O leão e o dízimo

Alceu Magro
  Sempre tive grande apreço pela fauna de um modo geral, porém, adquiri certa resistência ao reinado do leão. A antipatia nada tinha a ver com o bicho em si, mas o que ele representa. O leão é um animal esplêndido, realmente digno de ser chamado o rei da floresta. Mas no dia que descobri a relação do monarca dos animais com imposto de renda, me rebelei contra o seu reinado.
  Não que desejasse destronar o leão e colocar um animal manso em seu lugar. Nada disso. Na verdade queria fugir das lembranças ameaçadoras do imposto, sua voracidade e frieza. Inimaginável pensar que meus prezados recursos financeiros iriam parar nos cofres da fazenda nacional sem que pudesse apelar.
  Não bastasse o famigerado imposto, um dia alguém me ensinou sobre outra maneira pela qual não teria posse do meu dinheiro: o dízimo. Nesse dia as coisas ficaram ainda piores para mim. Indignado como ninguém atirava para todos os lados a frase: não darei o meu dinheiro para a igreja gastar desordenadamente.
  Não podia aceitar a idéia que o meu dinheiro repousaria nos cofres da igreja. Era injusto demais para comigo. No meu ponto de vista, por conta do dízimo e do imposto de renda, estava condenado a trabalhar muito e viver na pobreza. O dinheiro não ficar no meu bolso era a maior injustiça cometida contra um ser humano.
  E assim passei um tempo vivendo com esse peso. Pagava imposto porque não queria me deparar com a espada da lei. Quanto ao dízimo, ficava com ele sem evitar o sofrimento provocado pela dúvida. Parecia não ser direito retê-lo, porque neste tempo já acreditava que a Bíblia é a palavra de Deus, portanto, não tem erros.
  Deixei a vida correr pagando imposto de renda, retendo o dízimo e lendo a Bíblia. Até que me deparei com o relato dos homens que vieram provar Jesus. Querendo ver Jesus em contradição perguntaram-lhe se deviam pagar os altos impostos cobrados pelo império romano. Jesus apontando para a inscrição do imperador César numa moeda respondeu: ‘‘Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’’.
  Continuando a minha pesquisa no texto bíblico encontrei um ensino sobre o dízimo. Dizia o texto: ‘‘Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós tal bênção, que dela vos advenha a maior abastança’’.
  Foi então que descobri o motivo da minha resistência com relação ao imposto de renda e ao dízimo: o apego ao dinheiro. Até aquele momento da minha vida, o amor ao dinheiro estava acima de todo poder, inclusive acima de Deus.
ALCEU MAGRO é bacharel em Teologia e funcionário público estadual em Maringá



A centelha divina no homem

Walmor Macarini
  Se apenas duas coisas o ser humano admitisse, teria menos atribulações e seria mais feliz. Uma, que é parte de Deus, não importando a condição em que se encontre. Outra, que vem de vidas sucessivas, cada uma encadeando-se com as anteriores, no rumo da perfeição e, ao final, para o retorno à plenitude. Sendo centelha divina, mesmo que eventualmente envolto na densidade dos delitos, sua realidade essencial não se deteriora e, no momento que terá de ser, emergirá da penumbra e retomará o caminho de volta à origem primeira.
  Onde há vida, aí está Deus. Por isso que Deus também se encontra onde estão as agonias, aqui e nos umbrais, e onde estão as alegrias dos níveis de grande luz. Nada existe de superior e de inferior, porque tudo o que é e existe compõe uma só coisa. Também o que forma as ditas correntes do mal integram o corpo de Deus. O que se costuma denominar de forças demoníacas não são mais que instrumentos do mesmo Deus colocados à disposição do homem para que deles se utilize, se estiver propenso.
  A Terra é um campo de serviço, de aperfeiçoamento e de experimentação, onde o ser que a habita nunca é o experimentado, mas o experimentador. Assim se revela a misericórdia divina, que permite – pela vontade de cada um – aportar neste vale de lágrimas e buscar redimir-se de falhas passadas ou empreender as obras que se propôs executar nesta paragem. Não há abismos eternos em que o indivíduo seja lançado. Estes são temores difundidos por corporações religiosas para manter cativos os fiéis.
  Mesmo o mais embrutecido dos homens guarda em seu âmago a memória remota de algo que transcende a sua fisicalidade. Manifesta-se aí a força regente que ele não decifra bem, mas pressente. É esta a presença da centelha divina, o seu Deus interno, ou o Eu Superior. Portanto, todos somos salvos, porque esta vivência terrena – e a sucessão das muitas que cada individualidade vai experienciando – é apenas uma passagem de duração temporária, embora essa caminhada possa durar milênios.
  O evento do tempo é um fenômeno apenas deste mundo e dos mundos de densidade semelhante. A experimentação não poderia se operar sem a carga do tempo, que gera a sensação dos dias, dos anos, dos milênios, e por esse processo nascemos em corpo físico, envelhecemos, morremos, nascemos de novo em outros corpos e assim sucessivamente, até que o processo se cumpra.
  A volta ao estado da plena graça é o destino final de cada ser, mas a obra não cessa nunca e pode nos conduzir, contínuamente, a voluntárias missões em outros pontos do infindável universo. Não há descansos eternos. Porque somos todos obreiros. Da mesma forma que Jesus e tantos avatares da mesma linhagem baixaram à Terra através dos tempos, e de muitos mártires, não evidentemente para resgates cármicos mas em doação para a obra da redenção. Todos estavam conscientes dos riscos que correriam no abismo desta densidade terrena. E também aí estava a presença de Deus. De qualquer modo, a centelha divina no homem continua prevalecente, só à espera de que ele mesmo a expanda.
WALMOR MACARINI é jornalista na Folha de Londrina


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