ESPAÇO ABERTO
Oportunistas da miséria
Cristiano da Veiga Sambatti
Gostaria de compartilhar uma experiência que testemunhei no dia 29 de junho. Dirigia-me de ônibus para uma cidade próxima a Londrina, quando numa das paradas convencionais um garoto de aproximadamente 16 anos subiu no coletivo carregando uma grande saco plástico contendo vários pacotes de pipoca. Após alguns minutos de discurso apresentando um problema de saúde e traçando rapidamente a situação miserável de sua família, o garoto distribuiu os pacotes de pipoca entre os passageiros pedindo encarecidamente àqueles que pudessem, uma contribuição em dinheiro em troca do produto.
Permaneci de pé observando o garoto percorrer as fileiras coletando as moedas. Qual não foi a minha surpresa ao constatar, de relance, que um dos passageiros sentado no fundo do ônibus, sorrateiramente escondeu o pacote de pipoca que segurava enquanto o garoto passou por ele despercebido do fato. Finalmente, abordou as últimas pessoas, apanhou mais algumas moedas e os pacotes de pipoca devolvidos, agradeceu a todos e desceu na parada seguinte.
Não estou defendendo aquele garoto, trata-se de um desconhecido cuja veracidade de suas palavras certamente foi questionada por muitos daqueles passageiros (incluindo eu). A meu ver, ele nem deveria estar no ônibus buscando este tipo de auxílio, mas como no Brasil a ajuda nunca vem realmente de onde deveria partir, resta a estas pessoas buscá-las aonde e quando lhes surgirem oportunidade. O que lamento profundamente foi constatar a conduta de um cidadão adulto que aproveitando-se de um momento de descuido do garoto, simplesmente surrupiou o pacote de pipocas, gabando-se de seu ato para os amigos sentados próximos assim que o garoto desceu no ponto.
Situações como esta servem para mostrar a nossa triste realidade. Vivemos numa sociedade pautada cada vez mais por condutas oportunistas exercidas inclusive sobre a miséria alheia e movidas pelo pensamento individualista visando apenas o benefício próprio em detrimento do sacrifício da confiança (algo que já soa familiar ao brasileiro, sobretudo no cenário político).
Infelizmente, somos levados a acreditar que a esperteza inofensiva do brasileiro está sobrepujando a honestidade tola, o que confirma a velha premissa já conhecida de que gostamos de levar vantagem em tudo.
CRISTIANO DA VEIGA SAMBATTI é professor de História em Londrina
Check-list em compras e ressuprimento
Mauricio Kalau Gonzales
Nas organizações, procedimentos são seguidos com a checagem de sistemas. Até mesmo você quando vai para algum lugar, antes de sair de casa para atender a um compromisso, invariavelmente, confere se as condições pessoais que deseja para si estão em ordem ou de acordo com o pedido de outros. E isso muda de ocasião para ocasião. Em compras não é diferente. Dependendo da estratégia que a empresa têm o check-list pode não ser igual, pois num mesmo segmento empresarial são usadas várias formas no ressuprimento. Mas uma pergunta sempre se repete nesse momento: quanto comprar de cada produto ou matéria-prima de forma a se obter a maior rentabilidade?
Para responder a esta pergunta o empresário deve gerir corretamente seu sistema de compras e estocagem e isso, num ambiente sistêmico e dinâmico, não é fácil. Explica Hansen & Mowen (2003, p.55): Um sistema é um conjunto de partes inter-relacionadas que realiza um ou mais processos para atingir objetivos específicos. E essa interação pode ser na empresa e dela com seu meio.
Na pesquisa Modelo sistêmico integrado em gestão de estoques e compras na administração de resultado: o desafio financeiro no ressuprimento, vários pontos foram averiguados a respeito do assunto e concluiu-se que existiu uma forte tendência a se estocar mais em épocas de alta inflação no Brasil, porém, estatisticamente, esta tendência mostrou-se não ser significativa (alfa = 5%), obtendo-se um percentual de significância de 94,16%. Também observou-se que o sistema de compras usado pela empresa pode estar relacionado com sua característica de decisão, podendo ser este tradicional ou moderno (just-in-time, estoque zero, redes de valor e outros). Foram encontradas médias de estoques em relação ao faturamento de 19,08% para períodos de alta inflação e 13,80% para períodos de baixa inflação, como os atuais. Constatou-se ainda que houve significativamente mais lucro nos períodos de alta inflação, e que este lucro não foi gerado em função da prática de maior estocagem, para o conjunto pesquisado, mas sim pelos resultados conseguidos nas aplicações financeiras. A prática de maior estocagem provavelmente relacionou-se com a necessidade de se repor mercadorias vendidas, mantendo-se assim o custo do produto.
Respeitando-se as características de cada empresa, as conclusões dessa pesquisa podem vir a colaborar na condução de negócios no setor de compras para uma gama de organizações e culminar com mudanças estratégicas no reabastecimento de acordo com o Supply Chain Management (SCM) para cada produto, na sua cadeia de produção e consumo, e as Co-responsabilidades Integradas em Manufaturas (CIM). (A publicação completa desse trabalho estará em www.uel.br/proppg/semina vol.27. edição 2006).
MAURICIO KALAU GONZALES é administrador e professor na Universidade Estadual de Londrina
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