Médicos à beira de um ataque de nervos

Marcus Vinicius Danieli
  Vi dias atrás na TV um colega médico que perdeu a paciência com um paciente do SUS (Sistema ˜nico de Saúde). Não quero aqui tomar partido ou defender ninguém. Porém, analisando o fato de uma maneira mais delicada, cheguei a uma conclusão que já me incomodava desde minha formatura: chegamos ao fundo do poço. Cada vez estamos recebendo menos pelos nossos procedimentos que perderam, além do valor, o prestígio, temos que trabalhar em vários empregos para poder pagar nossas contas (5, 6 e até 7 lugares, sem carteira assinada - sem férias ou 13º salário), temos que dar plantões sem remuneração nos hospitais tendo que assumir todos os casos que são internados - sozinhos, o que, com o Samu, teve um aumento significante, e ainda manter nosso consultório.
  Os planos de saúde não reajustam nossos ganhos há pelo menos 9 anos e a nova tabela elaborada para compensar este déficit, feita há 2 anos, ainda não foi implantada. O SUS nos paga pouco para assumirmos casos complicados, e também não reajusta seus valores há muitos anos. Ainda por cima, somos obrigados a participar de pelo menos 2 congressos ao ano (que aumentam nossos gastos) e temos que investir em material para não ficarmos defasados em relação ao que ocorre no mundo (tecnologia custa muito dinheiro - quem não gosta de falar que foi operado por laser? Para citar um exemplo). E, como tiro de misericórdia, a Prefeitura de Londrina agora nos obriga a pagar empresas privadas para recolher o lixo dos consultórios sem diminuir qualquer outro imposto!
  Então, nossa semana fica assim: passar visita nos pacientes internados, fazer 5 ou mais ambulatórios de SUS (primeira consulta e retornos de plantões), consultório, cirurgias (dos pacientes dos plantões, do SUS, do consultório). E ainda temos que cuidar da nossa saúde e participar da nossa família.
  Como alguém consegue manter a mente saudável nestas condições? Estamos no fundo do poço (assim como diversas outras profissões) e nossos governantes nos estão dando as costas. Isso é perigoso, pois quando começamos a perder nosso rumo podemos fazer coisas que estes mesmos governantes podem não gostar.
MARCUS VINICIUS DANIELI é médico em Londrina


Um segredo para a solução de problemas

Abraham Shapiro
  Hayim Zeller, o recém-chegado imigrante judeu-polonês a Nova York, estava há várias semanas sem trabalho. A situação de penúria de sua família já passava todos os limites. Soube que na sinagoga da Rua 36 estavam selecionando um responsável pela limpeza. Apresenta-se como candidato. Ao constatar que é único na seleção, enche-se de esperança e acredita que será sua a vaga. A entrevista, no entanto, se transforma num fiasco quando o secretário pede que ele leia em voz alta um texto em inglês. Hayim é analfabeto na língua de Shakespeare. Chateado, imaginava que fosse exigida fluência em iídiche e hebraico, seus idiomas maternos. O destino o havia levado a uma sinagoga reformista, onde o inglês é preferido aos antigos idiomas judaicos.
Sem saber que rumo tomar, Hayim precisa se mexer.
  Ele vê passar em sua mente os ensinamentos e experiências de seus antepassados. Neles está contido o fabuloso segredo judaico para solução de problemas. Primeiro: aprender com erros e acertos. Segundo: não sentir culpa pelos erros, mas arrependimento. A diferença? A culpa se transforma em um flagelo pessoal; o arrependimento é reconhecer o erro, corrigir-se e retomar a vida. Terceiro: esforçar-se ao máximo em tudo o que se propuser a fazer, pois, a visão do próprio esforço é a maior responsável pela auto-estima. Quarto: confiar na bênção de Deus.
  Hayim resolve dar seu primeiro passo prático para superar a crise: investe um empréstimo de cem dólares de um amigo na compra de uma grande variedade de canetas. Como camelô em uma das esquinas da Quinta Avenida, Hayim Zeller se põe a exercitar suas habilidades comerciais. O primeiro dia lhe rende uma extraordinária féria: quatro vezes o capital investido. A caminho de casa, cansado, mas cheio de alegria pela colheita, cumpre o importante preceito de pagar o mais rápido possível um valor tomado como empréstimo.
  A partir daí, dia após dia, o incansável Hayim cresce nos negócios. Vendendo, sorrindo e comunicando-se com seus clientes, vive uma vida cheia de privações, sem conforto nem gastos fúteis. Os anos passam e, com eles, lhe sobrevém uma miraculosa multiplicação de capital. Em pouco tempo, Hayim é um dos maiores industriais de todo o país. Certa dia, confortavelmente instalado em uma enorme sala no topo de um dos arranha-céus de Wall Street, Hayim recebe os advogados que trazem o contrato que irá selar uma fabulosa parceria de sua empresa com outra interessada.
  Milhões e milhões de dólares estão em jogo. Ao receber o contrato, Hayim solicita a seu assessor que faça a imediata leitura do contrato em voz alta e se desculpa com todos por sua ignorância da língua inglesa. A surpresa é geral. Embaraçado, um dos presentes, respeitosamente, questiona o poderoso cliente: ‘‘É notável! Sem conhecer inglês o senhor tornou-se um dos maiores empresários deste país! Imagino onde o senhor estaria se conhecesse bem nossa língua’’. Ao que Hayim, fazendo uso da perspicácia própria do modo judaico de expor idéias, responde ao jovem advogado: ‘‘O senhor talvez não saiba onde eu estaria, mas eu sei muito bem. Na sinagoga da Rua 36. Eu seria lá o funcionário responsável pela limpeza’’!
ABRAHAM SHAPIRO é consultor em treinamentos empresariais e desenvolvimento de liderança em Londrina

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