ESPAÇO ABERTO
Tributo a quem merece
Antonio Celso Costa
O comportamento humano mudou tanto que as pessoas éticas são tidas como bobas. Aqueles que agem direito, reconhecendo o direito dos outros e dando a cada um o que é seu, que tempos atrás não faziam mais que a obrigação, hoje são considerados heróis e merecem nosso respeito e admiração, tamanha foi a mudança na moral dos tempos atuais.
Um senhor que trabalha numa relojoaria tem demonstrado que vale a pena seguir os mandamentos do Criador tendo atitudes em seu trabalho dignos de nota. Ao levar um relógio com o pedido de que devia trocar a bateria, o relojoeiro depois de examiná-lo mandou a atendente da loja entregar ao proprietário dizendo que não era o caso de trocar por uma nova, pois apenas estava com mau contato e o relógio passou a funcionar normalmente. Perguntado quanto tinha ficado o conserto, o mesmo mandou dizer que nada custava.
O proprietário achou que o relojoeiro naquele dia estava feliz por alguma coisa de bom que lhe tivesse acontecido e ficou feliz por não ter que gastar dinheiro. Três meses depois outro relógio também parou e levado na mesma loja para o devido conserto, aguardou por cerca de 10 ou 15 minutos e logo veio o relógio com a mesma observação: não custava nada porque não era caso de troca de bateria.
Dessa vez, notou que o relojoeiro é uma pessoa ética, de comportamento cristão e que costuma falar a verdade. Voltando à loja, já no fim do dia quando as portas estavam sendo fechadas, perguntou aos funcionários que saíam como chamava o relojoeiro. Disseram que se chamava Mário mas nenhum sabia sabia o nome completo do relojoeiro.
Mário, pelo jeito age conforme a prova quádrupla do que pensamos, dizemos ou fazemos. É a verdade? Mário usou com o mesmo proprietário em ocasiões diferentes a pura verdade: o relógio não precisava de uma nova bateria. É justo para todos os interessados? Foi justo para o proprietário do relógio que não precisou pagar por uma bateria nova. Justo para o relojoeiro porque teve uma atitude decente e sua família deve ter orgulho dele. E para o dono da loja a atitude de Mário fará com que tenha mais clientes.
Criará boa vontade e melhores amizades? Sim a atitude de Mário criou boa vontade a ponto do proprietário redigir essas linhas para que todos soubessem de sua boa ação, resultando num futuro próximo melhores amizades. Será benéfico para todos os interessados? Claro que a atitude de Mário beneficiou a todos os interessados: ao proprietário que não despendeu nenhum centavo e descobriu mais uma pessoa honesta e ao dono da loja que terá o cliente elegendo a sua relojoaria como a melhor que conhece e será fiel ao adquirir bens e serviços aumentando o seu faturamento, lembrando sempre que mais beneficia quem melhor serve. Tributo ao Mário que merece o respeito e a consideração de todos.
ANTONIO CELSO COSTA é advogado em Londrina
E os bacanas que não vemos?
Wilhan Avila Santin
Boa parte da população de Londrina deve conhecer o Bacana, um senhor que mora em um pedacinho de asfalto no cruzamento da Avenida Dez de Dezembro com a Rua Tremembés, pertinho da igreja católica da Vila Casoni. Quem já passou por ali sabe de quem estou falando, apesar de muitos fingirem não vê-lo ou fecharem o vidro do carro para não ouvir o seu pedido de um trocadinho. Existem três comunidades em sua homenagem no orkut, e a jornalista Ruth Bolognese escreveu duas vezes sobre o Bacana nos últimos dias, aqui mesmo, na Folha de Londrina. O Bacana está famoso!
Sou um daqueles que passam naquele cruzamento todos os dias, muitas vezes também ignorei a presença dele. Outras muitas vezes fiquei imaginando as hipóteses que poderiam levar um homem a passar a noite - literalmente - no meio da rua, sem nenhum conforto e com carros, motos, ônibus e caminhões passando em alta velocidade a poucos metros de seu corpo. Neste dia 21 de junho deixei o relógio um pouco de lado e, apesar da falta de tempo, parei pra bater um papo com o Bacana. Não esperei que a conversa fosse boa. Imaginei que o uso excessivo de álcool já não lhe permitisse um bom raciocínio. Me enganei. Ele conversa muito bem.
A primeira pergunta que lhe fiz foi sobre a chuva que logo chegaria. Indaguei sobre o que faria para se proteger. Com um sorriso no rosto e muita tranqüilidade, Bacana respondeu: Eu me enrolo num plástico. Ele me contou que se chama Jair Almeida dos Santos, mas não tem nenhum documento. Veio de bicicleta de Caruaru (PE) procurando por parentes que nunca encontrou. Contou também que é mecânico de automóveis, capaz de consertar qualquer veículo.
Questionei os motivos que o levam a dormir naquele lugar, exposto a todo tipo de perigo, sendo que pode dormir em algum albergue ou até mesmo em uma calçada sob uma marquise. Ele disse que gosta dali e se acostumou com o barulho dos automóveis. Enumerei várias opções de lugares para se abrigar, inclusive obras sociais, mas ele disse não está disposto a trocar seu pedacinho de asfalto por qualquer outro lugar. Também não pretende voltar para Caruaru.
Fiquei impressionado com sua alegria, educação, bom humor e sinceridade. Não escondeu que é dependente de bebida alcoólica. Disse que usa o dinheiro das esmolas que ganha no sinal para comprar comida e pinga. Não tive coragem de perguntar se ele se considera feliz. Quando me despedi ele estendeu a mão e com um forte aperto desejou que Deus me acompanhasse. Fui embora e o Bacana continuou ali, aos olhos de todos nós. Fiquei imaginando quantos outros Bacanas existem em Londrina que não têm comunidade no orkut e não são citados nos jornais. Eles não dormem no meio da avenida. Estão nos albergues, mocós, sob marquises, barracos de favelas, mas - assim como o Bacana - a sociedade finge que não os vê.
WILHAN AVILA SANTIN é jornalista em Londrina





