Altos e baixos da afetividade

Cristiano Júnior Balla
  Pagando os devidos royalties ao poeta pela paráfrase que faço - ‘‘Quem não gosta de futebol ou é doente dos pés ou ruim da cabeça’’ -, como é belo poder assistir a uma partida de futebol como nos dias de Copa do Mundo. Mas quando o Brasil foi tetra, em 1994, não pude assistir aos jogos, pois estava em meio à minha primeira crise de transtorno afetivo bipolar e os medicamentos fortíssimos me impediram de participar daquele momento especial.
  No dia 18 de maio comemorou-se o Dia da Luta Antimanicomial, movimento defendido por profissionais da área da saúde e afins e que possui planos e metas do governo federal em prol da humanização dos tratamentos psiquiátricos hospitalares no Brasil. As metas federais incluem instalação de CAPS, planos de redução de leitos, desativação de manicômios, etc., mas é com muito pesar que vejo a população alheia a tal realidade fazer vista grossa a esses problemas psicossociais que a cada ano se avolumam em nossa sociedade.
  É lamentável a situação vivida por Austregésilo Carrano, autor de ‘‘Canto dos Malditos’’, romance biográfico que deu origem ao filme ‘‘Bicho de Sete Cabeças’’ premiado em vários países. A Justiça paranaense regride na história da defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão ao mandar retirar das prateleiras a corajosa obra de Carrano que, como paciente, sofreu as conseqüências de sua passagem pelo sistema hospitalar de atendimento psiquiátrico brasileiro, adjetivado de injusto, desumano e assassino pelos inúmeros casos de maus-tratos relatados e que a cada dia faz novas vítimas anônimas, como citou Marcus Aurélio, coordenador de direitos humanos da Luta Antimanicomial.
  Ao contrário de coibir obras que denunciam esses maus-tratos, a Justiça deveria fazer sua parte cuidando dos direitos humanos desses pacientes que sofreram danos no sistema pelo qual passaram compulsoriamente.
  Obras como a de Carrano contribuem e muito para pressionar o governo federal a cumprir sua parte no movimento antimanicomial e devem ser publicadas no intuito de conscientizar a população. Só quem passa por tal sistema sabe o que acontece dentro do mesmo - eu também passei e sobrevivi -, e espero poder contribuir com obras a serem lançadas oportunamente para um 18 de maio que ‘‘rompa a incabível prisão’’, pois para tais pacientes viver é como jogar contra a seleção da Argentina todos os dias, enfrentando muitos altos e baixos da afetividade.
CRISTIANO JÚNIOR BALLA é escritor em Bandeirantes


Os mesmos acusadores do passado?

Walmor Macarini
  Quando vejo fanáticos adoradores de Jesus proclamando alucinadamente seu nome em alto brado e capazes de brigar por isso, retorno no tempo e os vislumbro proclamando: ‘‘Crucifiquem-no’’, ante a consulta à turba feita por
Pilatos.
  Sinto-os envoltos nesse carma, que supostamente veio trazendo-os por vidas sucessivas até os dias atuais e os mantém ainda atrelados pelas amarras a esse débito que assumiram, sem mesmo terem consciência disso.
  Ao assistir a tanta reação ante os que falam coisas novas e que transcendem tradições dogmáticas, imagino essas pessoas – hoje presentes em religiões diversas e até antagônicas entre si, como as mesmas que exterminaram tantos, só porque eles tinham convicções diferenciadas na época.
  Imagino reavivando-se nelas a memória remota do que devem ter vivido em existências anteriores e que, por conta disto, foram trazidas até os dias presentes pela impulsão de necessidades cármicas. E mantendo-se com as mesmas idéias.
  Na caminhada pelas vidas subseqüentes que teriam nesse círculo (e eventualmente ainda terão) – diz-se a roda de samsara – continuam intolerantes diante dos que hoje transpõem portais e encontram-se em outro patamar de consciência. Vejo evidências de que elas sejam as mesmas pessoas.
  Os sumo sacerdotes e aqueles que mandaram Jesus para o martírio da cruz devem ser
os mesmos que hoje se prostram aos seus pés em convulsiva adoração e clamam pela salvação de suas almas. Assim se operam os carmas, às vezes por formas inusitadas, como a de apegar-se obstinadamente a quem tenham um dia execrado.
  Intuo que a lei de causa e conseqüência as mantém agarradas às vestes do Mestre, não para o aprendizado e para a recorrência aos seus exemplos e ensinamentos, mas para a súplica. Suponho que a mesma figura demoníaca que imaginavam estar no corpo daquelas pessoas que no passado falavam de coisas transcendentes, agora as atormenta.
  Por isso crêem até hoje que demônios presidam a corrente dos que têm mentes mais claras e corações mais mansos, que não fazem discriminações de credos e disseminam palavras mais amorosas e mais consoladoras, sem acusações e sem crença em culpas, pecados e dominações satânicas, sem temor de Deus e de punições divinas, sem medos e sem receio da morte e do desconhecido, mas libertos e conectados com a verdade mais alta e soberana.
WALMOR MACARINI é jornalista na Folha de Londrina

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