O bem comum

Fernando Stratico
  Desde nossa infância, somos bombardeados por princípios morais que são marcados por uma noção de bem comum, noção esta que afirma: o bem individual não pode ser separado do bem coletivo. Assim, estamos acostumados a lembrar que as leis e as normas sempre visam o bem de todos. Apesar de aprendermos desde a infância sobre o bem comum, há momentos, porém, em que este bem é esquecido.
  Acontece que, na prática, existe uma tendência forte no interior do indivíduo e da sociedade, em inverter as regras morais. Deste modo, vemos políticos roubando dinheiro público; vemos também funcionários públicos agindo em função do bem individual; vemos assalariados pagando quantias enormes de impostos, enquanto grandes empresários sonegam. E, assim, flagramos a nós próprios lavando as mãos perante aqueles sobre os quais também temos responsabilidade.
  Por outro lado, se em nosso meio há loucos, assassinos, corruptos, enganadores, charlatães, de quem é a responsabilidade? Se somos responsáveis pelo bem de todos, não seríamos também responsáveis pelo mal que acontece?
  Os princípios morais que regem nossos sistemas éticos, sejam eles institucionais ou cotidianos, dependem desta visão inequívoca sobre o bem comum. Nestes sistemas, o bem individual não pode prescindir do bem comum, e jamais poderia ser estabelecido em bases unicamente individuais. Sistemas como as leis, a religião, possuem uma articulação essencialmente ética. Outros sistemas articulam-se por meio das instituições sociais, tais como a família e a escola, dependendo fortemente dos próprios costumes e da transmissão oral desta ética.
  Contudo, por mais que a religião, a família e a escola tenham se esforçado em manter vivo o princípio do bem comum, o mundo contemporâneo tem sido mergulhado em fracassos morais e éticos e, conseqüentemente, sociais. Assim, se um adolescente envereda pelo mundo do crime, a responsabilidade não é unicamente dele. Todos somos responsáveis pelos fracassos sociais.
  Neste quadro de abandono e incompetência ética, as soluções tornam-se muito escassas. A educação e a cultura têm o seu papel evidente neste processo de cultivo do bem comum, mas precisamos de transformações práticas eficientes. Não basta memorizar as leis e os códigos morais. É preciso pôr em exercício a ética. Sistemas de saúde, prisionais, políticos etc., do mesmo modo, devem atuar em função da construção gradativa do bem de todos. Porém, não se faz justiça social, sem a responsabilidade moral sobre os que estão à nossa volta. Se o Estado é o responsável direto pela instituição do bem comum, o Estado somos nós.
FERNANDO STRATICO é professor do departamento de Música e Teatro da Universidade Estadual de Londrina


Eleições, discurso e prática

Francisca Verginio Soares
  É perspicaz lembrar que, no ranking nacional, por exemplo, no Brasil, as ‘‘questões sociais’’ mais ligadas aos indivíduos são: 1) saúde; 2) desemprego; 3) educação; 4) pobreza; 5) habitação e 6) segurança pública. Em época de eleição, em alguns estados e até mesmo cidades, esta ordem pode ser invertida dependendo de como se pretende construir o perfil do candidato a ser ‘‘oferecido’’ à sociedade.
  É possível inferir que o discurso é integrador apenas no plano ideológico, porque ele intercepta as necessidades do cotidiano popular. O que não significa, por outro lado, que, na prática, medidas sejam efetivadas para que de fato essa integração ocorra. Ou melhor, citando o cientista político Gisálio Cerqueira, um determinado modo de organização da vida social afirma-se como hegemônico quando interliga, no plano do coletivo e individual, os aspectos centrais da percepção (o pensar, mas também o sentir e o agir).
  Seguramente, o discurso dominante cumpre esse papel ao interpelar a ideologia do sujeito em seu cotidiano. Sua essência é manipular tais aspectos para dar a impressão de que há uma ‘‘igualdade perante a lei’’.
  Na verdade, o que prevalece é um discurso que pretende instaurar a ordem pública, o que é feito com a ilusão de que há uma integração social dos distintos interesses. No Brasil, ‘‘o discurso político hegemônico se constrói sempre na crença dessa integração social entre indivíduos, grupos e classes sociais, por mais antagônicos que sejam seus interesses’’, citando ainda Gisálio Cerqueira.
  Nas sucessivas administrações têm sido assim. Ou seja, as práticas políticas demonstram, quer sejam de esquerda ou de direita, que a estratégia do discurso hegemônico é fazer prevalecer, por meio da ideologia, o consenso popular. Isso se dá a partir de certos problemas concretos, postos pela realidade, que são bem delimitados e marcantes em sua conjuntura. Isso é notável em relação ao modo como a violência tem sido tratada no Brasil. E em termos de segurança pública, especialmente São Paulo, tem sido exemplar de como o discurso supera a prática.
  Enfim, enquanto a segurança pública for peça panfletária, para se ganhar eleições, jamais os tentáculos do crime deixarão de se estender para fora dos presídios para decretar a pena de morte. Enquanto isso o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, discursa que ‘‘o reforço policial não é oportuno nem necessário, pois o efetivo de segurança paulista é o maior e mais bem equipado entre os Estados’’. Mas, afinal, em que planeta vivem esses homens? Definitivamente não é no meu.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Política em Londrina


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