ESPAÇO ABERTO
O sonho acabou?
Neusa Maria Orthmeyer Massarutti
O melhor jogador do mundo, o maior artilheiro de todas as copas... Não adiantou. O sonho acabou. Nós, brasileiros, sempre dependemos de uma força superior que nos conduza ao pódio, não deu certo. Talvez essa força superior tenha entendido e nós não conseguimos que o brasileiro já tem um penta para se embriagar e que devemos almejar outros pódios.
Começamos pela limpeza na nossa casa, na vida particular, profissional, religiosa, política. Ai, a vida política! Já está passando a hora de refletirmos sobre a nossa cidade, o nosso Estado, o nosso País. Será que estamos preocupados com eles? Será que temos direito ou obrigação de perdermos tempo com essas coisas ou será que o ser superior também agirá por nós na hora certa? Não será essa a hora certa! Agora deve sobrar tempo. A partir dessa semana não temos que nos preocupar com o churrasco, gelar a loirinha, parar o tempo e juntar o grupo de amigos e familiares diante da telinha mágica.
Podemos continuar a nos reunir e nos preocuparmos com outras comemorações futuras: com o futuro de todos nós, dos nossos descendentes, com a vida digna na velhice e na doença. Quem sabe começarmos avaliando os acontecimentos éticos e morais na vida política brasileira, de alguns políticos, o respeito que vêm demonstrando conosco. Somos nós que perdemos com os caixas dois, com os grandes volumes de dinheiro exportados, que pagamos as contas de viagens e de festas das quais não participamos e sequer somos convidados. Para nós, sobram os programas do leite, do gás, da conta de luz (o que podemos entender como direito de escolha e de poder de custeio através do direito de um emprego digno). Pagamos ainda o custeio de aviões e as reformas de palácios tornando-os melhor habitáveis, enquanto muitos trabalhadores não têm escolha de nada.
É hora de avaliarmos o abrir mão de nossos direitos de posse de terras adquiridas com sacrifícios e trabalho, cultivadas e cultiváveis, por medo ou por outras razões; fazermos valer o nosso direito de salários dignos e compatíveis com o nosso desempenho profissional, com a nossa capacidade e esforço acadêmico (avaliemos o salário do docente do ensino superior) e o direito de sermos felizes lutando por deveres e pelo direito de sermos respeitados em tudo e por todos e de escolhas.
Podemos comemorar várias vitórias: a escolha de melhores representações políticas, de melhores governos estadual, federal e municipal. Peçamos que a força superior permita que não sejam apenas sonhos e façamos as nossas escolhas. Não deixemos essas decisões nas mãos de alguns eleitos que ao final nos dirão eu não sabia do que acontecia, não estávamos preparados para esse resultado. Façamos nós a nossa história.
NEUSA MARIA ORTHMEYER MASSARUTTI é professora de Ética Empresarial do departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina
Lições da derrota
Willian Oguido Ogama
Inúmeras argumentações, desculpas, invenções surgirão em relação à derrota de nossa seleção. Sempre foi assim. É da cultura do brasileiro, arranjar um jeitinho de resolver as coisas. Essa trapaça que é tão venerada por nós, como se fosse uma virtude de nosso povo entrará em cena novamente. Está mais do que na hora de acabarmos com essa prática. Esse jeitinho foi observado nos escândalos de nossos governantes, nas desculpas esfarrapadas quanto aos esquemas de corrupção, nas muitas decisões políticas do Judiciário, e agora será utilizado pela grande parte da imprensa em relação à derrota da seleção.
A mídia, como de costume, procurará um bode expiatório para amenizar o sofrimento do povo pela eliminação da Copa. Sofrimento, mais do que insustentável, haja vista as tristezas que afligem o país. Muitos já não têm o que comer faz tempo. E o evento que deixava esquecer a fome por pelo menos 90 minutos, não acontecerá mais. Só daqui a quatro anos. Já não tínhamos o pão, agora não temos o circo.
Como no Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, alguém deverá carregar a culpa pela tristeza do hexa. Será Parreira? Será Cafu? Será Ronaldo? Ou Ronaldinho Gaúcho? Roberto Carlos por que ergueu a meia? As respostas virão em alguns dias ou anos. Dirão até mesmo que o Brasil se vendeu à França. Pior, muitos acreditarão. Misturarão política e futebol para que o povo pense que está compreendendo algo, que na realidade, é equivocado. A paixão, o sentimento, o sofrimento e a razão tornarão meios de distorções.
É possível fazer analogias do futebol com a política, economia, governo, sim. Porém devemos prestar atenção nos discursos ideológicos que explicarem um como causa ou efeito de outro, pois isso é ilógico. A melhor comparação que poderíamos fazer da derrota para a França com o estado em que se encontra o nosso país é: o Brasil é um país derrotado nos dois âmbitos. O povo estava triste por aspectos político-sociais, e agora, pela falta de vontade e gana de nossos jogadores. Bem, Gana só se viu nas oitavas. Também, devemos tirar de lição deste jogo, que ouvir e aprender é saber concordar com os sinceros.
Cite-se Nelson Rodrigues: Só os profetas enxergam o óbvio. Pelé dizia antes do jogo que o Brasil poderia perfeitamente perder dos franceses. E foi criticado. Assim como Henry que proferiu a frase de que o brasileiro joga bem porque não estuda. Bem, dessa profecia, é melhor interpretar que se pode jogar bem, tendo estudo, como ele, que marcou o gol da vitória e teve consciência e inteligência de aplicar o esquema tático exigido pelo seu técnico, dando um show de tática na nossa seleção.
Vamos absorver desta derrota, tudo o que for viável, com senso crítico. Perdemos. Temos que aprender a perder. A França foi superior, demonstrou um melhor futebol. Chega de fingirmos acreditar que algo inexistente aconteceu. O Brasil perdeu porque jogou pior e foi menos eficiente. A verdade, às vezes dói, mas é muito melhor uma verdade dolorosa do que arranjar um jeitinho que nos leve à estagnação das ilusões ideológicas. Parece que ainda estamos vivendo num sonho. Ou o sonho acabará?
WILLIAN OGUIDO OGAMA é estudante de Direito da Universidade Estadual de Londrina
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