Perdemos o rumo do hexa?

Antonio Caetano de Paula
  Sou médico e não especialista em esportes, mas acredito que sempre podemos aprender algo nas diversas atividades do dia-a-dia para podermos tirar lições e aplicá-las para melhorar o nosso viver. Não pude ver a totalidade do jogo de sábado mas o pouco que vi do segundo tempo mostrou uma seleção apática, como se estivesse, em alguns momentos, assistindo ao bom futebol exercido pelo adversário.
  Acredito que faltou humildade ao se acharem imbatíveis; faltou hombridade ao esquecerem de valorizar a camisa que estavam vestindo, que representa uma nação, um povo ansioso por momentos de espetáculo que o faça esquecer a falta do pão, de moradia, de emprego, de segurança, de educação e, principalmente, de saúde, no que se refere ao mais amplo sentido destas palavras; faltou o sentido holístico de equipe, da interdependência de cada um, aquela harmonia para que, unidos, todos cheguem ao ponto almejado; faltou habilidade ao preparador em perceber que o mais importante é o conjunto, o resultado positivo e bonito e não apenas o contrato, a teimosia em manter pessoas com problemas destoando o sentido de equipe; faltou o hábito de jogar em conjunto determinado por um pequeno período de preparação; e, assim, faltou honestidade para com os anseios dos torcedores.
  Faltou também aplicação por parte dos jogadores em chamar a atenção dos que estavam apáticos; faltou uma abanadela no ego,para que lembrassem de serem falíveis; faltou abdicar de prazeres outros que o fato de colher os louros da vitória após um período de concentração; faltou abolir de dentro da equipe os comentários exteriores de ‘‘fenômeno’’, ‘‘melhor do mundo’’, ‘‘favorita na bolsa de apostas’’, etc.; faltou abortar jogadas dos adversários; faltou acalorar o ânimo dos jogadores como fez o Felipão na Copa passada (.....deixa a vida me levar....); faltou adesão ao que se esperava da seleção, mesmo que perdesse, mas que fosse com um belo futebol; faltou aeração da equipe, colocando jogadores mais rápidos, por serem mais jovens.
  E, assim, faltando tanto agá quanto a, o hexa não veio, porque hexa sem H e sem A é EX, tornando-nos ex-pretendentes ao título, ex-melhor equipe, mas lembrando que somos ex-campeões. Me parece, em análise superficial, que a seleção retratou o momento atual do brasileiro, especialmente alguns daqueles que o representa, vivendo de maneira individualista, sem se preocupar com os semelhantes, com uma dose de apatia, não percebendo que somos responsáveis tanto por aquilo que fazemos como pelo que deixamos de fazer. Talvez a seleção nos tenha ensinado que se não tivermos honestidade, pensamento holístico, habilidade em escolhermos representantes honestos e aplicados, procurarmos viver em harmonia com o meio ambiente e uns com os outros, que se não abdicarmos de um sentimento de grandeza descabida, abolir o sentimento de ‘‘brasileiro é assim mesmo’’, também estaremos caminhando para o EX - do ex-povo, ex-paz, ex-país. Pensemos nas lições do dia-a-dia, mudemos nossas condutas enquanto o jogo corre, pois daqui a pouco o juiz apita, encerrando a partida.
ANTONIO CAETANO DE PAULA é médico e presidente da Associação Médica de Londrina


Somos eternos jogadores

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  Aquele dia foi o último. E essa idéia de fim abalou as estruturas. Não, entretanto, as estruturas materiais, de concreto, mas as relacionadas com a crença de vitória. Tudo foi rápido e incompreensível, o que dificultava responder a seguinte pergunta: o que aconteceu com o Brasil naquele momento?
  Desde o começo da Copa do Mundo, a impressão que se tinha é que a seleção canarinho fora à Alemanha como mera turista, sem o compromisso de fazer algo grandioso em memória aos milhões de brasileiros que, na maior parte das vezes, portavam pelo menos um laço de fita verde-amarelo pendurado no braço. Isso mostrou uma interessante inversão de papéis. Enquanto no Brasil a população sofria, acompanhava, rezava, chorava e, em alguns casos, infartava pelo time, os jogadores pareciam viver ainda embalados pelo penta de 2002, pelos altos salários que alguns deles recebiam por jogar em times europeus, pelas imagens na mídia que os endeusavam, enfim, tinham outras preocupações. Isso evidenciou que foi o torcedor brasileiro quem realmente se envolveu com a luta pelo hexa.
  Entretanto, a disputa pelo título continua. Como parente mais próximo dos brasileiros está o time de Portugal, liderado pelo conquistador do penta, Felipe Scolari. De fato, vendo a forma como os portugueses jogaram remeteu a população tupiniquim para a época de Pelé, época em que se jogava pela camisa do país e não para divulgar a venda de algum tênis desenvolvido por uma nação estrangeira. A maneira como o time lusitano combatia nos campos, o entusiasmo de Felipão (o oposto da apatia de Parreira) e a surpreendente vitória nos pênaltis contra a Inglaterra, fizeram muitos brasileiros desejarem que o time verde-amarelo fosse aquele.
  E o que aconteceu com o Brasil de fato? O país queria o hexa e, no final, descobriu que seu legado poderia ainda existir (é o caso da seleção portuguesa). Além disso, a nação aprendeu que o melhor jogador do mundo é aquele que não é a estrela, mas se torna parte de uma constelação pelo fato de estar sempre junto dos outros jogadores (isto é, junto com os colegas da equipe que fazem brilhar sua estrela mais intensamente que os holofotes da mídia). E, o mais importante: o brasileiro percebeu que a ‘‘Copa’’ de sua própria vida continuava. Eleições presidenciais, mensalão, preço da gasolina, verbas para os hospitais, tudo isso ainda está evidente. E, assim como foi essa Copa, a ‘‘Copa’’ do brasileiro ainda precisa de um final. De fato, somos eternos jogadores nesse jogo da vida.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina


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