O poder da natureza humana

Daniel Steidle
  Rolândia festejou ontem aniversário de 72 anos. Momento de relembrar um personagem pouco conhecido da história da cidade e de alguém que simboliza a força dos anônimos.
  Há muitos e muitos anos uma pequena cidade da Alemanha, chamada Bremen, não conseguia crescer. As terras em volta da cidade pertenciam a uma baronesa avarenta e sem herdeiros. Entravam e saíam prefeitos tentando convencer, sem sucesso, a baronesa a ceder terras para a cidade. Até que um dia a baronesa, já bem velha, resolveu fazer um trato: daria para a cidade todas as terras que uma pessoa de sua escolha pudesse percorrer em um dia. A pessoa que ela escolheu foi um mendigo aleijado. ‘‘Eu, um mendigo anônimo! Ninguém ligava para mim, eu vivia me arrastando por aí, dependendo de piedade!’’
  Acharam que o trato da baronesa era uma brincadeira de mau gosto - o que podia o aleijado conquistar para a cidade? Chegou a hora do desafio, o pessoal ria e fazia apostas. Fizeram-no seguir o guia que mostrava o caminho. Ele andava com as mãos fortes e puxava o corpo, deixando um rastro para trás. A multidão barulhenta que acompanhava crescia. No decorrer do trajeto guias cansados eram substituídos por novos guias. A baronesa, observando de uma carruagem, ficou cada vez mais preocupada.
  O cortejo seguia, camponeses paravam de trabalhar, o sol ardia, as mãos do mendigo doíam. O barulho da torcida em volta dele foi ficando mais fraco em seus ouvidos, os latidos dos cachorros, a baronesa agora seguindo a pé, o prefeito, a poeira... qual o sentido disso tudo?
  A visão que ele sempre teve do mundo, mudou de repente. A sensação passou a ser de voar, o corpo não mais o incomodava. A alegria do povo que gritava ‘‘Você conseguiu todas as terras da baronesa!’’, soava como um riacho calmo. Feliz pela missão cumprida, ele morreu de exaustão. Em homenagem a seu feito esculpiram o seu rosto e suas mãos aos pés da estátua do patrono da cidade - o guerreiro Roland.
  Alguns séculos depois, Bremen ganhou uma cidade-irmã, Rolândia, do outro lado do mundo e mandou para essa, como presente, uma réplica da estátua de seu patrono. Nessa réplica também se pode ver o rosto e as mãos do mendigo aos pés do guerreiro Roland. Essa história estava esquecida. Escultores que vieram da Alemanha restaurar a estátua contaram aos curiosos a lenda. A história é redescoberta num lugar distante onde a terra é vermelha e onde crianças, com seus pés sujos, sobem às escondidas na estátua de Roland. A imagem do rosto e das mãos lembra o poder da natureza humana. Venha conhecer!
DANIEL STEIDLE é agricultor e educador ambiental em Rolândia



Sepultando esperanças

Edson Heringer
  No século passado e no início deste o brasileiro tem piorado em termos de sociabilidade e no relacionamento com tudo e todos. Não é mais vida que se leva nesta terra, principalmente a partir de meados do século passado. Quem viver mais de 70 anos terá tempo de melhores comparações.
  O brasileiro luta por melhoria de vida, um lugar ao sol e para uma sobrevivência razoável, mas paralelamente luta muito e torce para assistir o Brasil melhorar e, neste caso, homem e pátria são enterrados com uma utópica ilusão: não há sepultura que não o retrato de uma fantasia. E o nosso inimigo é um sistema político que é maluco e avacalha todos. No sistema são defuntos abstratos do governo.
  Todo brasileiro luta com prazer e garra pelas melhorias da nação. Mas creio que com políticos podres, instituições falidas, entregues a todo tipo de bandido - os políticos os piores - será difícil progredir com fôlego para superar crises, sendo nosso crescimento tão baixo. Na verdade, o que vejo é o país regredir. E, por isso, os brasileiros que estão indo para fora sofrem muito, mas não querem voltar e nem devem para não ficar se penitenciando na velhice com tantos problemas e má remuneração.
  Não é possível que os políticos não saibam que deste mundo nada se leva. Por isso, poderiam deixar as riquezas circularem pela nação sem roubá-la. Afinal, um dia nossa vida acaba nesse mundo e o dinheiro não é um bem do qual pode-se levar. Seria tão simples se houvesse apenas políticos honestos e com intenções boas e produtivas. Todos sairíamos ganhando, o país se desenvolveria, a pobreza seria erradicada e assim por diante.
  A verdade é que o brasileiro está piorando em marcha batida e rápida, por mais de meio século, principalmente nos últimos 70 anos. Depois que inventaram direitos humanos especiais só para bandidos e ainda com mordomias, nossa auto-estima vai direto para o lixo. Talvez sejamos os únicos que tratamos os bandidos com carinho, incluindo os perigosos, enquanto deveríamos ter direitos iguais e penas mais produtivas, tanto financeiramente quanto intelectual e moralmente para ricos e pobres. É um absurdo vermos os maiores ladrões de nossa sociedade livres, atrás de bem pagos advogados. E deixamos as famílias de militares sacrificados em nossa defesa ou policiais paraplégicos abandonados sem proteção. Aqui mesmo em Londrina temos casos deste tipo. O único meio do militar ou o agente se salvar é correr. Estamos chegando lá.
  Parece que os administradores e políticos fizeram profissão de fé e de amor pelo crime, quando na verdade são farinha do mesmo saco. Em época de eleições tornam-se meninos bonzinhos, amparados por políticas populistas de falso valor, mas eficaz em votos. Já estamos sem moral e começamos a nos envergonhar de nós mesmos, como previa Rui Barbosa. Devemos é fazer nossa parte.
EDSON HERINGER é empresário em Londrina


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