ESPAÇO ABERTO
Au revoir, patricopas!
Monica Carvalho
Quase uma semana depois do fiasco futebolístico nacional, chega o alívio e a esperança. Com todo o respeito aos quase 200 milhões de craques brasileiros, é hora dos patricopas darem a vez aos verdadeiramente patriotas. Afinal, não podemos ficar à mercê de gente que se esgoela, batuca, apita, veste verde-amarelo da cabeça aos pés, bebemora, lembra-se do País só na Copa do Mundo, se aproveita da época pra consolidar maus exemplos praticados desde sempre. Passada a disputa, esquece tudo e ignora assuntos importantes do cotidiano.
A turma de convocados patricopas é sempre enorme, governos inoperantes e incompetentes, corruptos e sonegadores de toda espécie (então, recordemos que este ano também é de eleições!). A regra é clara, o poder econômico dominante extorque e oprime gente como a gente, simples, comum, produtiva e ninguém faz nada ou pouca coisa. Os verdadeiros ídolos, mágicos, os assalariados, que vivem e mantêm aos trancos e barrancos suas famílias, com salário mínimo, ficam jogados a escanteio.
Temos escalados neste time parte de políticos, tiranos, arbitrários, leis que profanam o senso básico de justiça de tão gagás, e a nós resta ir driblando esses cartolas com arte, técnica, treino, esforço, humildade, trabalho, dedicação e raça. Tudo o que faltou pros meninos de ouro da seleção tupiniquim. No país do futebol, da pátria de chuteiras, de muita chuteira sem- pátria, não há como negar que o esporte é a paixão número 1. Porém, o momento é de esquecer o grito de gol que não veio, deixar pra lá a frustração e a decepção da derrota, levantar novas bandeiras, Oxalá, eficazes, em prol de educação, conscientização, dignidade, trabalho, respeito, competência e uma ampla cidadania, de pensamento coletivo, com garra, amor e peito aberto. De novo, tudo o que faltou à seleção canarinho que, literalmente, voou.
Meu pai, o Milton Bolinha, amante do esporte, ex-jogador e incentivador, conseguiu fixar em suas quatro filhas a sensação forte de amor ao futebol. Mas, antes de partir desta vida, viu consolidados sentimentos reais de patriotismo. Lutamos para ser a cada novo dia cidadãs que o Brasil precisa, agindo! Tentando fazer da nossa casa, nosso bairro, nossa cidade, nosso Estado, a nação, lugares melhores e mais humanos pra se viver, aprendendo, como no futebol, a ganhar e a perder, com dignidade e atitude. Ei, isso tudo faltou lá!
Podem chamar esses ideais de utopia, mas a gente segue como valores morais e práticos, com orgulho, fé e coragem. A idéia é um dia poder ver o país parar de novo, igual em época de Copa, só que na luta e defesa de seus direitos básicos, com responsabilidade e um coração patriótico, sem patriotices. Tomara que não demore muito, pois a nação do futuro precisa de tudo isso agora. E tem que existir liberdade, igualdade e fraternidade. Na língua que entrou em voga com Zizou - liberté, égalité et fraternité. Isso há de integrar também a nossa história e a nossa bela brasilidade.
MONICA CARVALHO é jornalista pós-graduanda em Comunicação com o Mercado pela Universidade Estadual de Londrina
A lei do cão-guia
Julieta Arsênio
Uma sociedade que se preza e respeita as diferenças da raça humana é aquela em que as minorias não ficam à margem, possibilitando aos portadores de deficiências as mesmas oportunidades a uma vida dinâmica, participativa e produtiva, direitos inerentes à sua cidadania.
Os resultados do Censo 2000 mostram que, aproximadamente, 24,6 milhões de pessoas, ou 14,5% da população total, apresentaram algum tipo de incapacidade ou deficiência. São pessoas com ao menos alguma dificuldade de enxergar, ouvir, locomover-se ou alguma deficiência física ou mental. Entre 16,6 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual, quase 150 mil se declararam cegos. Já entre os 5,7 milhões de brasileiros com algum grau de deficiência auditiva, um pouco menos de 170 mil se declararam surdos.
O conceito ampliado utilizado no Censo 2000 para caracterizar as pessoas com deficiência, que inclui diversos graus de severidade na capacidade de enxergar, ouvir e locomover-se, é compatível com a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), divulgada em 2001 pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
O governo federal aprovou e sancionou a lei 11.126, de 27 de junho de 2005, que dispõe sobre o direito do portador da deficiência visual de ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhado de cão-guia. Assim, foi criado o Projeto Cão-Guia de Cego, em Brasília (DF), pioneiro no país, com a finalidade de proporcionar uma melhoria na qualidade de vida do deficiente visual, não só por facilitação de mobilidade e segurança dessas pessoas, permitindo acesso ao estudo e qualificação profissional para o mercado de trabalho, mas também por possibilitar uma maior socialização e, desta forma, elevar sobremaneira a sua auto-estima.
No entanto, segundo o IBGE, para os 150 mil portadores de deficiência visual, o número estimado de cães-guia no Brasil não chega a 50, impedindo que mais pessoas contem com esse recurso. Comenta-se que criar lei, é uma especialidade de alguns brasileiros. Lei muitas vezes inócua, mas criada, dando louros ao seu autor. Contudo, regulamentá-las, viabilizando sua aplicabilidade é que são elas.
Podemos concluir que a lei 11.126/05 veio beneficiar apenas esses 50 felizes contemplados pelo amigo cão-guia. E a lei que propicia o portador de deficiência visual a ter um cão-guia? É preciso ter esse cão para, então, dispor sobre o direito desse deficiente ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo. Caso contrário, a qualidade de vida tão almejada pela lei é utopia, pois a única realidade é a negritude que jamais trará a beleza das cores que temos a felicidade de ter.
JULIETA ARSÊNIO é intregrante do Centro Londrinense de Investigação Psicológica
- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].





