR MACARINI é jornalista na Folha de Londrina
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