ESPAÇO ABERTO
Santinho do pau-oco
Luiz Carlos Ferraz Manini
A quem interessa a TV digital no país? Para melhorar que imagem? E transmitir que tipo de programação que vá, substancialmente, alterar a vida da população carente?
O presidente Lula aprovou o projeto que permite a implantação da TV digital no país, que começará a ser difundida a partir de São Paulo, já no ano de 2007, tendo um prazo para abranger todo o território nacional. Ganho do Brasil em matéria de tecnologia? Não, falácia do governo para demonstrar um avanço que não existe.
Em primeiro lugar, a tecnologia que inicialmente será utilizada será a japonesa, sendo inclusive trazida para o país uma equipe de técnicos que irá implantar o programa. Além disso, o custo com transferência do padrão analógico para o padrão digital será subsidiado pelos próprios consumidores, ou seja, quem puder vai pagar e terá o sinal digital em seus novos aparelhos de televisão; quem não puder arcar com os custos, que pena!
A proposta de criação de uma fábrica de microcondutores no país pode até ser aproveitada, enquanto fonte geradora de empregos e renda, mas atingirá os 12 milhões de empregos prometidos pelo nosso governante?
Cada vez mais somos tratados como as galinhas das antigas casas rurais, que eram trazidas para se alimentar com os restos de comida que ficavam pelo chão. O que restará à grande parcela do público consumidor? Somente as migalhas do grande banquete servido a uma minoria do povo.
Em um país onde parte considerável de sua população vive em meio a agruras financeiras, seja pela falta de emprego, seja pelo subemprego, parece-nos um contra-senso aplaudir o projeto insano que canaliza as atenções para algo que não vai mudar em nada a vida do cidadão que vive da coleta de materiais recicláveis e cuja única projeção de futuro que possui é a preocupação em conseguir o alimento de amanhã, somente para citar uma situação.
Mas no país do Bolsa-Família e do Bolsa-Escola, criados para angariar um curral eleitoral cada vez maior, aproveitando-se da fome e da necessidade de estudo de sua população,
nada mais coerente com sua incoerência do que aprovar-se um projeto deste tipo. Mas, enfim, a Copa do Mundo está aí, e continuamos nos entorpecendo da mesma droga que nos cega a cada quatro anos, e mais uma vez pactuamos com um governo todo casca, mas sem conteúdo.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina
A praga do gerúndio
Ana Elisa Moreira Ferreira
Os scripts de telesserviços chegaram às empresas brasileiras adaptados dos já existentes nos Estados Unidos. No inglês, o tempo verbal no gerúndio é utilizado com mais freqüência do que no português. Na adaptação para o Brasil houve uma tradução literal, sem mudança do tempo verbal.
E o gerúndio, na forma e freqüência com que é utilizado nos telesserviços, não é adequado para o português brasileiro. Aqui, esse tempo verbal é utilizado quando queremos falar sobre uma ação contínua futura que ocorre concomitante a outra. Por exemplo: Minha família irá para o Rio de Janeiro na sexta à noite. Eu estarei indo para o litoral de SP.
O gerundismo instituiu-se como sendo um padrão mais educado de passar as informações para o cliente. Os falantes pensam usar uma linguagem mais formal e mais culta. Errado! O uso do tempo verbal no gerúndio em excesso não transmite objetividade, nem tampouco prontidão no atendimento. Passa, sim, a sensação sempre de uma ação futura distante, gerando a insegurança no cliente sobre quando será feito. Ao ouvir Eu vou estar tentando estar pesquisando, o cliente pensará imediatamente: Quando? Vai realmente fazer?
E o pior é que o uso se faz tão instituído como adequado, que o vemos disseminado fora do telemarketing. Entre jovens, principalmente, em seu esforço de buscar uma comunicação que pareça mais correta. Na escrita, já se encontram excessos desse tempo verbal também.
O call center tem como uma das preocupações principais a redução do TMA (tempo médio de atendimento). É preciso investir na redução do gerundismo, estratégia importante para tornar a linguagem mais objetiva. Certa vez, monitorando uma operadora que estourava seu TMA, cronometrei uma explicação dada por ela a um cliente. Contamos, pelo menos, 10 ocorrências de gerúndio inadequado. No feedback reformulamos as frases e o tempo foi reduzido em 25 segundos. A rapidez no atendimento pode ser melhorada com redução do uso do gerúndio, não necessariamente falando mais rápido. Várias são as estratégias para eliminar esse gerúndio: transcrever os atendimentos e reescrevê-los com tempos verbais no presente, leituras de textos específicos, entre outros.
Além dessas e outras estratégias, é importante mostrar ao operador que o falar natural é muito mais importante do que tentar rebuscar a fala, deixá-la formal, principalmente usando erradamente algo que não faz parte da nossa Língua Portuguesa.
ANA ELISA MOREIRA FERREIRA é fonoaudióloga em
São Paulo e conselheira da Associação Brasileira de
Telesserviços
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